November 1, 2009

 Apanhar 

“Toda mulher gosta de apanhar, apenas as neuróticas reagem.” (Nelson Rodrigues)

Thays sentia-se desconcertada. Não fazia muito sentido, a página inteira e nada. “Estado civil: namorando”, “Paixões: … Minha namorada …”. Uma declaração no “Sobre Mim”, fotos do casal no álbum (aliás, álbum dedicado também). Tudo como deveria, mas ela não desiste. Tem que ter algo errado. Será que tem algo oculto nas mensagens? Confidências trocadas como testemunhos? Tinha que ter algo. E ela nem estava perto, quem estava com ele? Mandou uma mensagem.

“Amor, saudad d vc.”

Ele respondeu. E rápido, curto e romântico. Suas pernas fraquejam um pouco com a resposta, como sempre, mas ela ainda não está satisfeita. E se ela for compreensiva? E se eles estiverem rindo… Ela liga. Quer saber por que ele não está em casa, falando com ela. Ele explica, diz que logo chega em casa, ela aceita. Faz sentido, mas ela ainda não acredita. Que ruim que é namorar à distância, não posso chegar na casa dele e pegar os dois no flagra. Ela sabe que está sendo traída, ele vive com mulheres, como poderia evitar? E é um belo canalha também, esconde cada detalhe com perfeição, se ela fosse ingênua poderia até acreditar nele.

É domingo e ela está entediada. Súbito, idéia: vou verificar todas as amigas dele. Scrapbooks, depoimentos, fotos. Ela desliga a notificação de visita (é por uma boa causa) e vai. Horas depois, nada. Por mais difícil que pareça de acreditar, parece que seu namorado é fiel. Não que ela planeje aceitar isso assim, sem provas melhores.

Resolve sair atrás do nome dele no Google. E endereços de e-mail, apelidos, tudo o mais. Ela tem muito tempo livre nas mãos, e hoje em dia pesquisar algo assim é bem rápido. Nada também. Ele está completamente limpo, isento, inocente, mas ainda acusado. Ah, ele não ia escapar tão fácil assim, não de alguém tão perceptiva e inteligente quanto ela.

E o namoro foi seguindo, até onde ele sabia, tudo bem. Até onde ela sabia, também, mas só um dos dois acreditava nisso, e os reflexos surgiam, claro. Ela agiu e “reagiu” até que ele não aguentou mais: trocou-a por outra. E depois terminou o namoro, contando tudo. Ela indignou-se, escandalizou-se, mil verbos, todos desagradáveis. Sabia o tempo inteiro que isso aconteceria, estava há mais de um ano prevendo isso.

Em seu interior, uma voz urrava, satisfeita: “Ah, era isso que eu queria”.

September 20, 2009

 RPG Brazilis 

Era o último dia daquela jornada. O nobre Ezwold finalmente chegara aos pés do Monte Apocalipse, lar do Dragão das Eras, uma fera dita imortal, que guerreiro algum jamais havia sobrepujado, para conquistar o Grimório de N’mar’dil, o maior mago sinistro de todos os tempos, e o equipamento de todos os guerreiros que falharam em obtê-lo. Ele circundou a montanha e encontrou, enfim, a entrada para a caverna.

Lá dentro, ele encontrou uma pequena tribo de gnomos das trevas, que foram facilmente derrotados graças à sua perícia no uso da poderosa Espada de Andar, com a qual ele foi o primeiro a derrotar o troll Ulik, o terrível. Adiante, ele chegou ao lago de lava, o qual apenas aqueles capazes de cruzar pelas estalagmites que magicamente resistiam à lava poderiam cruzar. Um guerreiro com uma armadura corporal completa certamente pesaria demais para a tarefa, se não fosse a presença das Botas de Bóreas, conquistadas em combate contra o maligno elfo negro An’him, que reduziam o peso do seu utilizador e permitiam andar até pela mais fina camada de gelo com a mais pesada das cargas. O lago de lava não teve a menor chance.

Além da próxima passagem, havia um corredor escuro, com surtos de luz ao fundo. A travessia foi longa e cuidadosa, mas não haviam armadilhas preparadas. Ao final, ele viu a origem das luzes, o bafo flamejante do Dragão das Eras, que estava… roncando?

Aparentemente, Ezwold chegou na hora da soneca do Dragão das Eras. Sabendo reconhecer a oportunidade e, talvez, a sua melhor chance, ele investe com um poderoso golpe contra o pescoço da fera, apenas para que a assim dita invencível Espada de Andar se quebrasse. O dragão aparentemente nada sentiu. Ele pega sua menos invencível Claymore, com as runas de fogo que os druidas lhe deram, que quebra tão facilmente. Nada ainda. A massiva clava Esmagadora, leve como uma pluma, mas capaz de desferir terríveis golpes, faz com que o dragão tenha sua primeira reação digna de nota.

“Deixa eu dormir, porra.”

Ezwold está sem ação. Ele olha para seu arsenal humilhado, e olha ao redor. Não parece que ele seja um oponente à altura. O Dragão das Eras mal percebe a sua presença, e…

“Ô narrador!”

Hã? Eu?

“Sim. Escuta, já que o dragão parece que não vai colaborar, e que a história foi pro saco, que tal se a gente fizer um acordo?”

Comoassim? E como você está falando comigo? Que raios de acordo, vai lá matar o dragão, ou morrer tentando, você está estragando a minha história!

“Tive uma ideía melhor: você ‘vai ao banheiro’ e, na volta, talvez encontre algumas peças do tesouro escondido do Dragão das Eras, o que me diz?”

Hmmm…

“Talvez algumas páginas do Grimório de N’mar’dil, também.”

Galera, já volto, a natureza chama.

..

….

.

Onde eu estava? Ah, sim, o grande e nobre Ezwold conseguiu ser o primeiro a tirar o Grimório de N’mar’dil da posse do Dragão das Eras, cumprindo sua missão, ganhando 34500 XP e 10000 GP. Agora, vão lá que eu vou ler uns… e-mails.

September 8, 2009

 Mar 

Morar na praia tem um elemento engraçado: você nunca está sozinho. Às vezes eu gosto de sair, no fim de tarde, pra caminhar pela areia vazia (porque existem praias onde ninguém quer ir, e essas são as melhores, onde você encontra os deuses antigos do mar e pode beber e trocar histórias com eles), e ouvir aquilo que está por todo lugar, em toda cidade: o quebrar de ondas do mar.

Água vem, água vai, e o som começa forte, intenso, mas vai se reduzindo, ficando mais devagar, mais calmo, mas não pára. E quando ele ameaça parar, vem outra onda e tudo começa de novo. Esse som está na beira do mar, mas também está dentro da cidade. Quem vive perto do mar sabe desse som em todos os lugares. O vento carrega para dentro da casa mais fechada, e a música mais alta não abafa. É o som da alma coletiva da humanidade explodindo palavras e emoções que somem, uma alma individual de cada vez.

Estar com saudades é como viver em uma cidade com praia.

July 28, 2009

 Um 

“Vaidade. Definitivamente é o meu pecado favorito. (Al Pacino, “Advogado do Diabo”)

Era um dia longo de uma vida longa, e ele não tinha nem 22 anos ainda. Caminhava pela cidade com tédio estampado no rosto e no corpo. Seus ombros demonstravam tédio. Suas pernas pediam ação. Mas a vida não é assim. Tédio é a soma dos dias, é o que mais acontece. Murmurou para si, “Droga, eu venderia a alma para…”

“Nunca diga que venderia a alma”, disse o velho. Era óbvio que era velho, apesar dos cabelos negros e da pele lisa. A voz era estranha, familiar, como a voz que todo velho tem e que lembra algum amigo de nossos avós, todos com as mesmas vozes arranhadas e fala arrastada do fim dos dias. “Nunca diga que venderia a alma”, disse o velho, “pode aparecer quem compre.”
“Hah. Se aparecer, eu vendo. E quem é você?”
“Alguém com alguns anos há mais de vida, e muitos passos à frente na sua estrada. Lembre-se disso. E eu era um mestre.”
Velho estranho, mas, como diz o ditado, “Quando se está no inferno, o que custa tomar um capuccino com o diabo?”. Foram.

A cafeteria fedia. Baratas faziam uma eleição e marcavam os votos na poeira dos balcões. Até a atendente parecia empoeirada. O café tinha gosto de suco de meia velha, e certamente nem um traço de chocolate, mas isso não importava muito. Até que era bom.

“Eu era um mestre”, recomeça o velho, “nunca chamei ninguém de senhor. Não, não. Esse era um privilégio a ser alugado, e assim eu e quem quer que fosse saberíamos que o único mérito era dinheiro. Eu ainda era mestre. E as mulheres, ahh, as mulheres. Mulheres sempre tentarão dominá-lo, garoto, lembre-se disso. Elas sempre querem mandar, no final das contas…”
“Mas não em mim. Isso eu garanto”, interrompeu Jonas. O velho pigarreou. Seu pulmão parecia podre.
“Se garante, é? Eu também me garantia, muito tempo atrás. Mas caí da mesma. Muitas mulheres conseguiram mandar em mim sem eu perceber. Mais espertas que o diabo, elas são. Mas eu sempre percebia. No começo eu não levava a sério. As primeiras escaparam.”
“Escaparam? Eu diria que foi você que escapou.”
“HAH. Ninguém realmente escapa. Ninguém. Só conseguimos algum tempo extra. E o tédio, ah, só esse mandava em mim, assim como manda em você. Desse somos todos peões.”
Jonas rolava os olhos. A história parecia não terminar nunca.
“Foi quando eu falei em vender a alma. E, como eu lhe disse, às vezes aparece um comprador. Naquele dia apareceu. Faz tanto tempo que não me lembro mais do rosto que tinha, mas o cheiro ficou na minha cabeça. Como repolhos podres, como mijo, como o lixo que você acumula num canto da sua casa e um dia domina o ambiente com seu fedor.
Ele fez uma oferta que eu não podia recusar, e eu não recusei. E tudo mudou. Tudo continuou o mesmo, também, mas tédio era passado. As pessoas passavam mais rápido, mas talvez eu estivesse vivendo mais sem notar. E me obedeciam. Meus chefes me obedeciam. Mulheres me obedeciam. Os que se recusavam, bom, não escapavam mais, he he he…”
“Como assim…?”
O velho passou o dedão esticado pra fora do punho pelo pescoço, e por um segundo realmente parecia uma faca. Os olhos de Jonas se arregalaram. “RRRRRRRRIIIIIIPPP”, disse o velho, voz rasgando.
“Me prenderam algumas vezes, até, mas nunca por muito tempo. Logo eu estava fora”, e dessa vez Jonas não perguntou. Sua intuição lhe dizia qual era a resposta, “porque não fazia sentido ser o último vivo no presídio e ficar lá.” Era uma intuição muito boa mesmo.
O velho serviu-se outra xícara de café.
“Mas você não dança com o demônio sem se queimar. Um dia ele veio, meu benfeitor, e quis mandar em mim. Eu não aceitei, claro.”
Jonas ia fazer a pergunta, e ouviu em sua mente, “RRRRIIIIIIPPP”. O velho sorriu. Não tinha mais a intuição de Jonas, mas sabia ler as pessoas. Você não chega até certa idade pra isso, embora chegue lá já bem lento.
“E eu continuo aí.”
“Bom, belo anti-clímax”, disse Jonas, “e um belo conto também. Uma historinha bonita. Só que o seu caso não é o meu caso.”
“Não, não é”, disse o velho, balançando a cabeça baixa, da maneira que alguns velhos fazem.
“Mas eu não entendi uma coisa: como você escapou do seu contrato?”
O velho riu, e fitou Jonas. Por um segundo houve um brilho vermelho e…

Silêncio.

Quase.
Cinco.
Minutos.

O velho se levanta. Faz um movimento para ir, mas Jonas o agarra pelo braço. “Eu aceito.”

Um sorriso. Ato falho.

June 14, 2009

 Ornitorrinco 10 

ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde

Era uma vez uma floresta indistinta, verde, com animais, árvores e arbustos, e lagos. A única característica que diz respeito a esta história é que ela não era do tipao habitado normalmente por ornitorrincos. Não que ornitorrincos nunca habitassem florestas como aquela, não é isso. Isso seria preconceito. Eles simplesmente não costumavam ir até aquela, e era isso.

Quero dizer, exceto pelo fato de que, naquela floresta, havia um ornitorrinco. Não era nativo, pois, como mencionei antes, essa espécie não é nativa de lá. Era um visitante. Mas também não era um simples visitante. A verdade é que AQUELE ornitorrinco era de lá, nasceu em algum lugar e lá cresceu. Não que se encaixasse, e não que fosse feliz, simplesmente lá estava. Também não era infeliz. Simplesmente era, sem se preocupar demais com nada. Não sabia e nem tinha como saber que, em outros lugares, florestas melhores possuíam outros da sua espécie. Mas não contemos isso para ele, pois não é nosso papel e me forçaria a mudar o título da história.

É, mudar o título, ou tirar a parte que diz “ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde”, pois, em uma incrível mostra de coincidência, em todos os lugares do mundo não havia uma Fada Verde caindo do céu.
Quero dizer, em quase todos os lugares. Bem em frente ao nosso amigo ornitorrinco, isso aconteceu. Caiu do céu uma Fada Verde, com letras maiúsculas no começo e tudo. Como eu sou preguiçoso, vamos dar-lhes nomes curtos. O ornitorrinco será chamado de Dann. É apelido para seu nome verdadeiro, Dan, com um ene. E a Fada Verde, bom, não vamos chamá-la de Fada ou de Verde, porque são genéricos demais. Também não podemos saber seu nome, a não ser que ela resolva contá-lo para nós — uma peculiaridade de seres mágicos. Eu normalmente inverteria o nome, porque é divertido, mas Edrev Adaf parece o nome de ditador maníaco de um país islâmico, então vamos misturar isso. O nome dela será Adre.

Agora, deve ficar mais fácil.

Como eu dizia, havia um ornitorrinco insatisfeito chamado Dann que presenciou a queda de uma Fada Verde chamada Adre. Imediatamente ele percebeu algo de errado, pois o normal seria algo assim ser precedido por uma vista sua a fada, para posterior retribuição. Mas não é assim que aconteceu dessa vez. E chega de enrolação.

Dann correu até Adre, sem saber que seu nome era Adre, ainda (lembrem desse detalhe, ele vai ser importante para entender o diálogo abaixo). Abaixou-se para ver como ela estava, e nisso ela levantou de um salto. “Oi”, disse, “só retribuindo a visita”. “Visita?”, Dann perguntou, confuso, “mas eu nunca te visitei, lembra? Não nesse conto, pelo menos. Tente preservar a quarta barreira”, complementou, com olhar solene para a brecha na estrutura literária. “Hmm, prometo tentar”, disse Adre.

“E qual é o seu nome?”, perguntou Dann (não deixem que essa pergunta os confunda, lembrem-se que Dann ainda não conhecia o nome de Adre. Isso está prestes a ser resolvido). “Meu nome é Adre, muito prazer, e o seu?”, é o que ela teria respondido, caso não fosse da natureza de seres mágicos não revelarem seus nomes facilmente assim. Para agilizar a história, vamos considerar que essa foi a sua resposta.
“Meu nome é Dan, mas meus amigos me chamam de Dann.”
“Hmm, e como posso chamá-lo?”, perguntou Adre, que não sabia dizer a diferença, apenas ouvindo.
“De Dann”, e essa resposta confundiu Adre, que resolveu simplesmente aceitar o conselho sem entendê-lo mesmo.
Silêncio
Adre ficou confusa, pois Dann apenas a encarava. Não estava entendendo qual era o problema daquele cara. “Dann, sabe me dizer aonde estou?”
“Exatamente aqui é a resposta que me dou quando essa pergunta me ocorre, mas confesso que também não tenho a mínima idéia.”
“Hmm, e como saio daqui?”
“Boa pergunta. Nunca pensei em fazer isso. Mas não quer ir até o lago refrescar a cabeça? A queda pareceu bem feia.”
“Não se preocupe com isso, eu sou bem forte. Não costumo me machucar fácil, sou bem forte.”
“É mesmo? Pra mim parece tão frágil”, e Dann tinha razão aqui. O olhar de Adre era caloroso, seu sorriso era angelical, e sua constituição parecia implorar por alguém que a defendesse contra qualquer coisa. Claro, talvez ela não parecesse tão assim, mas essa certamente foi a impressão que Dann teve. Embora, talvez, fosse apenas ele que percebesse isso como consequência da necessidade que ele de repente sentia de protegê-la. E de tê-la por perto.
Mas recompôs-se. Não fazia sentido imaginar uma Fada Verde querendo algo com um ornitorrinco. Era uma esperança muito distante. Não, ele deixou esses pensamentos tão de lado quanto pôde, e foram-se ao lago. Lá, ela se lavou e sorriu, como sorriem as pessoas depois de se limparem. É um sorriso mais alegre. E ele não pôde deixar de notar como ela, sorrindo, ficava ainda mais bonita.
“Então, o que um ornitorrinco faz, tão longe de casa?”
“Casa? Nunca tive, sou um nômade. Vou a um lugar, e depois vou à outro. Não tenho realmente nada que me prenda.”
“Quer dizer que você deve saber bem aonde estou, ou pelo menos como sair daqui.”
“Saber eu sei, mas por que você iria querer isso?”
“Bom, é o meu lugar, afinal de contas.”
“Nada tem lugar, salvo o que escolhem. Sente falta de alguém, lá?”
“Não, na verdade não, mas tenho coisas que tenho que terminar antes de poder sair para o mundo.”
“Entendo. Bom, então vamos que eu te levo até lá.”

No caminho, em uma longa conversa que tenho certeza que qualquer um poderia ter com uma árvore, caso resolvessem dar ouvidos à árvore, Dann explicou sua vida na floresta, e ela para ele. Conversaram sobre confiança, companhia, crenças, idéias, músicas (se você nunca ouviu música em uma floresta, só pode ser azarado, surdo ou nunca ter ido em uma), e antes que percebessem estavam no limiar da floresta. Dali, era para outro lugar, e era onde Adre podia se achar sozinha. Se abraçaram, e ela foi embora.

Ok, não foi assim. Dann resolveu não fingir, e disse o que sentia por Adre, que, desconhecido para ele, tb retribuia, de certa forma. Beijaram-se, e ele pediu que ela ficasse com ele. Ficou, e no futuro tiveram uma filha chamada Sofia.

Tá, esse final também não tá exato. O que aconteceu mesmo é que se abraçaram, e Dann percebeu que ela não o soltava, e o puxava para si. Beijou-a e ela disse “fica comigo mais um pouco”. Ele respondeu “se você quiser, fico contigo a vida inteira”. “Eu quero”.

E, dez anos depois, realmente nasceu uma filhote chamada Sofia.

April 18, 2009

 Luz 

A luz do dia vai se acabando lentamente, e eu estou sentado aqui nesse barracão, esperando um pouco de luz da lua. O sol brilhou forte hoje, foi um dia bom para suar, embora suar seja ruim pra caramba. Foi um dia morto, que está levando para uma noite morta nesse barracão na praia no meio do absoluto nada. Estou cansando disso já. Confesso que achei bom no começo, gostei do isolamento, mas já está dando nos nervos. Preciso de ar. O sol já baixou, resolvo caminhar pelas dunas. A areia afundando nos meus pés e me forçando a reavaliar o meu equilíbrio, fazendo com que eu perca a concentração entre um passo e outro, é estranhamente relaxante. Com meu fiel chinelo, que tem a idade do próprio tempo, vou sentindo a areia entre meus dedos. Ela escorre lentamente. É fina, e meu pé afunda fácil. Caminho sem rumo. Para a direita, como o Leão da Montanha. Ou seria a esquerda? Sei lá.

A noite está um pouco fria. Venta bastante, afinal estou no litoral. Um pouco de areia açoita minhas pernas, algumas gotas de mar chegam até mim. O céu está aberto, e eu estou caminhando há quanto tempo? Minutos, horas, ora sei lá. Esse é o bom de caminhar sozinho, você está livre para caminhar como quiser por quanto tempo quiser e o seu único juiz ainda é você mesmo. Claro, existe o sacrifício, mas… ei, que luz é aquela?

Por um instante penso que posso ter visto uma fogueira à distância. De repente tenho um rumo, resolvo ir caçar os vaga-lumes na noite. Corro desajeitado como posso pela areia soçobrante, até que chego e vejo que não há vagalumes. Ou melhor, acho que não. Há uma guria com um monte de coisas indistintas e brilhantes no chão. Não consigo ver de longe, mas vou chegando perto. Ela arremessa alguns para o ar, e de alguma forma equilibra… todos… não sei dizer, mas ela arremessa vários e pega todos antes que caiam no chão e joga para o alto de novo, mas eles não caem, ao menos não como as pedras cairiam. Eles meio que flutuam, o que não faz sentido, porque eu me aproximo e vejo que eles são cobertos de alguma forma de vidro. Parecem tão frágeis, como lâmpadas esféricas perfeitas com seus filamentos de tungstênio circulando por dentro do xeônio, carregados por energia elétrica vinda do nada, ou talvez do espaço, ou sei lá.

Chego perto o bastante, vejo que ela quebar o clima de praia em sua roupa preta. Jeans, camisa e sapatos. E ela fala, sem olhar para mim, “Você veio de longe.” Confirmo, e ela diz que não era uma pergunta. Eu pergunto o que ela faz aqui, e ela responde “Eu não sei. Só que não posso voltar para casa essa noite.” Uma boa olhada é o bastante para ver que ela não vai dizer o motivo. Ao invés disso, pego algumas esferas luminosas e tento fazer igual a ela. O problema é que sou desajeitado, elas escorregam por entre meus dedos e caem. Uma quebra, a luz apenas desaparece, sem deixar traços. Ela olha para mim e sorri. “Não tem problema”, ela fala, com sorriso tranquilizador, lendo minha mente, “elas só quebram quando é hora.” Pergunto de que hora ela fala, “oras, isso são sonhos. As luzes, quero dizer. Quando esse invólucro quebra, eles se soltam e voltam para de onde vieram.”

“Tá, mas e de onde eles vieram?”, pergunto, confuso. “Ora, não é óbvio? Para onde sonhos voltariam, além do Sonhar?” Preciso parar um pouco para absorver essa idéia. Sento na areia. De repente tudo se esclarece na minha mente como uma epifania. Eu conheço ela. Eu sei quem é essa garota, e eu a amo. E ela me ama. E não é nada disso que vocês estão pensando. As luzes continuam caindo. Algumas pairam ao redor dela, como lâmpadas ao ar. “Na hora certa, hein?”, pergunto, “e como você sabe quando é isso?”. Ela me olha como se para uma criança. “Ora, quando elas caírem, é a hora. Não é preciso magia antiga pra saber isso.” É quando eu reparo que ela não é ágil, mas sim que os globos ao redor dela não caem. Eles param no ar. “E qual é seu truque? Por que esses não caem?” “Ué, porque não é hora. Não prestou atenção antes? Eles só caem na hora certa, é simples assim.”

Resolvo tentar de novo. Pego dois globos e jogo pro ar. Eles flutuam. Como não notei que faziam isso antes? Pego mais globos mais rápido do que posso jogá-los. Sinto-me como se tivesse supervelocidade, eles são tão devagares, tão macios no ar, alguns são quase imóveis. Eu me preocuparia, mas o sorriso dela não deixa. Seus cabelos negros voam para o mesmo lado do meu, o vento fica mais forte, e eu deixo de reparar no tempo. Se a gente não sente o tempo significa que ele não existe? Não sei se o dia nasceu ou se na minha afobação não acabei iluminando aquele pedaço de praia. Demoro para perceber que ela está sentada e, cara, ela nunca pára de sorrir? Eu me deito na areia, fico olhando o espetáculo. Os globos se movem lentamente, ocasionalmente se tocam, sempre quicando um no outro. Em alguns momentos penso que estou dormindo.

Dou por mim com ela de pé, olhando para mim. “Acho que é hora de voltarmos para casa, né?” Pisco longamente. Suspiro. “Não, vou ficar aqui mais um pouco. E você não vai pra casa, né?” Esse sorriso não vai embora. Ainda bem. Teria que ser louco para querer ver outra expressão facial dela. Essa resume tudo, ou tudo que importa. “Não, aquilo era verso de uma música. De duas, na verdade. Mas tenho que ir.” Peço para ela esperar. Pego um dos globos, enterro levemente na areia, que começa a brilhar. Muito rapido, cresce uma flor. “Para você”, digo. “Não vai me dar a flor?” Não a arranquei do chão. “Não, ela é sua, e está ali, florescendo sempre. Se eu arrancasse, seria uma flor morta, e que tipo de presente é uma flor morta?” Me aproximo, beijo sua bochecha, digo “Tchau, gótica lindona”, e volto pelas dunas. E a luz do sol vai pintando o mar de um azul mais claro.

April 9, 2009

 Coragem 

Era tarde da noite. Eu estava caminhando pela rua, não era minha cidade, eu era só um visitante. A lua brilhava num céu sem nuvens, as ruas estavam escuras, e até os cães estavam com preguiça demais para latir para esse noctívago. Eu ando por uma rua residencial, a rua com o asfalto gasto. Uma coruja voou pela minha cabeça. Eu ando e um poste se apaga. Por algum motivo, isso me chama a atenção e paro para meditar sobre isso por um segundo. É nesse momento que noto, do outro lado, um apartamento com uma luz acesa. Bem fraca, duvido que notasse se o poste não estivesse apagado. Caminho até lá e, pela janela, vejo uma garota sentada lendo.

É um quarto quase vazio. O armário é grande, ocupa uma parede inteira. Uma escrivaninha bagunçada. Uma cama bagunçada. Caramba, a bagunça é tanta que quase sinto que é o meu quarto. A poltrona vazia tinha apenas uma calça largada em cima, certamente no mesmo esforço que eu faço pra que ela se amasse menos. No chão, pilhas de papéis. Aposto como ela sabe onde está cada um deles. Eu também sei dos meus.

Me identifiquei tanto que resolvi fazer o inesperado. Dei alguns toques na janela dela. Sentei em posição de lótus no jardim. Ei, não me olhe assim, era madrugada. Se eu dissesse “oi” ou coisa assim nunca teria chance de nada.

“Oi”, ela falou. “O que você quer?”
“Ah, nada. Fiquei curioso sobre o que você está lendo, pra estar acordada à essa hora.”
“Na verdade, nada demais. Um livro sobre interações sociais. Quero ver se aprendo mais sobre protocolos sociais, tem certas situações nas quais nunca sei como agir.”
O universo tem uma forma engraçada de juntar seus filhos mais estranhos.
Depois disso, começamos a conversar. Dormimos abraçados. Não aconteceu nada demais, apenas descobrimos o quanto um era parecido com o outro, duas pessoas com as mesmas vontades e carências. É tão raro encontrar alguém assim (e naquela noite nós realmente calculamos as probabilidades), não podíamos deixá-la passar. E não deixamos. E nunca mais nos vimos. Eu não sei como chegar na casa dela de novo. Talvez nunca mais nos encontremos, mas quem sabe?

Outra ocasião, estava no trem, lendo, quando paramos em uma estação qualquer. Entre as pessoas que entraram era uma garota alta, parecia interessante, a armação destoava o rosto mas não de uma forma feia. Era uma daquelas situações onde eu olho e penso “cara… isso é tão contra-intuitivo que não tenho como não achar atraente”. Ela sentou na mesma fileira que eu. Puxou fones de sua bolsa. E um mp3 player. Grande, telinha perfeitamente legível do meu lugar. Eu captava esses detalhes entre olhadas para meu livro, claro, porque… bom, porque eu sou assim, e não sei se posso dizer que fiz um grande esforço pra mudar isso.

De qualquer maneira, ela encosta a cabeça na janela, e logo está dormindo. Reparo nas músicas que ela escuta. Engenheiros do Hawaii. Legião Urbana. Picassos Falsos. Nando Reis. Quando olho, a música é Espatódea. Resolvo quebrar meu padrão. Depois de alguns minutos criando coragem (ei, é uma quebra do meu padrão, normalmente eu levo horas!) me aproximo, cutuco e pergunto: “Tem lugar pra mim?”.

Bom… tentei, né?
Talvez algum dia eu seja assim mesmo :-)

March 24, 2009

 A Gaveta 

Isso realmente aconteceu.

Era terça-feira. Ou melhor, é terça-feira, isso acabou de acontecer. Enfim, acordei sentindo um calafrio sinistro, que se intensificou quando vi a mesa do meu quarto arrumada. Pensando bem, nesse momento eu entrei em pânico. No momento seguinte, porém, eu lembrei que eu mesmo a tinha arrumado na noite anterior, pois hoje a minha mãe vem pra cá, ela quer trocar os armários do meu quarto na casa deles e na minha. E sempre dá ataques porque meu apartamento não é impecável. Mas isso não tem nada a ver com nada. Exceto por ser um sinal das coisas sinistras que estavam por acontecer.

Levantei-me, tomei meu banho tranquilamente, ou quase. Tomei um copo de leite, e vim para o trabalho. A manhã prosseguiu tediosa, registrei bugs que não conseguia corrigir, li um ou dois artigos. Paz. Pelo menos até aquela hora. Até a hora do almoço.

Fomos almoçar no Alemão, um restaurante daqui. Chegando lá, vários pediram xis ou pratos diversos. Eu pedi uma panqueca. Não fui o único. Porém, enquanto estava pedindo, senti uma presença, e ao olhar pra trás, vi… o Marv. Marv é um colega do trabalho, que tem esse apelido por ser parecido com o personagem de Esqueceram de Mim (o cara obcecado com abrir torneiras). Nada demais. O almoço transcorreu sem maiores incidentes. Depois do almoço, xadrez com o Mendel. Ganhei. Nada demais.

O terror me esperava no meu escritório, entre a minha cadeira e a porta da sala de reuniões, e não era o telefone. Certamente não era a caneta bic, embora ela fosse minha principal suspeita para eventos sobrenaturais e malignos. Não. O mal estava na minha gaveta.

Veja bem, eu estava vendo que não haviam chegado e-mails durante o almoço, quando o Fabricius chegou e perguntou se já tínhamos escovado os dentes. Eu respondi que não, e fui destrancar meu armarinho para pegar minha escova de dentes e a pasta. Mas, ao girar a chave… ELA NÃO SE MEXEU! A chave com que tranquei minha gaveta antes de sair pro almoço agora deixou de funcionar! Pensei em colocar a chave de cabeça pra baixo. Uma vez mais, nenhum resultado. Minha mente fervia, pensando nas possibilidades. Teria alguém trocado meu móvel com o de outra pessoa? Não era impossível, alguns colegas de trabalho têm senso de humor estranho.

O Fabricius reparou na minha dificuldade. Ele me viu tentando abrir, sem sucesso, a fechadura. Era loucura! Leis da física poderiam ser quebradas tão mundanamente? Loucura, loucura! Como pode?

Foi quando uma inspiração sinistra, como uma voz vinda das profundezas da Terra, falou comigo. Pedi a chave do Fabricius emprestada. Não tinha sentido, era ilógico esperar que uma chave que comprovadamente não abria aquela gaveta fosse subitamente funcionar, mas eu tentei. Quando estava girando, ela… abriu. O que era insano de repente se tornava doentio. Eu, que sempre baseei meu mundo em análises lógicas, vi suas bases desmoronando. A gaveta abria. Todas elas. COMO ASSIM?

Eu, que não bebia, hoje sou um ébrio, perambulando pelas ruas da cidade, falando sobre aliens abduzindo gavetas para seus experimentos. É verdade! Eles as consideram a forma de vida dominante, pela sua predominância. É…

Tá, não aconteceu nada disso. A vida seguiu normal, mas agora eu tenho uma chave nova. Não entendo como isso aconteceu, e não sei se algum dia irei. Mas fiquem sabendo, ó povo de pouca fé. Cuidado com suas gavetas! Elas estão vivas! VIVAS, EU LHES DIGO! Não as subestimem, pelo bem de suas almas, e muito cuidado. Uma vez trancadas, elas podem alterar a configuração interna de suas fechaduras tornando-se quase impenetráveis. Ou talvez, adaptando-se a uma outra chave próxima de você, que você nunca descobrirá qual é, para brincar com sua mente…

March 14, 2009

 Lago 

Certo dia, um garoto estava sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo. Atrás dele estava uma paisagem verde. Era um dia leve de outono, bem no começo. Quando a temperatura começa a ficar fria, mas não exatamente, ainda. O céu estava nublado. Não nublado como em um dia de chuva, apenas… cinza. Sabe, como aqueles dias tranquilos que aparecem de vez em quando e tapam o vão do infinito, quando você olha pra cima e ao invés do infinito enxerga uma grande massa cinzenta, e espera olhar para o lado e ver uma escada levando para o segundo andar. Para a maioria das pessoas esse seria um dia triste, desagradável. Você vê, pessoas gostam de sol, essa parece ser uma condição indissociável para que elas se sintam bem quando estão sozinhas. Mas essa é a característica das pessoas que tentam estar felizes sempre, e não era o caso dele. Não é o meu, também, e com sorte, não é o seu, mas nem eu nem você temos nada a ver com essa história.

Essa é a história de um garoto sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo, e enquanto pensava mil e uma coisas, passado, presente, dos futuros que não virão e das coisas que não tem um tempo próprio para si, ele enxergava um mundo diferente. Os peixes são bastante ignorantes. As pessoas não sabem, e aposto que elas se surpreenderiam se soubessem, mas os peixes possuem uma mente relativamente bem desenvolvida. Infelizmente para eles, ou felizmente talvez, o parâmetro mais adequado para essa comparação é aquele tipo de pessoa que toma substâncias da felicidade. Eles vivem sempre em um corpo d’água, limitado. Alguns em um lago, alguns em aquários, e alguns no mar. E todos possuem um território limitado que consideram como se fosse seu mundo. Peixes de lago são os mais certos nisso. Eles, afinal, só podem ir até onde acaba seu lago. Peixes do mar são os piores. Eles não se aventuram por medo. O mar é grande e eles sabem, mas não nadam longe por medo de não terem para onde voltar, medo (bem justificado, aliás) de morrer, medo de descobrirem que lá são os únicos de sua espécie. Poucos peixes realmente nadam para muito longe, no mar. E tem os de aquário, que não raro são insanos. Clinicamente insanos, pois eles são cercados por paredes de vidro. Seu espaço é pequeno e o tortura com um mundo onde ele nunca estará, e que mal pode compreender. Acredite, você não duraria muito tempo assim também. E nem ele.

E é por isso, entre outras coisas, que ele está sentado à beira do lago. Ele encara a água, reflexivo. Ele sabe que vive em um mundo cruel e indiferente, em que o futuro é incerto e o passado é algo que seria muito bom ter esquecido. Ele repete para si mesmo, como um mantra, “mas doutor, EU sou o Grande Pagliacci”, esperando que isso traga algum sentido pra tudo. Não funciona, mas ele continua repetindo. Não há nada mais que possa fazer.

E, de um arbusto próximo, de forma que seria contrária à todas as regras do que aceitamos como realidade, um ornitorrinco sai, caminhando devagar. Tá, não devagar, apenas calmamente, afinal ornitorrincos não têm pressa. Eles podem se dar a esse luxo. Humanos vivem apressados, temos consciência e medo da morte, e a segunda parte que é problemática. Sabe, quando tememos a morte, ela chega mais rápido. Os ornitorrincos sabem disso, e por isso, ela os ajuda. Fornece impulso, e eles superam o atrito e conquistam o mundo, por assim dizer. A superação do medo lhes permite um grau de sabedoria que poucos humanos atingem.

Por sinal, atingir é o que ele fez. Acertou sua pata direita na cabeça do garoto, quebrando sua melancólica concentração.
- Existe algo de belo na melancolia. É atraente a idéia de sentar-se à beira de um lago e remoer o mundo por um período indeterminado de tempo.
- E por isso eu apanho? - pergunta o garoto, passando a mão na cabeça, uma careta de dor no rosto.
- Não. É por cair na tentação. Você realmente vive em um mundo cruel e indiferente, e de fato seu futuro é incerto, mas só se você se mexer. Aqueles que ficam parados possuem futuro certo, e é no mesmo lugar. Não se prenda em um momento. Ai, o que foi isso?
Dessa vez, quem bateu foi o garoto.
- Engraçado estar do outro lado da pancada. Te acertei, sua toupeira (”grunf grunf, sou um ornitorrinco”, murmurou ele), porque dessa vez é você o cego. Está agindo como aqueles idiotas que acham que momentos tristes nunca deveriam acontecer, seu grande baka.
- Espera aí, o que diabos é um “baka”?
- Ah, sim, desculpa. “Baka” significa “besta”, “burro” ou “idiota”, em japonês. A intensidade depende bastante do contexto. É a convivência.
- Ok, prossiga então, “jovem mestre”.
- Certo, ignóbil discípulo. Você diz que eu não devo “sucumbir à tentação” da melancolia, e por dizer isso você mostra que não sabe tanto. Não sucumbi à tentação nenhuma, eu estou melancólico. E, de acordo com meu status Deus Ex Machina de autor da história, você pode ver que eu não sou eu e o clima me obedece. É o cenário que eu queria de volta, mesmo sem ser exatamente este. Saudade daquele morro com vista pra Provo…
- Hã, o assunto te ligou, quer saber você ainda quer ele por perto ou se vai ficar divagando - disse o ornitorrinco, sarcasticamente - e corta o papo de narrador onisciente. Eles já sacaram quem é o protagonista. O resto da história poderia ser apenas diálogos.
- E será, meu diminuto amigo. E será. Ou não. Enfim, eu não estou aproveitando a melancolia. Estou sentindo. É parte bastante grande de minha natureza, se você bem se lembra, não algo que eu controle. Eu apenas sigo as marés. A do mundo e a minha. Eu sei que parece estúpido e sem sentido pessoas ficarem tristes, ainda mais na época da felicidade em pílulas, mas quem nesse mundo está feliz o tempo todo?
- Muita gente que perde tempo em seções de auto-ajuda.
- Exato! Gente que perde tempo procurando as soluções complicadas quando as soluções são simples. Por que alguém iria querer ser assim?

March 10, 2009

 Ornitorrinco 9 

Todas as criaturas consideravam o leão como seu rei. Ele era um bom rei, atendia às necessidades de seus súditos antes das próprias, resolvia as disputas com justiça, e todos os animais nele geralmente confiavam.

Um dia, ele chamou todos os animais e proclamou que, daquele dia em diante, lobo e ovelha, o tigre e o cervo, o coelho e o cão, todos deveriam viver em paz e amizade perene. A proposta não foi tão bem-recebida, mas foi aceita por quase todos. O coelho disse, em tom jocoso, “oh, como ansiei pelo dia em que o fraco poderá sentar-se ileso ao lado do forte!”, no que imediatamente saiu correndo. O cão correu atrás dele e transformou-o em ensopado.
Nisso, o ornitorrinco chegou-se ao rei e disse “majestade, sua proposta é bem-intencionada, mas a natureza irá transparecer”. O cão, que continuava com fome, atacou então o ornitorrinco, tendo sua cabeça prontamente decepada por um golpe preciso. “E os mais fortes”, continuou o ornitorrinco, inabalado, “nem eles terão paz, pois a paz é um momento, e a amizade não é eterna.”

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