Protesto silencioso
Toda revolução é sangrenta. Acho que foi Malcom X que disse isso, ou algo assim. A história do século XX teve grandes marcos nas guerras. A história anterior, também. O status quo raramente mudou em silêncio, mas aconteceu bastante no Brasil. A nossa independência foi comprada, nossa república foi só uma mudança de mãos do poder. O povo sempre teve a voz silenciosa da reclamação de bar, de salão.
Deixando o passado mais distante de lado, chegamos no mundo dos anos 60. A ditadura tentou silenciar a oposição e aí surgiram os grandes artistas. A música de protesto, que se estendeu por anos. Até hoje, aliás, embora hoje ela esteja praticamente morta. Foi comprada, esqueçam. E a música também já atingiu seus limites, hora de mudar de tática. Ou melhor, de somar táticas.
Música é propaganda. Ajuda a espalhar as idéias, o que é ótimo, mas pára aí. Eu já fui em shows onde a banda falava como se ao sair dali Sarney iria para uma cadeia. Se eu não tivesse certeza de que seria linchado, teria dito “Pô, não é por aí! Já notaram que todas as 20 pessoas aqui concordam com vocês?”.
Sim, porque o show era num moquifo vazio, e não tinha nem 30 pessoas no lugar. E todas concordavam com a banda. Notaram a falha?
É como a idéia do “protesto”. O “protesto indignado”. O “protesto silencioso”. Todos estão protestando, mas pra quê? Notaram que o Sarney está lá? O Lula é popular, FHC teve dois mandatos, e ninguém saiu por protesto. Dizem que o Collor, mas ele estava tão queimado que os caras-pintadas dificilmente seriam necessários. Minha teoria é de que eles foram uma extensão do mito do movimento estudantil. Felizmente, esse é um dos que já foi por terra, espero.
E claro, espalhar a idéia é uma boa, mas e depois? Quando você tiver um número razoável de pessoas que pensam como você, o que você faz? Partimos para a luta, certo? ERRADO. Revolução Russa. Revolução Francesa. A queda do Império Romano. Todos mudaram absolutamente nada. Derrubar estruturas de poder podres e depois instalar algo novo e melhor com certeza tem o seu valor, mas ignora o passo essencial: a manutenção.
A história mostra que o estado que as coisas são não muda. O poder tende a se concentrar na mão de poucos, e esses poucos abusam, até serem derrubados. Motivos pra isso seriam desviar do foco, mas vejam bem: é constante. Por que é constante? Por que as coisas mudam tanto e tão pouco sempre? Existe um padrão aí.
Interlúdio: quando eu era pequeno, eu era daquelas crianças que gostavam de Lego. Não que gostasse de brincar com ele, minha diversão era montar coisas, admirar por algum tempo, e destruir pra fazer outra. Passei muitas horas assim.
O padrão é que os revolucionários chegam, constroem, e depois vão embora. E surgem os parasitas. Acabei de perceber como isso também é parecido com o ciclo vital: nascemos, nos desenvolvemos, e então decaímos e somos decompostos. A diferença, aí, é que o organismo não tem opção, mas estruturas hierárquicas têm. E é nesse ponto que eu queria chegar.
Precisamos desabafar. Precisamos espalhar as idéias. Diachos, até uma revolução nas ruas é importante, ocasionalmente. Mas não basta. Chegar no ápice é importante, mas mais importante é manter-se lá. É afastar os parasitas. É o passo que falta: revolução nas urnas.
As pessoas reclamam da democracia. Reclamam de ter que votar, de que não tem em quem votar, mas vão e votam. Democracia é tão liberdade que o voto é obrigatório. Irônico, não? E, apesar das reclamações e queixas, como é que os mesmos nomes sempre voltam pro poder? Os mesmos nomes todas as vezes. É a falha no terceiro e mais importante passo, a revolução nas urnas. A democracia precisa do seu voto. Se você tem um candidato, apoie-o (só não saia sujando a cidade, por favor), vote nele. Se você não tem, então diga bem alto que não tem ninguém que merece seu apoio. Não vote no menor dos males, porque ele ainda vai te prejudicar.
E por que não se candidatar? Não como um candidato zombeteiro (embora eu adore um bom palhaço), mas como um candidato sério. E, se for eleito, ao invés de ceder aos impulsos, agir direito? Porque os eleitos têm opção, e quando vierem te oferecer algum suborno, você pode simplesmente dizer não. É algo a se pensar. Podem ter certeza que eu ainda vou aparecer em alguma cédula.
Precisamos de bons candidatos pra manter o que se construiu. Pra recuperar o que está se desfazendo. É hora de parar de desmontar os brinquedos e começar a brincar.
“Se eles já sabem quem somos, por que não falamos mais e mais alto?” (Jello Biafra)
