October 22, 2009

 Beast inside 

“- Me conte sobre as coisas no porão.
- O que tem elas?
- Me fala sobre essas coisas aí dentro. Elas têm raiva?
- Raiva? (…) Sabe, às vezes é difícil respirar. Como se tivesse essa fera dentro de mim.” (Rocky Balboa, 2006)

Eu tive dois papos muito interessantes hoje. Um foi com a Adri, conversamos sobre nossas diferentes formas de abordar divergências. E conversei também com outra pessoa que eu não vou nomear. Digamos, V. Como “de Vingança”. Bom, com V o papo não foi dos mais agradáveis. Foi uma briga onde um monte de coisas tentaram sair, aqueles detalhes que vão se acumulando até que um dia explodem (por isso a citação de Rocky Balboa (por sinal, o segundo melhor filme da série)).

As pessoas guardam muita coisa. Eu já fui assim, mas não acredito mais nisso. Eu acho que as coisas que a gente fica guardando são perigosas. V me deu uma série de coices semana passada, aparentemente sem motivo. Coisas guardadas explodem. Com certeza fiquei feliz de eu não ser o tipo que guarda muito, senão teria sido bem mais feio, mas eu falei o que me incomodava, e até tentei descobrir os motivos. Enfim, é suficiente dizer que, por enquanto, parece que não estamos mais nos falando. O interessante foi a conversa, foi a primeira vez que eu percebi, conscientemente e na hora, a explosão. Não é uma coisa que acontece súbito, existe uma certa lentidão no processo. Se você parar pra prestar atenção, dá pra ver o ar se expandindo muito rápido, o fogo e os estilhaços. E dá pra conter, também, mais ou menos. Ou então foi assim só hoje.

Interessante foi depois, conversando com a Adri sobre nossas diferentes formas de tratar divergências. Ela pega rotas mais pacíficas, enquanto eu tenho uma tendência mais conflituosa (isso é uma simplificação). Eu discuto, e ao contrário do que rezam as lendas, posso ser convencido, se a outra pessoa estiver disposta a mostrar os argumentos razoáveis pra isso. Não sou senhor da verdade, nem sei de tudo, mas eu não tenho dúvidas sobre o que eu sei e o que eu penso. E eu falo mesmo. Lembro hoje da @ascatia falando que nem todos querem saber verdades; eu quero. Não me incomodo que outras pessoas compartilhem as suas verdades comigo, e pros poucos que tiveram coragem de fazer isso (aparentemente, é preciso ter muita), eu mostrei que aceito bem.

É engraçado que, quando você também está disposto a discutir, menos pessoas estão dispostas a falar. Parece que as pessoas só têm certeza quando sabem que não terão réplica. Eu sei que pareço arrogante dizendo isso, mas é difícil não pensar que eu tenho razão a maior parte do tempo quando todos agem assim. Afinal, qual é o medo de discutir?

Isso me leva de volta ao papo que estava tendo com a Adri, dessa vez um trecho sobre como eu tinha tanta certeza. Estávamos falando sobre caminhos, quais os melhores a tomar. E acho que o mais apropriado é colar um trecho. Espero que ela não tenha problemas com isso :-) alterei um pouco pra melhorar a fluidez do texto.

Adri:
melhor caminho?! existe?
Ornitorrinco:
bom, se existe um número limitado de caminhos, um deles inevitavelmente vai ser melhor que os outros
Adri:
diferentes
Adri:
melhores ñ tm como saber
Ornitorrinco:
com alguns, tem
Adri:
depende do q no momento for o objetivo
Adri:
tem? como eu sei qual é?
Ornitorrinco:
boa pergunta
Ornitorrinco:
a gente segue os instintos =)
Adri:
mas qm diz q eles acertam e escolhem O melhor?
Ornitorrinco:
não sei =) meu truque é não ligar
Ornitorrinco:
eu escolho o que eu vejo como o melhor
Ornitorrinco:
e o resto já era
Adri:
Ornitorrinco, sério, um dia ainda descubro o q é toda essa auto-confiança; ou se é só a carcaça
Ornitorrinco:
haha parte é, e mais uma armadura
Ornitorrinco:
mas não isso
Adri:
acho tao estranho alguem falar com tanta certeza
Ornitorrinco:
eu sei, mas eu tb não entendo como as pessoas falam com tão pouca

E eu realmente não sei. Eu olho pras pessoas tendo dúvidas sobre quase tudo na vida e me pergunto como essa gente toma qualquer decisão. Vai ver por eu ter ouvido sobre isso tantas e tantas vezes, e a pessoa que melhor sintetizou foi o Fernando Anitelli, do Teatro Mágico, em uma só palavra: “Permita-se”. Eu me permito. Pessoas gastam tanto tempo procurando o melhor caminho, eu gasto meu tempo mais pensando se o caminho que estou pegando vai ser ruim. O truque é não pensar muito, porque não adianta de qualquer maneira. “Agora” é o único tempo que a gente tem, e ele é muito curto pra grandes análises. Carpe Diem. Ou Noctem.

Eu já fui muito oposto a isso. Diametralmente. Todos os 180 graus do outro lado (não 360, por favor, lembrem-se disso), eu mais vivia que pensava. Felizmente eu cresci e aprendi com um cara de dreads que a vida tá passando, aprendi com um palhaço que a gente só tem agora, que o resto é bobagem, e isso vale pra tudo. Vejam o meu papo com V: esperou até a última hora pra dizer o que eu fazia que incomodava, e a única coisa que fez pra manifestar esse sentimento foi ficar me escrotizando e mentindo motivos. Eu já passei do tempo em que entendia isso, então nem vou ficar muito no assunto, mas querer compreensão por agir assim eu acho sempre pedir demais.

Quando você adquire esse tipo de “confiança”, percebe que é tão cego quanto as pessoas do outro lado, sobrepensando e meditando. Ninguém sabe o que vem depois. Eu não sei o que vou fazer de um dia pro outro. Certa vez, eu decidi e fui pra São Paulo. Eu decidi e fui pra Santa Maria. Um dia eu acordei e fui de trem falar com o Buda em Porto Alegre. Vários domingos eu já dormi o dia inteiro. O que vem depois? Sei lá. Só sei que parado, pensando no que não vai acontecer, você não vai a lugar algum.

Desafio: conversem com uma pessoa sobre algo que ela faz e te incomoda. Ponto extra se escolherem alguém que não vá aceitar isso numa boa.

August 31, 2009

 Privacidade 

A internet vai acabar com a vida privada?

Aceitem os fatos, dinossauros: comunicação via internet veio para ficar. Vocês podem reclamar o quanto quiser sobre como é impossível conhecer pessoas sem ser cara-a-cara, como não é a mesma coisa, como existem coisas faltando, e tantas outras reclamações sobre as quais vocês poderão até estar certos. E em alguns casos até estarão certos, mas não importa, a tecnologia avança, e se o melhor uso que vocês podem fazer dela é para reclamar no twitter/orkut/facebook/afins sobre como twitter/facebook/orkut/afins é ruim, então sai da frente, que eu vou me adaptando (e saindo do seu jardim).

Minha motivação é o caso da professora infantil que foi filmada dançando “Todo Enfiado”, com a “coreografia” e tudo. Foi demitida. Se tivessem demitido ela pelo gosto musical, eu entenderia. “Todo Enfiado”, por acaso isso é nome de música? Já existe a “Dança Vadia, Que Eu Quero Te Comer”? Se não existe, descobri o hit do próximo verão.
Mas divago.

Eu tenho certeza que o principal argumento foram as “más influências” que ela pode exercer sobre os seus alunos. Imaginem o horror, quando criancinhas de 5 anos começarem a se vestir como prostitutas e a dançar ao som de melodias libidinosas de forma erótica.
Se bem que isso já existe, e se chama “Rebeldes”, que, pelo que eu entendo, faz um puta sucesso, com aval dos pais. Não, não deve ter sido pelas “más influências”, em especial porque ela não fez isso em aula, não fez isso na escola, fez isso num festival de pagode (ou como quer que essas zorras se chamem), em seu tempo pessoal, e imagino que sem levar qualquer aluno junto. E teve o azar de ser filmada, e ter ido parar na internet. E aí vem várias pessoas (e, se formos pesquisar cada uma a fundo, eu imagino que vamos descobrir que várias delas fazem coisas tão “ruins” quanto ou piores, sem câmeras por perto — ou com, vai saber) chegam pra julgar.

Essa demissão me lembrou um assunto que surgiu esses tempos em uma reunião na empresa onde eu trabalho: regras de conduta em redes sociais, para qualquer um que se apresentar como funcionário da empresa. Ou seja, se eu disser o nome da empresa no twitter, de repente não posso mais defender posição como ateu, não posso falar mal de certas empresas cujas práticas e/ou produtos eu não gosto, além de ter que manter uma conduta como se estivesse o tempo inteiro no trabalho.
Mas peraí!
Não estão me pagando para isso. É o meu lazer, comoassim a empresa acha que pode determinar o que eu faço no horário no qual eles não estão me pagando? Isso é baseado em quê? Eu não sou um representante da empresa, sou adulto e responsável pelo que escrevo. Se eu escrever um livro (é, sonhe!), a empresa vai poder ditar o tema?

As empresas têm direito de exigir conduta fora do trabalho? Quais as opiniões de vocês sobre isso? GO!

August 22, 2009

 Protesto silencioso 

Toda revolução é sangrenta. Acho que foi Malcom X que disse isso, ou algo assim. A história do século XX teve grandes marcos nas guerras. A história anterior, também. O status quo raramente mudou em silêncio, mas aconteceu bastante no Brasil. A nossa independência foi comprada, nossa república foi só uma mudança de mãos do poder. O povo sempre teve a voz silenciosa da reclamação de bar, de salão.

Deixando o passado mais distante de lado, chegamos no mundo dos anos 60. A ditadura tentou silenciar a oposição e aí surgiram os grandes artistas. A música de protesto, que se estendeu por anos. Até hoje, aliás, embora hoje ela esteja praticamente morta. Foi comprada, esqueçam. E a música também já atingiu seus limites, hora de mudar de tática. Ou melhor, de somar táticas.

Música é propaganda. Ajuda a espalhar as idéias, o que é ótimo, mas pára aí. Eu já fui em shows onde a banda falava como se ao sair dali Sarney iria para uma cadeia. Se eu não tivesse certeza de que seria linchado, teria dito “Pô, não é por aí! Já notaram que todas as 20 pessoas aqui concordam com vocês?”.
Sim, porque o show era num moquifo vazio, e não tinha nem 30 pessoas no lugar. E todas concordavam com a banda. Notaram a falha?

É como a idéia do “protesto”. O “protesto indignado”. O “protesto silencioso”. Todos estão protestando, mas pra quê? Notaram que o Sarney está lá? O Lula é popular, FHC teve dois mandatos, e ninguém saiu por protesto. Dizem que o Collor, mas ele estava tão queimado que os caras-pintadas dificilmente seriam necessários. Minha teoria é de que eles foram uma extensão do mito do movimento estudantil. Felizmente, esse é um dos que já foi por terra, espero.

E claro, espalhar a idéia é uma boa, mas e depois? Quando você tiver um número razoável de pessoas que pensam como você, o que você faz? Partimos para a luta, certo? ERRADO. Revolução Russa. Revolução Francesa. A queda do Império Romano. Todos mudaram absolutamente nada. Derrubar estruturas de poder podres e depois instalar algo novo e melhor com certeza tem o seu valor, mas ignora o passo essencial: a manutenção.

A história mostra que o estado que as coisas são não muda. O poder tende a se concentrar na mão de poucos, e esses poucos abusam, até serem derrubados. Motivos pra isso seriam desviar do foco, mas vejam bem: é constante. Por que é constante? Por que as coisas mudam tanto e tão pouco sempre? Existe um padrão aí.
Interlúdio: quando eu era pequeno, eu era daquelas crianças que gostavam de Lego. Não que gostasse de brincar com ele, minha diversão era montar coisas, admirar por algum tempo, e destruir pra fazer outra. Passei muitas horas assim.
O padrão é que os revolucionários chegam, constroem, e depois vão embora. E surgem os parasitas. Acabei de perceber como isso também é parecido com o ciclo vital: nascemos, nos desenvolvemos, e então decaímos e somos decompostos. A diferença, aí, é que o organismo não tem opção, mas estruturas hierárquicas têm. E é nesse ponto que eu queria chegar.

Precisamos desabafar. Precisamos espalhar as idéias. Diachos, até uma revolução nas ruas é importante, ocasionalmente. Mas não basta. Chegar no ápice é importante, mas mais importante é manter-se lá. É afastar os parasitas. É o passo que falta: revolução nas urnas.

As pessoas reclamam da democracia. Reclamam de ter que votar, de que não tem em quem votar, mas vão e votam. Democracia é tão liberdade que o voto é obrigatório. Irônico, não? E, apesar das reclamações e queixas, como é que os mesmos nomes sempre voltam pro poder? Os mesmos nomes todas as vezes. É a falha no terceiro e mais importante passo, a revolução nas urnas. A democracia precisa do seu voto. Se você tem um candidato, apoie-o (só não saia sujando a cidade, por favor), vote nele. Se você não tem, então diga bem alto que não tem ninguém que merece seu apoio. Não vote no menor dos males, porque ele ainda vai te prejudicar.
E por que não se candidatar? Não como um candidato zombeteiro (embora eu adore um bom palhaço), mas como um candidato sério. E, se for eleito, ao invés de ceder aos impulsos, agir direito? Porque os eleitos têm opção, e quando vierem te oferecer algum suborno, você pode simplesmente dizer não. É algo a se pensar. Podem ter certeza que eu ainda vou aparecer em alguma cédula.

Precisamos de bons candidatos pra manter o que se construiu. Pra recuperar o que está se desfazendo. É hora de parar de desmontar os brinquedos e começar a brincar.

“Se eles já sabem quem somos, por que não falamos mais e mais alto?” (Jello Biafra)

July 17, 2009

 Pizza 

Que no Congresso tudo acaba mal, ou, em bom português, em pizza, nenhum brasileiro mais deve ficar surpreso. Nós conseguimos, montamos uma estrutura auto-suficiente de poder, onde o povo serve apenas para ratificar a permanência dos mesmos velhos nomes no poder. Me pergunto de onde as pessoas ainda tiram a idéia de que democracia é uma boa. Só falta de idéia melhor pra explicar isso, mesmo.

Que a nossa democracia representativa é falha, todo mundo fala. E até o presidente, que soltou a sua melhor pérola ontem (e a primeira a ser esquecida, provavelmente). Quando perguntado sobre a CPI, o Presidente Lula aproveitou pra dar uma cutucada legal, e dizer que só queriam chamar atenção, e que “Todos eles são bons pizzaiolos”.
Obviamente, o Senado não gostou.
Mas eu gostei.

Acho que nunca gostei tanto do Lula no poder quanto agora, e já teve vários momentos que eu achei o máximo a eleição dele. Gostei de finalmente a mídia estar dando atenção real ao que acontece nos bastidores (quando o governo era de direita, se vocês bem se lembram, nunca tivemos tanta cobertura do que se faz de errado lá em cima), assim como gostei de como o Lula fez sucesso lá fora. Não acho mais que a eleição dele tenha sido uma idéia tão má assim.

Porém, divago. A reação dos senadores reverberou longe, dentro e fora das paredes do Senado. Seguiram até a regra dos revolucionários de cadeira, e postaram sua indignação no twitter! Urru, vamos salvar o mundo das cáries em 140 caracteres!
Saca só:

@joseagripino O destempero verbal do presidente Lula com a estória do pizzaiolo é um caso típico de TPCPI: Tensão pré-CPI http://migre.me/3IlQ

@marconiperillo Lula chama senadores de pizzaiolos. Repudio,a atitude impensada e inadequada do presidente da República.

@marisa_serrano Achei absurdo o que vi nos sites de notícias sobre a declaração de Lula de que senadores da oposição são pizzaiolos. Rebati em Plenário.

@alvarofdias LULA se tornou o maior pizzaiolo do país quando não tomou providências e não puniu os acusados de seu governo envolvidos em corrupção

@delcidio Não concordo com as declarações do presidente Lula sobre os “pizzaiolos”. O senado tem é “grands chefs”.

Reclamações de nível. Ao invés de fatos, temos contra-acusações! E é assim que todos serão adequadamente esquecidos, no momento certo.

Mas se tem uma categoria que (espero eu) não vai se esquecer tão cedo, é a dos… ta-da-da-daaam PIZZAIOLOS! Num acontecimento digno de um final de piada, os pizzaiolos se ofenderam de ser comparados com Senadores! Eu estou louco para ver como o CQC vai aproveitar isso. Com sorte, veremos Rafinha Bastos oferecendo pizza nos corredores do Senado.

Mas cara, na boa, quando o Presidente diz que o Senado não presta, através de uma metáfora, e o Senado, ao invés de mostrar que ele está errado, ficam reclamando no meio do serviço, e acima de tudo, o grupo mencionado na metáfora se ofende…
Em um dos seus álbuns, gravados anos atrás, Jello Biafra afirmou que o então presidente Ronald Reagan não passava de uma marionete dos verdadeiros detentores do poder, as corporações, que estava lá apenas para divertir o públ… povo estadunidense (”Meus personagens de desenhos favoritos (quando estava crescend) eram Bullwinkle e o Senador Everett Dirksen”, ele diz, em um desses discos). Me pergunto se Lula e o Senado não estão lá apenas como marionetes de si mesmos e dos outros, distraindo o povo com esse tipo de piada, enquanto roubam e/ou angariam mais e mais poder político.

Pensando bem, não tenho muitas dúvidas sobre isso.

July 5, 2009

 Filantropia 

Eu sempre digo que software não é coisa que se venda para usuários pessoais. Só quem paga mesmo por software (excetuando-se uma minoria) são aqueles que são bem fiscalizados, interna e externamente. Ou seja, empresas.

O usuário residencial trata seu computador como se fosse uma TV, que só se paga uma vez, e talvez a assinatura da TV à cabo (e, se considerarmos conexão com a Internet, é possível ver que a analogia é bem adequada). Pessoas não compram Windows, Office, muitos não compram jogos, a maioria baixa filmes e músicas de graça, usa anti-vírus gratuito, freewares para todo o lado… e têm suporte de graça, também.
E ninguém pensa que todas essas coisas tem valor. Logo, devem ter um custo associado, não importa quem o pague (ou então eu tenho um entendimento errado sobre esse ponto de economia). Alguém trabalhou para fazer isso, e podem ter descoberto algum modelo de negócios que permita distribuir o programa de graça. Ou talvez seja apenas hobby. Mas tem uma área onde isso não é possível: suporte e manutenção de computadores.

Tenho certeza que todos os entendedores de computador lendo esse texto reconhecem a seguinte frase, provavelmente em um ponto quase irritante: “Ah, vc entende de computadores? Olha só, o meu tá com um problema…”. A resposta correta para essa frase seria assumir uma cara de paisagem e ignorar, ou se prontificar pra formatar (”Não, não tem como salvar seus dados, sinto muito! :-(”), ou ouvir e dizer “O problema pode ser tal, mas pra ter certeza eu teria que ver pessoalmente. Esse é o meu telefone, me liga e a gente marca um horário para eu ir até lá”. E cobrar a visita. Não em uma pizza, um “favor” (possivelmente a moeda de valor mais flutuante da história da economia), ou algo assim, mas na mesma moeda usada por profissionais de todas as áreas: dinheiro.
Porque eu até posso fazer isso por diversão, mas também precisamos fazer supermercado.

Eu sei o que a maioria dos usuários pensa disso. “Ai, mas o que que custa, vc sabe resolver, prq não me ajuda?”, e a resposta é a mesma que seu médico, advogado ou arquiteto lhe daria caso você lhes pedisse “ajuda” similar: porque ninguém trabalha de graça. Não sou contra, e até realmente ajudo, um círculo pequeno de pessoas próximas. Mas tem que ter muita amizade pra poder me pedir algo assim e esperar que eu realmente faça o serviço pra valer. Pra não passar por antipático, eu costumo enrolar a pessoa: abro alguns programas, dou uma olhada no registro do Windows, penso em alguma outra coisa e digo que não sei resolver, e que é melhor chamar um técnico. Do tipo que cobra.

É uma tremenda sacanagem esperar que seu conhecido que entende de computadores resolva todos os seus problemas por 4 motivos, que vou explicar com uma analogia com carros:

  1. Mecânico nenhum vai consertar seu carro de graça, embora alguns mais camaradas não cobrem pelo diagnóstico
  2. Aprender como funciona e como consertar carros leva tempo e dinheiro, e é algo que merece compensação
  3. Mesmo só diagnosticando o problema, o mecânico vai estar te cedendo seu tempo e conhecimento. Pense nisso
  4. Contratar e pagar um mecânico profissional movimenta a economia (é dinheiro circulando)

Você não espera que nada para o seu carro seja gratuito. Na verdade, se você for como eu, provavelmente antecipa que qualquer coisa envolvendo o seu carro vai lhe custar os olhos da cara. Entenda: seu computador não é diferente. E vai ser pior que o seu carro, porque além da parte física, vai ter o custo do software. E as complexidades do software, com as quais você, querido usuário, não quer lidar. E aí o problema é seu.

Computadores são máquinas multifunção. Eles podem realizar virtualmente qualquer cálculo matemático, e podem atingir os mesmos resultados práticos que a manipulação de números consegue. Tudo em um computador são números (na verdade, até números são uma abstração, mas isso foge do escopo do texto), e apesar dos avanços dos últimos anos para simplificar o uso de computadores, o que roda por trás dessa simplicidade toda ainda é extremamente complexo. O seu conhecido que entende de computadores escolheu aprender parte disso, e a sua recompensa é não ter que chamar o técnico a cada problema. Você repete o mantra “tenho mais o que fazer” e vai assistir televisão, e aí o problema é seu. Não é difícil aprender a identificar quais endereços e quais tipos de e-mail são perigosos, ou como melhor reaizar tarefas básicas para evitar que seu computador exploda na sua cara (aliás, isso é um absurdo. Computadores explodem, mas derretimento é igualmente provável), e se você não pode se dar à esse trabalho (eu e seu conhecido que entende de computadores pudemos, e temos belas vantagens) para assistir o enésimo episódio de mesmo enredo da sua série de TV favorita, pague o preço. O preço cobrado pelo técnico.

Caso pessoal: certa vez, fui com meus pais almoçar na casa de um amigo deles. O tal sujeito, ao saber que eu faço Ciência da Computação, pediu pra eu ver se eu podia deixar o seu computador mais rápido. Eu disse que podia tentar, fui lá, verifiquei meus e-mails, feeds, orkut, voltei e disse que fiz o que podia, e que deu uma melhorada. Tempos depois, fiquei sabendo que o sujeito estava agradecido, que a velocidade realmente tinha melhorado. Detalhe: a instalação do Windows era bem recente, e ainda não tinha os danos que ele já deve ter causado.
Não me sinto culpado por ter agido assim. Ele recebeu o serviço pelo qual pagou, o que eu considero uma filosfia importante para qualquer um que trabalhe na área: dê a eles o serviço pelo qual pagaram. Você não deve nada além disso.

Caso pessoal 2: eu recentemente postei um tutorial rápido, simples, objetivo e bem completo sobre como configurar um modem 3G no Linux. Isso atraiu e ainda atrai bastante visitas, e também parasitas. Veja alguns comentários que não passaram pela minha triagem:

Name: Antonio Marcos | E-mail: antmarsousa@msn.com | URI: | IP: 189.97.230.21x

Amigo você pode me ajudar? eu quero usar linux no meu not mais nenhum ainda consegui fazer conexão com a net, pra eu usar tem que ter net. meu modem é um huawei E156. por favor me ajude mande-me pelo meu email

Name: kobold_sequelado | E-mail: kobold_sequelado@hotmail.com | URI: | IP: 189.0.234.14x

eu tenho um huawei e156 e uso windows vistas, porém o modem tem um problema constante, quando to jogando jogo online ele da um pico q acho ser de upload e trava o jogo. mas net ainda esta conectada. existe algum mei de se resolver isso ?
to meio desesperado.
=-p
manda um email com o titulo 3g ou e156 pls.

Essas são pessoas de quem eu estou falando. Os dois me irritaram pelo mesmo motivo, o pedido de enviar instruções por e-mai. Ora, se querem um retorno, voltem ao blog e releiam a seção de comentários, que é o único lugar onde eu respondo, a não ser que eu esteja de ótimo humor. Outro motivo é que ambos são idiotas completos: um quer usar linux e obviamente não seguiu o tutorial, e provavelmente usa outra operadora ou algo assim, e não entendeu que não se estende para o caso dele; o outro é um idiota que não entendeu que o tutorial é para Linux, e que eu não sou suporte técnico para Windows, em especial o “Vistas”. Por que eu deveria aceitar ajudar gente assim?
Não receberam resposta até hoje, mas ambos estarão recebendo em seus e-mails o link para esse post, que eles não lerão, mas que os irritará :-) e essa é toda a diversão que eu espero tirar disso.

Houve um outro sujeito que também pediu ajuda.

Name: Eduardo Luna | E-mail: lunadudu@gmail.com | URI: | IP: 189.0.236.24x

Otimo tutorial, estou baixando o fedora 10 para usar este turorial e instalar o meu e156 da vivo, mais gostaria de saber se no fedora(nao conheco muito) tem como voce mudar a rede dele para WCDM ao inves de GSM? Aqui em recife conectado em WCDMA(inicialmente só conseguir no windows, tentei no ubuntu e no debia e nao obtive sucesso com WCDMA só GSM).
Parabes pelo tutorial e espero um retorno seu.
abraco

Esse teve uma abordagem BEM melhor que os primeiros, mas pediu conhecimentos que eu não tenho. Claro, eu poderia pesquisar no Google para ver se acho a resposta, mas ele também poderia, e sendo o maior interessado, acho que é a pessoa que deve fazê-lo. Eu PODERIA ajudá-lo, mas nisso estaria falhando na minha lista de motivos acima (notem que ele falha em quase todos os items).
Mas é o único que me faz sentir algo próximo de lamentação por não ajudar.

Em nenhum desses casos a pessoa me ofereceu qualquer tipo de compensação, e eu duvido que pudesse extrair algum conhecimento válido disso. Eu não tenho, realisticamente, motivos para ajudá-los, a não ser que vocês contem aquele sentimento gostoso de ficarmos felizes por ter ajudado alguém que precisava que as pessoas costumam considerar compensação válida por consertar o seu computador. Me digam, por que eu deveria fazê-lo?

Agora, eu sei que existem por aí diversos técnicos ruins, que vão simplesmente te dizer para formatar o seu computador (dica: os piores “técnicos” fazem isso mesmo que não seja necessário). Não discuto, e na verdade, sou o primeiro a falar isso. Não é meu ponto. Existem maus médicos, maus advogados (com o perdão da redundância), maus mecânicos… é seu dever pesquisar e identificar esses caras, e evitá-los. Simples assim.

Como eu disse, o problema é seu. Não espere que seu conhecido que entende de computadores o resolva por você. Ou que eu o faça.

February 13, 2009

 Rendição 

Ok, humanos, eu me rendo. Na verdade, já há muito desisti, só que hoje formalizo minha rendição. Sou obstinado, persistente, teimoso até, mas a sabedoria exige o reconhecimento das batalhas perdidas que não merecem ser travadas. E a interação social seguindo suas regras é uma delas.

Tentei aprender, como melhor faço: observação. Acredito que, com observação e com a mente apurada o suficiente, não há sistema lógico que não possa ser decifrado; mas essa regra vale apenas para sistemas lógicos. Interações entre humanos não são lógicas, ou talvez o sejam, mas sua natureza não-determinística impede que sejam reduzidas a um número adequado de algoritmos bem-definidos. Pelo contrário, a quantidade de desvios e exceções e variáveis aumentam rumo ao infinito. Há sim um conjunto de regras básicas, em especial para relacionamentos mais distantes, como conhecidos ou parentes distantes. E mesmo nesses casos, é normalmente aceito, é impossível atingir algo próximo à adequação em cem por cento dos casos. O que resta, então, senão a rendição? Desisto, então, prezados e nem tanto, de tentar participar de sua tão aclamada civilização.

Ao menos, em seus termos. Explico-me.

Assim como muitos (e, bom ou mau, muito poucos), estou agora impondo meu próprio conjunto de regras para interações. Sei que nenhum ou poucos irão compreendê-las em sua plenitude, ou mesmo aceitá-las, mas espero conseguir transmitir a estrutura lógica que as guia.

A primeira é repúdio total ao tratamento melhor que polido e frio à pessoas que me desagradam, seja pelo motivo que for. O motivo mais forte é que, ao meu ver, tratar pessoas desagradáveis tal como eu trato amigos é uma ofensa aos últimos, que possuem características que eu considero virtuosas, e que me tratam com o respeito e o carinho que os primeiros não demonstram. Igualar ambos é um ato que beira o criminoso.

Eu renuncio toda sutileza absurda. A interação é muitas vezes dificultada pelo abuso de comunicação que ocorre em um nível imperceptível e sinais dúbios. Esses procedimentos inserem um nível de ruído na comunicação tamanho que é surpreendente que quaiquer duas pessoas se entendam. É como procurar padrões na fumaça, o que deve explicar a atração de certas pessoas por ele. Por ser inevitável, eu continuarei tentando encontrar esses padrões na fumaça (mesmo sabendo que, em nível atômico, eles são óbvios e belos), mas reservo-me o direito de abdicar deles em absoluto. Não tenho necessidade ou desejo de comunicar nada além daquilo que desejo comunicar.
Ou, resumidamente, “sim é sim, não é não, talvez é talvez”. Aquilo que eu digo significa exatamente aquilo que quer dizer. Nem mais nem menos.

Reivindico os direitos roubados pelas bazófias de bufões: direito à solidão, à melancolia, à ignorância saudável, aos “defeitos”. Nada tenho contra a provocação bem-intencionada, contra a sátira, mas ergo minha voz contra a acidez desnecessária, o ataque e toda a agressividade contra os defeitos não-danosos. Estar sozinho é um direito e, segundo minha crença, condição irrevogável para uma mente saudável, permite à pessoa ordenar os pensamentos, meditar e atingir conclusões próprias. A melancolia, semelhantemente, permite uma alteração no ponto de vista, por vezes benéfica. A ignorância saudável, aquela que admite que não sabe e busca o conhecimento. Em suma, reivindico todos os defeitos não danosos ao ser e aos outros.

Esses são meus termos e, aceitos ou não, constituem minha renúncia às regras, formais ou não, instituídas pela sociedade e minha desistência de tentar a adaptação, e o compromisso com um conjunto específico de regras: o meu.

Assinado,
O Ornitorrinco.

November 20, 2008

 Crítico 

“Tu é muito crítico.”

Isso é algo que uma amiga disse, esses tempos, quando a gente estava num grupo discutindo sobre algo (provavelmente TV, mas não me lembro), no Cavanhas, alta madrugada, depois de um fantástico episódio onde eu escapei por pouco de ficar com o cabelo vomitado.
Mas essa é outra história.

Eu lembro que eu estava falando empolgado sobre alguma coisa, e ela me vira e disse. O choque só me atingiu bem depois… “peraí, como assim, EU sou muito crítico? Será que sou mesmo?”.
Claro, eu sou, e sei que sou, mas a pergunta surgiu por outro motivo: cara, e quanto aos outros, que não são críticos? Quero dizer, eu estou cansado de ver gente que ouve música que não gosta, assiste programas que não vê, faz as coisas sem saber o motivo, e nem ao menos pensam nisso. Obviamente ela não pensou nisso, ou não é comigo que ela ficaria surpresa.
Porque, na boa, eu me choquei por muito tempo com gente assim. Hoje em dia, só acontece com casos extremos. Dos outros, já é meio que esperado (e já cometi algumas injustiças por causa disso :-( ).

Eu não sei ser assim. Ou não sei mais ser assim. Eu sou absolutamente incapaz de olhar pra uma letra e não pensar “cara, que merda” ou “cara, que coisa mais incrivelmente totalmente fantástica!”. Eu não funciono assim, e me surpreenderia se você funcionasse. Todos emitimos julgamentos, é normal. São diferentes, é verdade. Você vê um toxicômano (”drogado”, para os que não se preocupam com bobagens politicamente corretas) e vê o quê?
Não interessa. Pelo menos, não agora. O que interessa é que você pensa algo. E são altas as chances de que você, pense o que pensar, tenha vergonha de se expressar. E, se for o caso, não se sinta mal (mas não fique igual), é o que se ensina hoje em dia.

Porque hoje em dia pessoas mentem que não julgam (boa sorte tem tentar me convencer que você REALMENTE não julga). Julgar é feio, errado, chato e causa cáries. Claro, é uma prova de que você pensa, e pensa criticamente, sobre algo, e todos sabemos como pensar é feio. Você não demonstra que pensa sobre algo porque sua opinião pode potencialmente ofender alguém. E isso seria um grande pecado, não? Pior que ofender, a outra pessoa pode discordar de você, o que seria terrível. Nesse caso, você teria duas opções:
ser o cabeça-dura provocando uma discussão “tentando ter razão” (como se ter razão fosse algo decidido em uma discussão (é algo que se descobre, não que se decide. São duas coisas MUITO diferentes)),
ou aceitar, dizer que a outra pessoa tem razão, baixar a cabeça e evitar maiores confrontos. Cada um tem direito à sua opinião, certo? Certo. E discutir essa opinião seria negá-lo, certo? Errado.

Não é crime questionar alguém.
Questionar outra pessoa não é errado.
É mentira afirmar que é ruim iniciar uma discussão que possa levar alguma das pessoas a descobrir que está errado.
Existe uma multidão de pessoas lá fora que se forçam a não questionar. A não criticar. Mas, gente, criticar é preciso. Criticar e-mails que você recebe, notícias que você lê, músicas que você ouve, coisas que as pessoas dizem, as pessoas que dizem essas coisas. É inevitável, isso se chama pensar, e eu gosto muito. As vezes dói, as vezes incomoda, as vezes cansa, mas é bom. Te dá uma apreciação maior sobre o mundo. Te dá um mundo maior pra apreciar.

Sem contar que você não passa vergonhas como se dizer feminista e gostar de funk, ou ser o cara que discorda de absolutamente tudo o que ouve, ou ser o cara que concorda com absolutamente tudo o que houve, ou ser o babaca escroto sem auto-crítica que fica criticando quase tudo e não se importa com o sentimento das pobres pessoas que discordam de você.
Uma dessas frases foi irônica. Espero não ter que especificar qual.

Então parem de dizer que eu sou crítico demais. Perguntem-se por que vocês não são tanto. Adoraria saber as respostas pra isso.

P.S.: Só pra deixar o óbvio explícito: Estou falando de crítica construtiva. Saiba seus motivos.

October 8, 2008

 Olhos 

Poucas nuvens no céu. Algumas árvores. Uma pessoa sentada na grama. Um pequeno lago. Ao longe, algum animal faz barulho, mas não é alto o bastante para ser nada distinto. Eu estou ao seu ombro, mas você está só. Feche os olhos. Você esteve observando há tanto tempo, e agora certamente tem toda a paisagem gravada em sua mente. Vamos visitá-la.

Veja as nuvens no céu. Pequenos aglomerados aquosos flutuando no alto, quase imunes à gravidade. Sabia que o que determina a cor de uma nuvem é a sua densidade? Quanto mais fina, mais clara é a nuvem. Quanto mais fina, mais claro é o dia. E se você pensa que se importa com as nuvens, imagine como se sentem os pássaros. São eles que voam por aí, que dependem dos ventos para se deslocar. Consegue vê-los, atravessando a paisagem?

E no chão, a grama cresce lentamente. Grama é uma coisa engraçada, parece crescer sozinha. Eu, pelo menos, nunca ouvi falar em plantar grama. Mentira, já ouvi, sim, mas não o bastante pra explicar por que ela está em todo lugar. Sabe que hoje eu vi gente aparando grama de pedras de paralelepípedo? É, porque o espaço entre uma pedra e outra é tão grande que a grama consegue crescer ali, e até que consegue crescer bastante. Porque, seja lá como for que a semente chega, poucas coisas conseguem realmente deter grama. Ou qualquer planta. Se não dá pra crescer em um lugar, elas crescem em outro. Dão um jeito. Se algum dia se abre um espaço, pode contar que elas crescerão ali.
E as plantas maiores não são diferentes. O problema é que, pra elas, é bem mais difícil porque, bem, são maiores, né?

E o lago, cara. Já reparou como o lago é liso? Como uma folha de papel novinha, esticada sobre um buraco fundo na grama. O lago é um micro-universo pessoal. Para os peixes que vivem ali, o lago é todo o mundo. Eles não sabem o que tem outros lagos e, mesmo que fossem jogados em outro, aposto como achariam que é apenas outra parte do lago que ainda não conheciam. E Terra, cara, aposto que os peixes veriam a Terra como uma coisa incrível, de lunáticos mesmo. História de peixes que foram abduzidos por seres vindos de um lugar de fora do lago e que, por algum motivo, permitiram que ele voltasse. Também não me surpreenderia se peixes em lagos de pesca fossem paranóicos, embora a idéia de um peixe paranóico seja bem engraçada, já que olhar pra trás não é prático quando você não tem pescoço. Pensando bem, é uma noção meio deprimente. Ser paranóico mas não poder virar a cabeça deve ser a receita pra viver em medo constante.

Bom, agora você pode abrir os olhos. Espero que o que esteja vendo seja diferente. Era bem óbvio, de longe, que você é o tipo de humano que olha pras coisas, mas só enxerga o que quer. E, na real, por mais que as pessoas falem “ooolha, que floresta bonita”, o que elas querem ver mesmo é um ent saindo da floresta carregando dois hobbits nos ombros. O resto costuma ser bem entediante.
Pelo menos se você for cego ou idiota.

September 7, 2008

 Diabo 

Quer ouvir uma história legal?
Todo mundo fala sobre o diabo como se ele fosse antagonista de deus, uma força opositora, e mal sabem que é tudo bobagem de padres.

Você vê, tudo começou com um cara que conheceu um diabo. Depois eu explico isso melhor, mas digamos que esse cara (vamos chamá-lo de “Pedro”) saiu um tanto mudado desse encontro. O que eu vou falar agora é negado em todo lugar. O padre da sua paróquia vai dizer negar cada palavra, mas não significa que não seja verdade.
Só que é essa verdade não oficial.

Bom, o Pedro passou a aprender bastante, e bem rápido, depois do encontro. E a sacar como as pessoas funcionavam. Ele adquiriu habilidades que foram de grande proveito a ele e ao culto que ele participava (uma igreja menor de Roma, monoteísta). Sabe, eles tiveram aquela que deve ter sido a mais brilhante idéia pra se atrair otáriosfiéis: tiraram dos ombros delas todas as culpas que elas tinham. E como eles fizeram isso? Colocando a culpa em alguém. De preferência, numa fonte não-existente, não-confirmável, não-atingível, e assim, eterna.
Creio que, a essas alturas, você já entendeu que eu estou falando do diabo, não?

Claro, precisaram de algumas alterações para criar um mito decente: primeiro, uma imagem ameaçadora, que Pedro e seus capangascolegas criaram baseados numa entidade mítica do politeísmo vigente. Depois, colocaram ele num lugar inatingível: o Inferno, onde você só pode chegar (tcharam) depois de morrer. E por último, deram-lhe o poder mais útil de todos: o de influenciar as pessoas ao mal. MWAHAHAHHA. Com isso, eles deram às pessoas o que elas mais queriam: absolvição. De repente, ninguém mais era culpado de nada. Digo, ninguém além daquele cara que a gente só sabe que existe porque ele nos influencia a fazer coisas ruins.
E, como bônus, adicionaram tormentos eternos aos que caíssem em “tentação”. Sabe, para as pessoas “puras” sentirem aquela satisfação maliciosa de que aqueles que elas consideram “impuras” serão punidas e com severidade. Gênio puro.

Mas então, quem é esse tal de “diabo”? Bom, a resposta seria “ninguém”. Ou então “todo mundo”. Sabe, ambas são válidas.

Na verdade, “diabo” é mais um título. A palavra em si deriva do grego diabolos, que significa “difamador”. É um termo bastante irônico, na verdade, motivo pelo qual muitos “diabos” o adotaram como título.
A ironia está no fato da palavra ter sido usada de forma difamatória contra antigos sábios que pregavam idéias pouco populares. Enquanto a nossa sociedade moderna cria ficções minorizando e ridicularizando idéias pouco ortodoxas, antigamente não era tão fácil fazer isso. O melhor a fazer era demonizar os pregadores.

Desde o começo, certas idéias perturbam as pessoas. Tenho certeza que você pode pensar em exemplos sem minha ajuda, então vou evitá-los. Basta dizer que os “diabos” são pessoas que não tinham problema em falar coisas que perturbavam as pessoas. Aquelas verdades que ninguém quer ouvir, que as pessoas mal conseguem admitir pra si mesmas sem precisar ler no mínimo três livros de auto-ajuda depois (pra não mencionar alguns anos de terapia).
Ninguém gosta desse tipo de gente. Ou quase ninguém.

Pra maioria das pessoas, idéias diferentes das da maioria não são atraentes. Na verdade, são replentes. Outros, porém, e poucos também, sentem uma certa coceira na mente, uma necessidade inexplicável e inevitável de buscar o diferente. De saber mais. Essas pessoas buscam o conhecimento, e buscam se livrar do senso comum, a noção possivelmente errada que todo mundo tem sobre as coisas.

E são essas pessoas que aprendem a observar. A entender os comos e os por quês. Mas esse conhecimento tem um preço, nada é de graça. Essas mesmas pessoas nunca mais podem se integrar à humanidade, pois há certas coisas que você vê e não pode tira nunca mais da memória.
Dependendo de pra quem você perguntar, isso pode ser equivalente a vender a alma.

Sempre existem os que simpatizam com idéias diferentes. Os dissidentes. Os subversivos. Assim como foi muito impopular ser cristão. Assim como sempre foi muito popular jogar nossas culpas em outro, mesmo que seja em um mito. Assim como sempre será tentar, de qualquer maneira, calar a dissidência.

Texto baseado na distorção de fatos reais, para melhor expor a idéia. Não deve haver fatos reais aí (mas, claro, só temos a palavra deles para confirmar).
“Melhor” significando “mais senso de drama”.

June 13, 2008

 Do Ornitorrinco ao Senado 

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Subject CSS

Senhoras e senhores senadores,

Mediante a quase-aprovação do imposto CSS, apelidado pela mídia de
“nova CPMF”, vejo-me no dever de apelar a vocês. Me deprime pensar que
são nossa última linha de defesa contra mais um imposto, mas se assim
o é, que sejam uma boa.

Sim, eu sou mais um dos decepcionados com a política brasileira. Na
verdade, não tenho a menor fé no nosso sistema “democrático”, que
reelege ladrões. Não me culpem ou julguem por isso, pois os maiores
responsáveis são aqueles que abusam do poder e desmoralizam toda a
classe.

Sobre o imposto, nós já temos muitos. Desnecessários e supérfluos,
senão para manter privilégios (abusos) das pessoas que abusam do poder
que recebem das mãos do ignorante povo brasileiro. Acessores,
auxílios, reembolsos de gastos que poderiam sem problema algum sair de
vossos bolsos mesmo, que já ganham muito acima da média brasileira, e
podem se dar a esse luxo. Pensando nisso, peço que, aqueles que a
tiverem, ponham a mão na consciência e votem NÃO ao CSS.

Eu sei que a proposta virá embalada nas melhores intenções (das quais
o inferno está cheio), mas o dinheiro para essas idéias já existem, e
está nas contas bancárias de quem não tem direito a ele. Aprovar novos
impostos, com a atual carga tributária, é forçar um sistema já
auto-destrutivo no qual o governo sufoca seu povo para seu próprio
lucro. Não precisamos disso, vocês não precisam disso. Façam o que é
correto.

Despeço-me com a certeza de que seria decepcionado, se realmente
tivesse fé nessa ou em qualquer outra missiva enviada a qualquer
“representante do povo”. Se eu tivesse motivo para acreditar em tais
gestos, não teria perdido a fé em vossa existência, e na de seus
pares, e na do sistema que deveriam representar.

Cordialmente,
Ornitorrinco

Levou dez minutos. Atualizarei o post com respostas significantes.

Pensem nisso. Dez minutos. Façam o sacrifício.

Respostas:

Sen. Jarbas Vasconcelos

Caro Ornitorrinco,

Quero registrar inicialmente o recebimento de sua mensagem, apesar do número expressivo de correspondências e e-mails que diariamente chegam em nosso gabinete, faço questão de ler e responder a todos, sempre que possível.

Ciente de suas considerações acerca do novo imposto que está sendo cogitado para substituir a extinta CPMF, informo que COMPARTILHO de sua indignação, pois a antiga CPMF foi criada na década passada quando o Brasil enfrentava escassez de recursos. Sua destinação era exclusiva para a área da saúde. Hoje, é notório que há excesso de arrecadação e o Governo continua a aumentar seus gastos.

Por essas razões, tenha certeza que serei totalmente CONTRA à criação desse novo imposto - CSS, assim como me posicionei CONTRARIAMENTE à prorrogação da CPMF em dezembro/2007.

Conte com meu apoio.

Cordialmente,

Senador Jarbas Vasconcelos.

Senador Gerson Camata recebeu o e-mail e mandou sua assistente/secretária/similar responder que ele também é contra.

Senador Sérgio Guerra recebeu o e-mail e está “atento a este importante assunto” (sic). Não levei fé nesse cara.

Prezado Senhor

Incumbiu-me o Senador Marco Maciel de agradecer seu e-mail e parabenizá-lo pelo exercício de cidadania.

       Se depender do Senador Marco Maciel não será efetuado nenhum aumento de carga tributária que tanto penaliza nossa sociedade.

O sucesso da estabilização econômica e fiscal conquistada pelo povo brasileiro, após a implantação do Plano Real, tem permitido sucessivos recordes de arrecadação que deve ser revertido para que os preceitos constitucionais sejam observados, com relação à saúde, educação, segurança, infra estrutura, etc.

       Não há razão para que a decisão soberana dos Senadores, com a derrubada da CPMF seja questionada, com a proposta de criação de novo imposto.

       Cordialmente,

       Nilson Rebello, Chefe de Gabinete

[P]rezado Ornitorrinco,

Da tribuna do Senado me pronunciei contra essa aberração constitucional aprovada pela Câmara. O projeto que restabelece a CPMF com o apelido de CSS é afronta ao povo brasileiro que não agüenta mais pagar tanto imposto. Não há argumento inteligente que possa justificar essa atitude do governo. Falar em Reforma Tributária e aprovar projeto criando novo imposto é falsidade. A CSS é um escárnio, um equívoco e uma afronta à sociedade. A verdade é que nunca se arrecadou tanto imposto no Brasil. Os brasileiros não agüentam mais esta pesada carga tributária. A arrecadação está tão boa que outro dia o governo pediu ao Congresso autorização para repassar ao BNDES 12,5 bilhões de reais para que ele financie projetos em outros países, como o metrô de Caracas, na Venezuela O Senado deve rejeitar essa ofensa à inteligência nacional. Desde já esclareço que vou votar contra a aprovação deste novo imposto que o governo do PT quer impor ao povo brasileiro.

Grato pela mensagem e receba o meu cordial abraço,

Alvaro Dias

Ornitorrinco diz:
GOSTEI dessa!

Encaminho-lhe minha posição reafirmada sobre o CSS, através de novo pronunciamento no dia 18 de junho.
Muito obrigado por sua participação. Saiba que a opinião da população é observada, quando manifestada.
É desta forma que construiremos um Brasil melhor e mais justo.

Senador Arthur Virgílio Neto
Líder do PSDB

–ATT:
O SR. PRESIDENTE (Garibaldi Alves Filho. PMDB – RN) – Concedo a palavra ao Senador Arthur Virgílio, Líder do PSDB.
O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB – AM. Para discutir. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, houve, de fato, um acordo. O acordo era votarmos três embaixadores e três medidas provisórias.
Autoridades podemos a qualquer momento sobre elas deliberar, aprovando os nomes ou os rejeitando. E tem inteira razão o Líder do DEM, Senador José Agripino Maia, quando diz da nossa vontade de derrubar no voto essa nova contribuição, essa tal CSS, que substitui, na verdade, a famigerada e não saudosa CPMF.
Estranhamente, o Governo revela agora falta de desejo de votar essa matéria. Alguns que são mais diretos dizem assim: “Vamos votar depois da eleição”. Aí eu pergunto a V. Exª, Sr. Presidente – perdoe-me se eu porventura estiver sendo rude, não é minha intenção ser rude de jeito algum –: mas o que tem CSS a ver com as calças, Sr. Presidente? O que tem a ver eleição com saúde? Não consigo entender. O dever de um Governo é governar. Se essa contribuição é tão essencial para a saúde brasileira, o dever do Governo é governar. Então, ele tem que ganhar votos ou perder votos, deixar isso de lado, e ir às últimas conseqüências em relação à sua idéia. Essa idéia está desmontada, está desmoralizada, não passa nem hoje nem depois da eleição nem passa amanhã. Não passa porque ficou patente que o Governo quer mais dinheiro, aumentando carga tributária, sem necessidade de fornir as necessidades da saúde. Esse é o fato. Esse é o fato.
Nós teremos um movimento de opinião pública que, imagino, será avassalador agora ou depois das eleições. E uma democracia como a brasileira tem eleição a cada dois anos. Vamos ser bem claros: urgência não há. O Governo alega insegurança aqui e alguns alegam que não se vota isso antes das eleições, talvez para não exporem a sua base aliada ao que seria um desgaste de opinião pública. Então, a base aliada vem primeiro do que os interesses nacionais. A questão eleitoral, a questão eleitoreira melhor dizendo – aí eu quero pejorar mesmo –, vem acima de uma questão relevante como a da saúde.
Eu entendo que, para se dirigir bem a saúde no Brasil, se precisa de honestidade, se precisa de choque de gerência, se precisa de efetiva priorização. O Governo aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras e não deu um real para a saúde; aumentou a alíquota da Contribuição Social sobre Lucro Líquido para os bancos – isso vai ter reflexo nos empréstimos, porque os tomadores de empréstimo é que vão pagar o que será repassado a eles pelos bancos – e nenhum real disso foi para a saúde.
O Governo diz agora que, para dar o dinheiro correspondente à emenda do Senador Tião Viana, precisa de uma tal fonte, e eu dou a fonte: os Ministérios supérfluos que deveriam ser extintos, os cargos em comissão que significam o aparelhismo partidário, tudo isso é fonte. Mas mais, ainda que mantivesse todo esse aparato desnecessário de administração pública, ainda tem a arrecadação crescente. Praticamente, o Governo já arrecadou todo o chamado buraco, aquele que ele imagina que fosse o buraco da CPMF.
Então, a saúde não é uma prioridade e, de novo, o Governo demonstra que não é uma prioridade, porque, quando ele canta e decanta que precisa da CSS para aprovar recursos para a saúde, e aqui ele diz que só vota depois das eleições, é porque não tem tanta pressa assim, e acaba o Governo, então, de desmoralizar de vez qualquer tentativa de criar alguma contribuição. Ele nos diz acreditar numa reforma tributária, que é muito fraca, é muito frágil, é muito tímida, mas tem algumas coisas boas. Uma delas: propõe acabar com todas as contribuições. No mesmo momento em que diz que quer acabar com as contribuições, manda uma nova contribuição para cá.
Então, é uma contradição ambulante, não é metamorfose ambulante, é uma contradição ambulante essa a do Governo Federal.
Por isso, Sr. Presidente, nós aqui estamos a denunciar isso, dizendo que de nossa parte estamos prontos para votar a CSS. Nós concordamos com a matéria vir direto para o plenário, para decidirmos essa parada antes do recesso parlamentar.
Em relação a esta matéria, nós honramos o nosso compromisso. O que cumprimos prometemos. Em uma Casa onde é cada vez de melhor tom que o Governo perceba que o diálogo democrático deve substituir sempre qualquer tentação de prepotência, porque não anda sem a nossa colaboração, anda com a nossa colaboração, e a nossa colaboração anda na medida em que haja esse respeito democrático a uma minoria, que é uma minoria tão relevante, que dela depende o resultado das votações no dia-a-dia da Casa.
Então, Sr. Presidente, nós votamos “não”. O PSDB vota “não”, por entender que não se deve contrariar o Supremo Tribunal Federal. Nós não devemos deliberar a favor de nenhuma medida provisória que trate de crédito orçamentário, e nós não devemos contrariar a Suprema Corte, não devemos diminuir o papel do Congresso Nacional, do Senado Federal. O PSDB vota “Não”.
Em relação à CSS, volto a dizer: estamos mais do que colaborativos. Queremos derrotar no voto o novo tributo. Não ao aumento de carga tributária; não ao novo tributo. E temos confiança, a confiança de que o Governo não tem na sua base, achando que vai perder a votação aqui, nós temos na nossa base de oposição e temos em pessoas independentes da base governista. Então, a hora em que quiserem votar, estamos às ordens para o confronto, estamos às ordens para o cotejo, estamos às ordens para o desafio. Se quiserem falar a sério, defendam suas convicções, se é que as têm, nós defendemos a nossa. E a nossa é derrotar no voto, no plenário, a CSS, ainda antes do recesso Parlamentar.
Muito obrigado.
Meu voto nesta matéria, Sr. Presidente, é “não”.

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