Luz
A luz do dia vai se acabando lentamente, e eu estou sentado aqui nesse barracão, esperando um pouco de luz da lua. O sol brilhou forte hoje, foi um dia bom para suar, embora suar seja ruim pra caramba. Foi um dia morto, que está levando para uma noite morta nesse barracão na praia no meio do absoluto nada. Estou cansando disso já. Confesso que achei bom no começo, gostei do isolamento, mas já está dando nos nervos. Preciso de ar. O sol já baixou, resolvo caminhar pelas dunas. A areia afundando nos meus pés e me forçando a reavaliar o meu equilíbrio, fazendo com que eu perca a concentração entre um passo e outro, é estranhamente relaxante. Com meu fiel chinelo, que tem a idade do próprio tempo, vou sentindo a areia entre meus dedos. Ela escorre lentamente. É fina, e meu pé afunda fácil. Caminho sem rumo. Para a direita, como o Leão da Montanha. Ou seria a esquerda? Sei lá.
A noite está um pouco fria. Venta bastante, afinal estou no litoral. Um pouco de areia açoita minhas pernas, algumas gotas de mar chegam até mim. O céu está aberto, e eu estou caminhando há quanto tempo? Minutos, horas, ora sei lá. Esse é o bom de caminhar sozinho, você está livre para caminhar como quiser por quanto tempo quiser e o seu único juiz ainda é você mesmo. Claro, existe o sacrifício, mas… ei, que luz é aquela?
Por um instante penso que posso ter visto uma fogueira à distância. De repente tenho um rumo, resolvo ir caçar os vaga-lumes na noite. Corro desajeitado como posso pela areia soçobrante, até que chego e vejo que não há vagalumes. Ou melhor, acho que não. Há uma guria com um monte de coisas indistintas e brilhantes no chão. Não consigo ver de longe, mas vou chegando perto. Ela arremessa alguns para o ar, e de alguma forma equilibra… todos… não sei dizer, mas ela arremessa vários e pega todos antes que caiam no chão e joga para o alto de novo, mas eles não caem, ao menos não como as pedras cairiam. Eles meio que flutuam, o que não faz sentido, porque eu me aproximo e vejo que eles são cobertos de alguma forma de vidro. Parecem tão frágeis, como lâmpadas esféricas perfeitas com seus filamentos de tungstênio circulando por dentro do xeônio, carregados por energia elétrica vinda do nada, ou talvez do espaço, ou sei lá.
Chego perto o bastante, vejo que ela quebar o clima de praia em sua roupa preta. Jeans, camisa e sapatos. E ela fala, sem olhar para mim, “Você veio de longe.” Confirmo, e ela diz que não era uma pergunta. Eu pergunto o que ela faz aqui, e ela responde “Eu não sei. Só que não posso voltar para casa essa noite.” Uma boa olhada é o bastante para ver que ela não vai dizer o motivo. Ao invés disso, pego algumas esferas luminosas e tento fazer igual a ela. O problema é que sou desajeitado, elas escorregam por entre meus dedos e caem. Uma quebra, a luz apenas desaparece, sem deixar traços. Ela olha para mim e sorri. “Não tem problema”, ela fala, com sorriso tranquilizador, lendo minha mente, “elas só quebram quando é hora.” Pergunto de que hora ela fala, “oras, isso são sonhos. As luzes, quero dizer. Quando esse invólucro quebra, eles se soltam e voltam para de onde vieram.”
“Tá, mas e de onde eles vieram?”, pergunto, confuso. “Ora, não é óbvio? Para onde sonhos voltariam, além do Sonhar?” Preciso parar um pouco para absorver essa idéia. Sento na areia. De repente tudo se esclarece na minha mente como uma epifania. Eu conheço ela. Eu sei quem é essa garota, e eu a amo. E ela me ama. E não é nada disso que vocês estão pensando. As luzes continuam caindo. Algumas pairam ao redor dela, como lâmpadas ao ar. “Na hora certa, hein?”, pergunto, “e como você sabe quando é isso?”. Ela me olha como se para uma criança. “Ora, quando elas caírem, é a hora. Não é preciso magia antiga pra saber isso.” É quando eu reparo que ela não é ágil, mas sim que os globos ao redor dela não caem. Eles param no ar. “E qual é seu truque? Por que esses não caem?” “Ué, porque não é hora. Não prestou atenção antes? Eles só caem na hora certa, é simples assim.”
Resolvo tentar de novo. Pego dois globos e jogo pro ar. Eles flutuam. Como não notei que faziam isso antes? Pego mais globos mais rápido do que posso jogá-los. Sinto-me como se tivesse supervelocidade, eles são tão devagares, tão macios no ar, alguns são quase imóveis. Eu me preocuparia, mas o sorriso dela não deixa. Seus cabelos negros voam para o mesmo lado do meu, o vento fica mais forte, e eu deixo de reparar no tempo. Se a gente não sente o tempo significa que ele não existe? Não sei se o dia nasceu ou se na minha afobação não acabei iluminando aquele pedaço de praia. Demoro para perceber que ela está sentada e, cara, ela nunca pára de sorrir? Eu me deito na areia, fico olhando o espetáculo. Os globos se movem lentamente, ocasionalmente se tocam, sempre quicando um no outro. Em alguns momentos penso que estou dormindo.
Dou por mim com ela de pé, olhando para mim. “Acho que é hora de voltarmos para casa, né?” Pisco longamente. Suspiro. “Não, vou ficar aqui mais um pouco. E você não vai pra casa, né?” Esse sorriso não vai embora. Ainda bem. Teria que ser louco para querer ver outra expressão facial dela. Essa resume tudo, ou tudo que importa. “Não, aquilo era verso de uma música. De duas, na verdade. Mas tenho que ir.” Peço para ela esperar. Pego um dos globos, enterro levemente na areia, que começa a brilhar. Muito rapido, cresce uma flor. “Para você”, digo. “Não vai me dar a flor?” Não a arranquei do chão. “Não, ela é sua, e está ali, florescendo sempre. Se eu arrancasse, seria uma flor morta, e que tipo de presente é uma flor morta?” Me aproximo, beijo sua bochecha, digo “Tchau, gótica lindona”, e volto pelas dunas. E a luz do sol vai pintando o mar de um azul mais claro.

ai…
vi o texto acontecendo diante dos meus olhos…
obrigada pela viagem literária, dante…
amei… ^^
Comment por thahy — April 18, 2009 @ 1:49 pm