June 14, 2009

 Ornitorrinco 10 

ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde

Era uma vez uma floresta indistinta, verde, com animais, árvores e arbustos, e lagos. A única característica que diz respeito a esta história é que ela não era do tipao habitado normalmente por ornitorrincos. Não que ornitorrincos nunca habitassem florestas como aquela, não é isso. Isso seria preconceito. Eles simplesmente não costumavam ir até aquela, e era isso.

Quero dizer, exceto pelo fato de que, naquela floresta, havia um ornitorrinco. Não era nativo, pois, como mencionei antes, essa espécie não é nativa de lá. Era um visitante. Mas também não era um simples visitante. A verdade é que AQUELE ornitorrinco era de lá, nasceu em algum lugar e lá cresceu. Não que se encaixasse, e não que fosse feliz, simplesmente lá estava. Também não era infeliz. Simplesmente era, sem se preocupar demais com nada. Não sabia e nem tinha como saber que, em outros lugares, florestas melhores possuíam outros da sua espécie. Mas não contemos isso para ele, pois não é nosso papel e me forçaria a mudar o título da história.

É, mudar o título, ou tirar a parte que diz “ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde”, pois, em uma incrível mostra de coincidência, em todos os lugares do mundo não havia uma Fada Verde caindo do céu.
Quero dizer, em quase todos os lugares. Bem em frente ao nosso amigo ornitorrinco, isso aconteceu. Caiu do céu uma Fada Verde, com letras maiúsculas no começo e tudo. Como eu sou preguiçoso, vamos dar-lhes nomes curtos. O ornitorrinco será chamado de Dann. É apelido para seu nome verdadeiro, Dan, com um ene. E a Fada Verde, bom, não vamos chamá-la de Fada ou de Verde, porque são genéricos demais. Também não podemos saber seu nome, a não ser que ela resolva contá-lo para nós — uma peculiaridade de seres mágicos. Eu normalmente inverteria o nome, porque é divertido, mas Edrev Adaf parece o nome de ditador maníaco de um país islâmico, então vamos misturar isso. O nome dela será Adre.

Agora, deve ficar mais fácil.

Como eu dizia, havia um ornitorrinco insatisfeito chamado Dann que presenciou a queda de uma Fada Verde chamada Adre. Imediatamente ele percebeu algo de errado, pois o normal seria algo assim ser precedido por uma vista sua a fada, para posterior retribuição. Mas não é assim que aconteceu dessa vez. E chega de enrolação.

Dann correu até Adre, sem saber que seu nome era Adre, ainda (lembrem desse detalhe, ele vai ser importante para entender o diálogo abaixo). Abaixou-se para ver como ela estava, e nisso ela levantou de um salto. “Oi”, disse, “só retribuindo a visita”. “Visita?”, Dann perguntou, confuso, “mas eu nunca te visitei, lembra? Não nesse conto, pelo menos. Tente preservar a quarta barreira”, complementou, com olhar solene para a brecha na estrutura literária. “Hmm, prometo tentar”, disse Adre.

“E qual é o seu nome?”, perguntou Dann (não deixem que essa pergunta os confunda, lembrem-se que Dann ainda não conhecia o nome de Adre. Isso está prestes a ser resolvido). “Meu nome é Adre, muito prazer, e o seu?”, é o que ela teria respondido, caso não fosse da natureza de seres mágicos não revelarem seus nomes facilmente assim. Para agilizar a história, vamos considerar que essa foi a sua resposta.
“Meu nome é Dan, mas meus amigos me chamam de Dann.”
“Hmm, e como posso chamá-lo?”, perguntou Adre, que não sabia dizer a diferença, apenas ouvindo.
“De Dann”, e essa resposta confundiu Adre, que resolveu simplesmente aceitar o conselho sem entendê-lo mesmo.
Silêncio
Adre ficou confusa, pois Dann apenas a encarava. Não estava entendendo qual era o problema daquele cara. “Dann, sabe me dizer aonde estou?”
“Exatamente aqui é a resposta que me dou quando essa pergunta me ocorre, mas confesso que também não tenho a mínima idéia.”
“Hmm, e como saio daqui?”
“Boa pergunta. Nunca pensei em fazer isso. Mas não quer ir até o lago refrescar a cabeça? A queda pareceu bem feia.”
“Não se preocupe com isso, eu sou bem forte. Não costumo me machucar fácil, sou bem forte.”
“É mesmo? Pra mim parece tão frágil”, e Dann tinha razão aqui. O olhar de Adre era caloroso, seu sorriso era angelical, e sua constituição parecia implorar por alguém que a defendesse contra qualquer coisa. Claro, talvez ela não parecesse tão assim, mas essa certamente foi a impressão que Dann teve. Embora, talvez, fosse apenas ele que percebesse isso como consequência da necessidade que ele de repente sentia de protegê-la. E de tê-la por perto.
Mas recompôs-se. Não fazia sentido imaginar uma Fada Verde querendo algo com um ornitorrinco. Era uma esperança muito distante. Não, ele deixou esses pensamentos tão de lado quanto pôde, e foram-se ao lago. Lá, ela se lavou e sorriu, como sorriem as pessoas depois de se limparem. É um sorriso mais alegre. E ele não pôde deixar de notar como ela, sorrindo, ficava ainda mais bonita.
“Então, o que um ornitorrinco faz, tão longe de casa?”
“Casa? Nunca tive, sou um nômade. Vou a um lugar, e depois vou à outro. Não tenho realmente nada que me prenda.”
“Quer dizer que você deve saber bem aonde estou, ou pelo menos como sair daqui.”
“Saber eu sei, mas por que você iria querer isso?”
“Bom, é o meu lugar, afinal de contas.”
“Nada tem lugar, salvo o que escolhem. Sente falta de alguém, lá?”
“Não, na verdade não, mas tenho coisas que tenho que terminar antes de poder sair para o mundo.”
“Entendo. Bom, então vamos que eu te levo até lá.”

No caminho, em uma longa conversa que tenho certeza que qualquer um poderia ter com uma árvore, caso resolvessem dar ouvidos à árvore, Dann explicou sua vida na floresta, e ela para ele. Conversaram sobre confiança, companhia, crenças, idéias, músicas (se você nunca ouviu música em uma floresta, só pode ser azarado, surdo ou nunca ter ido em uma), e antes que percebessem estavam no limiar da floresta. Dali, era para outro lugar, e era onde Adre podia se achar sozinha. Se abraçaram, e ela foi embora.

Ok, não foi assim. Dann resolveu não fingir, e disse o que sentia por Adre, que, desconhecido para ele, tb retribuia, de certa forma. Beijaram-se, e ele pediu que ela ficasse com ele. Ficou, e no futuro tiveram uma filha chamada Sofia.

Tá, esse final também não tá exato. O que aconteceu mesmo é que se abraçaram, e Dann percebeu que ela não o soltava, e o puxava para si. Beijou-a e ela disse “fica comigo mais um pouco”. Ele respondeu “se você quiser, fico contigo a vida inteira”. “Eu quero”.

E, dez anos depois, realmente nasceu uma filhote chamada Sofia.

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2 Comentários »

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  1. Agora que a Fada Verde conheceu a floresta e o ornitorrinco lhe explicou o caminho poderá voltar para lá muitas vezes, ainda que tenha que terminar vários compromissos noutro mundo - afinal vida de fada não é fácil, reparem nas inúmeras vezes que elas trabalham nas historias, há sempre crianças precisando delas.
    mas é certo que o ornitorrinco e a Fada Verde estão apenas começando essa história, um dia a floresta dos dois será a mesma.

    Comment por Adri — June 15, 2009 @ 5:14 pm

  2. Tá, esse final também não tá exato. Esse foi o fim da primeira parte. O que aconteceu mesmo é que apesar de uma fada e um ornitorrinco serem tão parecidos eles viviam em universos distantes. A Fada ir parar na floresta foi travessura do Destino. Como os dois precisavam ficar em seus reinos, pois era neles que renovavam suas forças, se afastavam por muito tempo e ficavam tristes. Ainda assim um Amor verdadeiro os movia e unia. Mas sendo o Amor bichinho arisco foi se afastando; precisava ser preso entre os braços da Fada e do Ornitorrinco para não fugir. Só o Ornitorrinco ou só a Fada não conseguiam manter o Amor, precisavam estar juntos. E esse foi o começo do fim.
    Fim temporário, e dez anos depois não sei o que acontece.

    Nem ornitorrincos conseguiriam prever algo assim…

    Comment por Adri — October 14, 2009 @ 1:46 am

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