February 28, 2009

 O Arlequim 

Olá, o meu nome é Arlequim
E você não me vê
Nem você, nem você
Mas eu brinco.
Sabe sua chave que sumiu?
A carteira que não está mais lá?
A mosca na sua bebida?
Fui eu. Ou não fui.

Mas essa história
É do dia da Colombina
Você vê, nem tudo são flores quando ninguém lhe toca
Pois até o Arlequim se apaixona
Mesmo sem ousar tocar
Mesmo podendo apenas ver
Meu coração pode disparar

E ele dispara
Seus cabelos negros ondulando a luz
Seus olhos, verdes, que tem luz própria esmeralda
E essa sua boca, esse sorriso
Oh, esse sorriso milagroso
Eu já tive muitas Colombinas
Mas seu sorriso me deixa inseguro

Sua cara indica as horas
Hora de sair da cama, hora de encontrar meu presente
Aos seus pés, bem à vista para ver
bem perto para pisar
bem ali para aceitar
deixo-lhe meu coração

Já esperava sua reação
O grito, o espanto
Também esperava o que vinha depois
O rosto em dúvida, e a risada
Oh, nossa, uau, essa é a música que os deuses procuravam
E nunca criaram
Você pega meu amor sangrento e exposto com nojo
Carrega até a pia da cozinha, e embala com cuidado
Ou seria com medo?
Em plástico, e coloca no bolso
E sai

Eu sei que você quer perguntar para alguém sobre meu presente
Mas para quem se pergunta sobre o coração?
Você anda devagar
E eu logo atrás
Em meu passo invisível
Balanço chapéus, danço e canto
Pois sou também inaudível
E também sou feliz, mesmo que triste
Minha condição me permite lhe acompanhar mesmo longe

Enquanto você senta e observa a fonte
Eu tiro o dinheiro do bolso do homem de terno
E coloco na lata do homem de fedor
Tiro o chapéu do homem de bigode
E como meio côco brinco de correr com o aro, tal qual vento, e nem um movimento atrai tua atenção
E nem a de ninguém

Você não me vê sentar ao seu lado
Nem me vê quando choro
Pois queria seu colo
Estou sempre só na multidão, ter você ao meu lado de nada vale sem seu toque

A lágrima rola
Tua mão no bolso
Minhas mãos incertas
Meu rosto incerto
Minha vida incerta
Um pombo voa

Dou um pulo, enxotado por uma velha
Em seu rosto, a história do mundo, em seus gestos, a alma do mundo
Ela me xinga, e me empurra, e me toma o lugar
Desacostumado, levanto e sou gentil
Afinal, o Arlequim é um brincalhão, não um rufião
Mas logo a velha berra
e levanta
e corre
“O coração! Do Arlequim! Se livra disso!”

Sua cara é de dúvida
A minha desespero
Você não jogaria fora meu coração, jogaria?
Ele sangra, ele pulsa, ele existe por você
Não o tenho mais utilidade, preciso do seu
Divide parte de ti comigo como dividi contigo, viveremos um no outro e nada será mais glorioso!

Eu vejo os pensamentos
Ou melhor, o ato de pensar
Gostaria que pensasse alto, queria participar

Você caminha, eu brinco
Você entra pela porta que tem sino, e eu lhe sigo
Você senta, e pede uma porção de arroz, batatas assadas, um pouco de ketchup e sal
E pega meu coração do seu bolso
Lenta e delicadamente você o come
Invisível, meu coração é como se não o comesse
Invisível, intocável, sou como se não vivesse
Mas de repente você reluz em verde e vermelho e amarelo
Minhas cores, minhas cores refletem em teus olhos
E se levanta
E me beija
E lhe vejo pela primeira vez

Os cabelos que ondulam a luz
Os olhos brilhando esmeralda
E o sorriso, agora um milagre vermelho em um rosto branco
Em um olho, um detalhe delicado
No outro, uma grande mancha preta
No conjunto, toda a beleza que existe

A comida perde o interesse
Assim como as roupas. As antigas, sem cor
Agora vestes vermelho e roxo e preto
Como uma princesa risonha
Quando eu pulo, você pula
Quando você pula, eu lhe pego
Bagunçamos mil vezes mais, pois o amor não é soma
É exponenciação: eu elevado à você elevada a mim elevando-nos ao infinito
Pulando e cantando e escrevendo a canção

Baseado na história “A Paixão do Arlequim”, escrita por Neil Gaiman e desenhada por John Bolton.

November 25, 2008

 Music Magick 

Escrito no bar opinião, perto da meia noite, sentado em uma cadeira de metal barulhenta e com o pé apoiado em outra.

E tem quem diz que eu sou ateu. Caramba, até eu digo isso, mas é uma puta bobagem, pois eu sou fiel, devoto, seguidor e pregadora da igreja da música. Pulando, berrando e dando 100% de uma garganta que não tem nem 80% pra dar que eu me junto ao universo, percebo a matéria não-matéria que une tudo e separa aquilo que é daquilo que também é, e é onde eu me torno um daqueles que é mais.

Auto-flagelo minha garganta com berros e urros, pagando pelo pecado do meu silêncio. Pisando em pés, tendo meus pés pisados, empurrando e sendo empurrado, pulando com meus irmãos e irmãs eu sou parte de tudo. Sou a nota, ainda que seja desafinado. Sou a canção, ainda que não tenha ritmo. Sou ritmo enquanto moldo o pequeno espaço que ocupo, que se fosse maior não seria melhor usado.

Sou coletivo e sou indivíduo, tudo em uma coisa só.

Pensando bem, talvez eu deva parar de escrever chapado. Mesmo que seja chapado de música.

December 13, 2007

 not(Haiku) 

Pra todo dia
Prato do dia
Pratododia!

December 10, 2007

 Foda… 

…ou “Sobre como eu matei meu porquinho”*

Não, não resolvi aproveitar a onda de equinofilia. Esse texto é sobre uma das coisas mais incrivelmente fodásticas que existem: O TEATRO MÁGICO. Eu já devo ter falado (e pessoalmente devo ter insistido e repetido uns cem bilhões de vezes pra cada infeliz que teve que me aturar no meu princípio de fanatismo) sobre como o Teatro é incrível, foda, divertido, as letras são bem escritas pra caramba, o figurino deles é muito legal, blablabla etcétera e tal. Pois bem, eu admito erros, não tenho problemas com isso, e aqui vai a real: eu estava errado. Eles não são tudo isso.

Eles fazem “tudo isso” parecer um show da Ivete Sangalo. E eu não digo isso como elogio.

É lindo. “Lindo” é a palavra, cara, de encher os olhos. Na segunda música eu já tava me lavando em lágrimas, e não lembro de ter parado até depois do final (um pouco depois de eu estar abraçado nela enquanto o pessoal ia embora e berrar as três palavras que explicam o mundo). Tenho que lembrar de levar lenços em março :-) (eles vêm pro RS, e eu vou. Você vai perder?) Ver eu não vi tanto porque eu estava atrás de uma coluna (nota mental: chegar cedo), não deu pra ver parte do palco, mas eu vi muita coisa. Vi o Rober soprando fogo, vi as bonequinhas brigando, vi os malabarismos (cara, os malabaristas passavem pela gente pra chegar no palco sempre!), vi o “maluco” invadindo o palco, e vi até o Arnaldo Antunes (sim, cara, ele finalmente foi lá pra cantar “Sobre nomes”! E vestido à caráter, só faltou maquiagem! Muito muito INCRÍVEL!) cantando vestido de terno ao avesso e boné.

E nem só o que eu vi e ouvi. Também o que eu fiz, coisas que eu nunca senti grandes vontades: pulei até quase cair de costas no chão, berrei até quase detonar minha garganta, eu até dancei (mal, mal, MAL. Lobos não são dançarinos)(e é por isso que eu praticamente não guiei). Cara, eu não fui em muitos shows, até porque eu sou um porre pra música, eu sou exigente (o termo correto é “chato”). Mas, cara, não tinha como evitar. Berrei, chorei e dancei, tudo numa coisa só. Nunca, nunca e digo mais: nunca me diverti tanto. É a coisa mais divertida que eu já fiz, sem comparação com qualquer outra. Em março eu vou com um cartaz “Teatro Mágico no RS: eu quero isso todo dia”. E acho que mais gente devia fazer isso :-)

Claro, também existe outra possibilidade(fato: foi uma combinação das duas): que o show foi tão bom por causa de quem estava comigo, pra quem eu alterei tantas letras**. Teve que me aguentar cantando no ouvido o tempo inteiro, tadinha. Melhor companhia possível pra um show. De fato, tão boa que, se eu não tivesse fotos pra provar (e quando ela me mandar fotos eu terei mais provas), ia achar que eu sonhei tudo. E na real eu sonhei tudo, só que era sonho e realidade ao mesmo tempo.

E se o show já foi bom, vai ficar ainda melhor: vai virar DVD! Já comprei!
:-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D :-D
Depois de assistir ao show, é perfeitamente anormal não se apaixonar.

E eu tirei foto com alguns palhaços, incluindo o Anitelli! Cara***, se eu já era fã, agora eu sou 10^n, n -> infinito mais fã.

E vale mencionar: o resto do fim de semana (depois das 13:30 de sábado :-P ) foi o melhor da minha vida. Desde sempre. Mas melhores virão :-D

* Não é uma resenha. ^

** “o dia do prato chegou” (epa, essa eu não precisei mudar :-)
“se juntarmos você comigo / cordão umbilical e umbigo / a gente já é só um”
“eu sinto que sei que somos um canto bem maior” ^

*** Dá pra medir meu nível de entusiasmos pela quantidade de vezes que eu falo “cara”, mas isso funciona melhor pessoalmente. ^

Por sinal, meu porquinho está na UTI, mandem um cartão de melhoras pra ele :-(

Comentário do Edu, um palhaço que tava com a gente no show:
“Mas vocês dois, hein? Tava quase jogando querosene em vocês.”
:-D

October 20, 2007

 Revelações: Epílogo 

O significado está aí para que vocês o vejam.

Esses últimos posts foram uma espécie de koan desajeitado e perdido, afinal eu não sou um buda ou um ’satva, não sou nem um mestre. Sou só um novato batendo palmas e estralando dedos como se isso significasse alguma coisa, e que de vez em quando consegue dar uma espiada no Grande Quadro.

Enfim, esse é o grande truque: a escolha que se faz, do caminho a seguir. O caminho em si não significa nada.

Lembram que eu falei que essa semana teria algo de diferente? Bom, eu vou supor que foi o meu sequestro e me considerar quites com o universo.

As coincidências e os significados estão aí, afinal de contas.

October 15, 2007

 Semana 42 

Estamos na semana 42 do ano. Vou encarar isso como presságio de que uma boa resposta está para chegar, e vai ser uma daquelas respostas grandes, que podem mudar toda a sua vida. Afinal, 42. É a resposta pra maior das perguntas, aquela sobre a vida, o universo e tudo o mais.

E deve ser um bom sinal, porque… bom, se você vai ter uma esperança, suponho que seja melhor esperar que aconteça algo bom.

Deep Thought: Eu acho que o problema é que a questão foi enunciada de forma muito ampla.
Loonquawl: 42?! Isso é tudo o que você tem pra mostrar depoois de sete milhões e meio de anos de trabalho?
Deep Thought: Eu verifiquei com muito cuidado, e essa é definitivamente a resposta. Eu acho que o problema, pra ser totalmente honesto, é que vocês nunca souberam realmente qual é a pergunta.
(Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias)

Arthur: Seis vezes nove. Quarenta e dois.
Ford: É isso aí. É tudo o que há para saber.
Arthur: Eu sempre soube que havia algo fundamentalmente errado com o universo.
(Douglas Adams, O Restaurante no Final da Galáxia)

October 6, 2007

 Caminhos 

Sabe, eu nunca vou entender pessoas que “procuram o próprio caminho na vida” (e topei com várias essa semana).
Quero dizer, por que procurar o próprio caminho? E onde, exatamente, elas acham quem estão?

Tanta gente se perguntando coisas como
“Quem sou eu, e por que estou vestido como um pirata?”
“De onde viemos, e por que viemos pra um lugar que não vende camarão a preços razoáveis?”
“Para onde vamos, e como vou poder me checar meus e-mails quando chegarmos lá?”
“Nós existimos? Ou será que só aquele motorista de caminhão que trancou a rodovia ontem existe? E se só ele existir e formos todos frutos da imaginação doentia e superpoderosa dele, sofrendo para seu deleite?”
“Por que um irlandês de saias agarraria em um corredor brasileiro quando tinha uma morenaça do lado dele?”
“Se existe mesmo um deus, por que babacas não são atingidos por raios com mais frequência?”
“Onde vamos jantar hoje?”
Tantas perguntas, e no final as respostas são óbvias quando você pára de tentar se colocar como algo especial no universo.

Acho que vou escrever um livro de auto-ajuda.

September 19, 2007

 Ler 

Sabem, eu adoro ler. Adoro mesmo, ler uma boa história é a melhor sensação do mundo. É melhor que sexo, e melhor que chocolate, e melhor que música. Diacho, é melhor que sexo envolvendo chocolate e música. Pena que, hoje em dia, é difícil achar uma boa história, mas deve ser porque eu sou um velho resmungão e exigente. Eu quero livros que mintam pra mim como algumas ex já mentiram e que ainda assim me faça acreditar e viver aquela mentira.

Eu só queria conseguir evitar aquela sensação — meio melancólica, quase uma vontade de chorar –, que eu tenho sempre que acabo de ler uma ótima história, de que eu perdi meu melhor amigo.

August 31, 2007

 7 

Engraçado como certos números parecem nos perseguir, não? Sete, três, dois, um, zero, quarenta e dois, eles estão em todo lugar (especialmente o 42). Sete maravilhas, santíssima trindade, os três troféus (campeão, vice e terceiro lugar), sete dias na semana, sete dias para criar o mundo (hahahahaha), código binário (zeros e uns), a resposta para a vida, o universo e tudo o mais (42). É evidente que os números estão à solta, mas no final é só mais uma questão de perspectiva: com as operações certas, fica fácil transformar um número em outro, e se você mantiver o nível das operações simples (evitem usar fatoriais ou logaritmos, por exemplo)(evitem especialmente logaritmos de fatoriais) as pessoas vão acreditar que não é apenas coincidência. É só saber manipular os números, e eu sei algo sobre isso. O bastante para achar 42 em qualquer lugar.

Mas esse post não é sobre números ou sobre 42, mas sobre sete. Mais especificamente, sete coisas sobre mim. Não me perguntem por quê sete, ou mesmo se vai ter sete (eu não sou bom em falar sobre mim), mas se quiserem saber de quem foi essa idéia, foi da blogueira mais doce da blogosfera. Diz ela que eu corro o risco de perder minha fortuna, minha família ficar louca e ser mandada para um manicômio em uma ilha deserta (se a ilha é deserta, como pode ter um manicômio?), e o pior, ficar broxa e minha mulher frígida. Mas eu não tenho fortuna, minha família já não bate 100% bem da bola, ilhas desertas não podem, por definição, conter manicômios, e eu mesmo que eu ficasse broxa, já existem pílulas que levantam até cadáveres :-) acho que estou seguro, mas como dizem, o seguro morreu de golpevelho.

Então, sem mais delongas:
1) Eu não sou ativo, sou reativo: eu sou seu melhor amigo, ou o cara mais chato e babaca e escroto que você vai conhecer em toda a sua vida. Na maior parte do tempo, a minha reação vai depender da sua. Se você for razoável, eu serei razoável. Se você for amigável, eu serei amigável. Se você me der um chute, eu chutarei seus dentes. Não é assim 100% do tempo, mas na maior parte do tempo é o que vale: não preciso ser gentil com babacas, mas se a pessoa for legal comigo, por que não ser legal com ela? Tenho certeza que todos pensam a mesma coisa sobre sua visão a respeito de relacionamentos com outras pessoas, mas me parece uma boa regra. Funciona, até agora, embora talvez me renda mais brigas do que a média de outras pessoas, mas eu não me importo muito (veja item 7)

2) Eu sou imprevisível: na verdade, eu me acho bastante previsível, o que deve significar que eu sigo um padrão, mas não um padrão com o qual as pessoas estão acostumadas. Esse post deve tornar o padrão mais óbvio, mas eu reconheço que a aleatoriedade de algumas coisas que eu faço deve incomodar algumas pessoas. O motivo é simples: acontecem coisas. Eu posso pensar de acordo com uma linha de pensamento LP1, e depois acontecer algo que vai me fazer mudar para uma linha de pensamento LP3. Diferentemente de Einstein, eu acredito que deus jogue dados com o universo, e aceito isso. Sabe, a vida é bastante aleatória, e eu não tento fingir o contrário, e tenho a impressão que sou mais saudável assim.

3) Provoque demais, e veja eu deixar de me importar: eu não perco muito tempo com pessoas que me incomodam. Às vezes têm aquelas pessoas que aparecem e enchem tanto o saco por qualquer motivo (querem um favor, ou querem “exigir sentimentos” (uma idéia absurda), ou qualquercoisa), e quando eu topo com uma dessas, eu aguento até certo ponto. Depois, eu deixo de me importar. Meu melhor exemplo é meu último namoro. A guria era paranóica, e achava que qualquer amiga minha tava dando em cima de mim, insistia que eu tava ficando com outras gurias, e martelou e incomodou tanto por isso que eu deixei de me importar, e realmente fiquei com outra guria. E não posso dizer que me sinto culpado, foi uma reação à ação dela (veja item 1). E é por aí, eu não aguento pessoas incômodas por muito tempo, e por que deveria? Não me venham com papo sobre “intenções”, porque nós sabemos qual é o pavimento do caminho pro inferno, certo?
(só pra concluir, um detalhe interessante: nenhuma das gurias acusadas tentou qualquer coisa comigo em qualquer momento, e a outra foi alguém totalmente de fora. Não consigo não achar esse detalhe divertido)

4) meu blog é autobiográfico: surpreendente, eu sei, mas por trás de contos, bobagens, frases, e afins, está a minha vida. Acho que é impossível escrever por muito tempo sem que isso aconteça. Claro, diferente de uns e outros que gostam de expor suas vidas na internet atrás de atenção ou diversão ou só um sentido pra continuar vivendo, eu não quero meu dia-a-dia exposto, então eu falo de modo extremamente sutil (ou não)(mas geralmente sim). Por exemplo, o último post foi uma explosão de stress causado por problemas autocausados (sabe quando você fica fazendo coisas que drenam tanto seu tempo que você perde noção das suas prioridades? Eu tenho que aprender a parar com isso). É o tipo de pensamento que me ocorre mais quando eu estou realmente nervoso, uma espécie de trava, porque eu nervoso não sou exatamente alguém com quem você possa levar uma discussão bacana.

5) Eu uso humor para lidar com situações difíceis: merda acontece. Dizia Siddartha que parte o caminho para a iluminação era ser capaz de viver o momento sem se preocupar com futuro ou presente. A preocupação com o passado é um fardo, e a ansiedade pelo futuro drena a felicidade do presente. E, no fim das contas, ambos são apenas coisas que existem na cabeça das pessoas (e o futuro geralmente existe só na sua). Eu dei toda essa volta para dizer o seguinte: não vale a pena agir como se as coisas fossem o fim do mundo, porque elas não são, e se você sabe disso fica mais fácil rir de um problema. Claro, nem sempre é possível, mas vale muito bem o esforço. Mas, oculto nas minhas piadas, tem sempre o meu ponto de vista sobre qualquer coisa, e obviamente as pessoas sabem disso, o que lhes permite entender tudo errado com mais eficiência.

6) Eu uso meus defeitos para sondar pessoas: eu não faço a barba, eu uso tênis detonados (e extremamente confortáveis), eu faço muitas piadas, e faço muitas piadas ruins, eu sou esquecido, tenho vários defeitos, e alguns deles eu “uso” para afastar pessoas que não valem a pena deixar se aproximar. Hoje em dia eu vejo que faço isso há muito muito tempo, mas só recentemente tomei consciência, e ainda assim, só noto depois que o inconveniente foi embora (”ufa, que sorte, imagina se eu não soubesse antes o quanto ele/ela era babaca?”)(eu sou extremamente lento com sutilezas). Pessoas que julgam pelas aparências normalmente se afastam de mim, e pessoas com bom senso de humor se aproximam. Muito legal, não?

7) O blues comanda o jogo: “viver é uma aposta, querida, e amar é a mesma coisa. Onde quer que eu tenha jogado, onde quer que jogue aqueles dados, onde quer que eu jogue, o blues manda no jogo.” Essa música eu conheço tocada pelo Counting Crows, e o nome é Blues Runs the Game, e é mais ou menos assim que eu vejo a vida: estamos apostando. Você aposta que uma pessoa vai ser boa, e trata ela bem, ou não. Você aposta que alguém vai ficar do seu lado pelo resto da vida e depois descobre que essa pessoa vai te deixar na semana seguinte. Você aposta que as pessoas não vão cometer as mesmas cagadas de novo. Não dá pra saber como vai ser qualquer coisa que você faça. A vida é cheia demais de elementos caóticos para simplesmente fazermos planos e ficar nervosos quando eles não saem como esperados, e é o que muita gente faz. Eu já fui assim, mas felizmente cresci um pouco mais nos últimos tempos, o bastante pra saber disso. E outro problema (crônico, da parte da maioria das pessoas, e minha também), é que nós vemos as coisas sempre pelo lado negativo. Tenho conseguido mudar isso em mim, mas tenho certeza que outras pessoas não têm a mesma sorte. Eu consigo ver dois meses de diversão e dois anos de dor pelo que eles foram, e consigo vezes o bastante pra ficar feliz :-)
A estrada pode ser longa e escura, mas tenho certeza que, se continuar caminhando, vou achar algo, como a lua brilhando lá no alto.

E era isso. Será que eu faço mais sentido agora? Tomara que não, eu adoro o olhar de confusão na cara das pessoas.

Bom, como é tradicional, passo agora a maldição adiante:
Morgana E Juliana, porque essa dupla é incrível.
Nathy, porque ela está na TV e quem está na TV sempre acaba com esses pepinos.
Egídio, o cara com a chapinha mais bem-feita do universo :-D
Caetano, porque ele (não) toca Raul.
Thahy, mãe do leão mais legal do mundo.
Maria, porque ela tá à toa.
_g, porque ele é uma bola azul sorridente com fones de ouvido.
Fernanda, que por não ser blogueira vai ter que me responder por e-mail.

August 13, 2007

 Diálogo 

“Era como se eu a conhecesse. Ela era minha mais antiga e mais querida amiga. O tipo de pessoa pra quem você pode contar qualquer coisa, não importa o quanto seja ruim, e que vai continuar te amando, porque te conhece.”
(Brant Tucker, sobre a Morte, em Sandman #56)

Certo dia, eu estava sentado num banco, em uma praça. Pessoas iam e vinham, com seus cães e bicicletas e corpos pingando suor na areia. Eu, por minha vez, pingava suor apenas porque o dia estava insuportavelmente quente. Por algum motivo, usar minha camiseta de lobo e minha calça verde-escura com tecido pesado parecia uma boa idéia (e talvez esse motivo seja porque estamos no inverno, e estava fazendo um calor desgraçado aqui), e agora era tarde demais pra voltar. Eu nem sabia o que estava fazendo ali, até que ela chegou.

Ela, ao menos, era um pouco mais esperta que eu. Sua blusa preta de alcinha com certeza era mais quente que a minha camiseta de malha pesada, e seus jeans, também pretos pareciam tão bons quanto. Dizem que pessoas brancas (e acreditem, ela é branca, ao ponto de me fazer parecer bronzeado) sofrem mais quando o sol quente bate na sua pele, mas se ela sentia qualquer desconforto, escondia muito bem, ali para de pé. O sorriso, maravilhoso como sempre, contrastava com aquela tatuagem embaixo do olho que parecia descrever a trajetória de uma lágrima que sumiu no meio do seu rosto. Os olhos, uma mistura única de alegria e tristeza, me encaravam meio de lado, de um jeito
que, vindo de qualquer outra pessoa, seria zombeteiro, mas eu a conhecia bem o bastante pra saber que ela nunca zombaria de mim. Para alguém tão divertida, a Morte era bastante séria.

- Então é isso, já morri? - perguntei, sem desviar os olhos do nada
que eu observava à minha frente.
- Morrer? Você quer morrer? - ela perguntou, parte curiosa, parte rindo.
- Claro que não. Quem quer morrer?
- Pessoas que nasceram mas ainda não viveram. Você se surpreenderia com quantos existem.
- Surpreender? Sei lá, acho que duvido. Já vi muitos idiotas do tipo.
- Ah, mas sempre tem um idiota pior para te surpreender, e ele sempre aparece quando você acha que não pode piorar.
- Então… já que não vou morrer, a que devo a visita?
- Ah, eu tenho que estar aqui em meia hora, e te vi aqui meio cabisbaixo, resolvi dar um olá.
- Engraçado… eu tava com a sensação de que deveria estar aqui hoje. De fato, nem estou triste, estou só naquela calmaria lenta e pensativa, e estava esperando algo. Acho que era você.
- É, de certa forma, todos esperam por mim.
- … mas nenhum quer realmente te encontrar.
Ela gargalha. Uma gargalhada sonora, alta, ininterrupta, límpida. Poderia ser uma música.
- E então?
- Então… o quê?
- O que você queria me dizer?
- Nada, eu acho. Sei lá, não tenho pensado muito usando palavras, minha mente anda mais uma mistura de sensações e sentimentos e imagens, como se eu jogasse tudo em um liquidificador gigante e o resultado fosse o que está se passando na minha cabeça.
- Hmm.
- Se fosse qualquer outra pessoa, eu estaria sendo considerado doido por dizer isso, mas aposto que vocÊ me entende, né?
- É, mas eu entendo todo mundo.
- Heh algum dia eu chego lá.
- Chega sim. Todos chegam, alguns só demoram demais.
Mais gargalhadas. Dessa vez minhas. Comparadas com as dela, era como se fosse uma garça sendo estrangulada, mas não deu pra segurar.
- O que é tão engraçado?
- Que, quando eu me sinto deprimido, esses papos com a Morte me animam. É irônico, não?
- Não muito. Seria realmente estranho se você se animasse sem pensar em mim. Sabe, eu sou parte da sua vida.
- E uma parte muito agradável, quando deixamos de ter medo de você.
- Ora… obrigada. - ela responde, meio sem jeito. E posso ter delirado, mas nesse momento eu acho que vi a Morte corar levemente. Deve ser ilusão de grandeza.

Pouco a frente, um cachorro escapa da coleira e sai correndo. Seu dono tenta alcançá-lo, sem prestar atenção em nada na sua frente. “É ele?”, perguntei. Ela apenas abanou a cabeça, olhando fixamente pra escada logo adiante.
O cachorro se aproxima de nós, e nisso eu levanto do banco e o agarro o fujão. O dono vai desacelerando pouco a pouco, agradece e vai embora. Não acontece nada quando ele chega na escada, o que me deixa um tanto confuso. Extremamente confuso, a julgar pela reação da moça-entidademetafísica ao meu lado.
- Antes que você pergunte - ela começa - eu não planejei nada disso.
E, cantarolando, ela vai embora. Realmente, não tem como não amar a Morte.

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