November 1, 2009

 Apanhar 

“Toda mulher gosta de apanhar, apenas as neuróticas reagem.” (Nelson Rodrigues)

Thays sentia-se desconcertada. Não fazia muito sentido, a página inteira e nada. “Estado civil: namorando”, “Paixões: … Minha namorada …”. Uma declaração no “Sobre Mim”, fotos do casal no álbum (aliás, álbum dedicado também). Tudo como deveria, mas ela não desiste. Tem que ter algo errado. Será que tem algo oculto nas mensagens? Confidências trocadas como testemunhos? Tinha que ter algo. E ela nem estava perto, quem estava com ele? Mandou uma mensagem.

“Amor, saudad d vc.”

Ele respondeu. E rápido, curto e romântico. Suas pernas fraquejam um pouco com a resposta, como sempre, mas ela ainda não está satisfeita. E se ela for compreensiva? E se eles estiverem rindo… Ela liga. Quer saber por que ele não está em casa, falando com ela. Ele explica, diz que logo chega em casa, ela aceita. Faz sentido, mas ela ainda não acredita. Que ruim que é namorar à distância, não posso chegar na casa dele e pegar os dois no flagra. Ela sabe que está sendo traída, ele vive com mulheres, como poderia evitar? E é um belo canalha também, esconde cada detalhe com perfeição, se ela fosse ingênua poderia até acreditar nele.

É domingo e ela está entediada. Súbito, idéia: vou verificar todas as amigas dele. Scrapbooks, depoimentos, fotos. Ela desliga a notificação de visita (é por uma boa causa) e vai. Horas depois, nada. Por mais difícil que pareça de acreditar, parece que seu namorado é fiel. Não que ela planeje aceitar isso assim, sem provas melhores.

Resolve sair atrás do nome dele no Google. E endereços de e-mail, apelidos, tudo o mais. Ela tem muito tempo livre nas mãos, e hoje em dia pesquisar algo assim é bem rápido. Nada também. Ele está completamente limpo, isento, inocente, mas ainda acusado. Ah, ele não ia escapar tão fácil assim, não de alguém tão perceptiva e inteligente quanto ela.

E o namoro foi seguindo, até onde ele sabia, tudo bem. Até onde ela sabia, também, mas só um dos dois acreditava nisso, e os reflexos surgiam, claro. Ela agiu e “reagiu” até que ele não aguentou mais: trocou-a por outra. E depois terminou o namoro, contando tudo. Ela indignou-se, escandalizou-se, mil verbos, todos desagradáveis. Sabia o tempo inteiro que isso aconteceria, estava há mais de um ano prevendo isso.

Em seu interior, uma voz urrava, satisfeita: “Ah, era isso que eu queria”.

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Em caso de dúvidas, e-mêia eu, tio.


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