9 04 2009

 Coragem 

Era tarde da noite. Eu estava caminhando pela rua, não era minha cidade, eu era só um visitante. A lua brilhava num céu sem nuvens, as ruas estavam escuras, e até os cães estavam com preguiça demais para latir para esse noctívago. Eu ando por uma rua residencial, a rua com o asfalto gasto. Uma coruja voou pela minha cabeça. Eu ando e um poste se apaga. Por algum motivo, isso me chama a atenção e paro para meditar sobre isso por um segundo. É nesse momento que noto, do outro lado, um apartamento com uma luz acesa. Bem fraca, duvido que notasse se o poste não estivesse apagado. Caminho até lá e, pela janela, vejo uma garota sentada lendo.

É um quarto quase vazio. O armário é grande, ocupa uma parede inteira. Uma escrivaninha bagunçada. Uma cama bagunçada. Caramba, a bagunça é tanta que quase sinto que é o meu quarto. A poltrona vazia tinha apenas uma calça largada em cima, certamente no mesmo esforço que eu faço pra que ela se amasse menos. No chão, pilhas de papéis. Aposto como ela sabe onde está cada um deles. Eu também sei dos meus.

Me identifiquei tanto que resolvi fazer o inesperado. Dei alguns toques na janela dela. Sentei em posição de lótus no jardim. Ei, não me olhe assim, era madrugada. Se eu dissesse “oi” ou coisa assim nunca teria chance de nada.

“Oi”, ela falou. “O que você quer?”
“Ah, nada. Fiquei curioso sobre o que você está lendo, pra estar acordada à essa hora.”
“Na verdade, nada demais. Um livro sobre interações sociais. Quero ver se aprendo mais sobre protocolos sociais, tem certas situações nas quais nunca sei como agir.”
O universo tem uma forma engraçada de juntar seus filhos mais estranhos.
Depois disso, começamos a conversar. Dormimos abraçados. Não aconteceu nada demais, apenas descobrimos o quanto um era parecido com o outro, duas pessoas com as mesmas vontades e carências. É tão raro encontrar alguém assim (e naquela noite nós realmente calculamos as probabilidades), não podíamos deixá-la passar. E não deixamos. E nunca mais nos vimos. Eu não sei como chegar na casa dela de novo. Talvez nunca mais nos encontremos, mas quem sabe?

Outra ocasião, estava no trem, lendo, quando paramos em uma estação qualquer. Entre as pessoas que entraram era uma garota alta, parecia interessante, a armação destoava o rosto mas não de uma forma feia. Era uma daquelas situações onde eu olho e penso “cara… isso é tão contra-intuitivo que não tenho como não achar atraente”. Ela sentou na mesma fileira que eu. Puxou fones de sua bolsa. E um mp3 player. Grande, telinha perfeitamente legível do meu lugar. Eu captava esses detalhes entre olhadas para meu livro, claro, porque… bom, porque eu sou assim, e não sei se posso dizer que fiz um grande esforço pra mudar isso.

De qualquer maneira, ela encosta a cabeça na janela, e logo está dormindo. Reparo nas músicas que ela escuta. Engenheiros do Hawaii. Legião Urbana. Picassos Falsos. Nando Reis. Quando olho, a música é Espatódea. Resolvo quebrar meu padrão. Depois de alguns minutos criando coragem (ei, é uma quebra do meu padrão, normalmente eu levo horas!) me aproximo, cutuco e pergunto: “Tem lugar pra mim?”.

Bom… tentei, né?
Talvez algum dia eu seja assim mesmo :-)

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Em caso de dúvidas, e-mêia eu, tio.


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