April 28, 2009

 História 

Quero ver a história que teus olhos contam,
com o brilho próprio dos projetores de cinema,
que me mostram tua vida,
tuas agruras e alegrias,
teus caminhos perdidos e achados e o sorriso
que só os olhos sabem dar e que se projetam
nos meus vindos dos teus

Quero ler a história que teu corpo me conta
de por onde tu andou e o que pensa e sente agora,
do quanto gosta e desgosta
e gosta do gostar

Quero ouvir as histórias que tua voz me conta,
na língua tradicional dos humanos,
e ouvir teu passado,
teu presente,
teus pensamentos e sentimentos.

Quero sentir
vindo de ti
o cheiro do seu dia,
o quanto ele te cansou e descansou,
enquanto tu descansa no meu peito
imprimindo essa história no meu nariz
juntando ela com a minha em nós dois

Quero que tua língua conte para a minha
do que eu sei que tu sente e que eu sinto,
e que é simples e belo

Não quero as histórias do futuro
As do passado só quero para te conhecer
A do presente, vamos escrever,
E quero todas as nossas histórias juntas
naquele momento onde contamos
um ao outro,
por onde andamos,
com todos os sentidos.

O sentido é nosso para criar.

Da série “Poesia em cinco minutos”.
Espero não achar ruim amanhã de manhã. Culpem Nando Reis. “O sono é a poesia com um texto tátil”. Santa Maria. Ouçam.

April 18, 2009

 Luz 

A luz do dia vai se acabando lentamente, e eu estou sentado aqui nesse barracão, esperando um pouco de luz da lua. O sol brilhou forte hoje, foi um dia bom para suar, embora suar seja ruim pra caramba. Foi um dia morto, que está levando para uma noite morta nesse barracão na praia no meio do absoluto nada. Estou cansando disso já. Confesso que achei bom no começo, gostei do isolamento, mas já está dando nos nervos. Preciso de ar. O sol já baixou, resolvo caminhar pelas dunas. A areia afundando nos meus pés e me forçando a reavaliar o meu equilíbrio, fazendo com que eu perca a concentração entre um passo e outro, é estranhamente relaxante. Com meu fiel chinelo, que tem a idade do próprio tempo, vou sentindo a areia entre meus dedos. Ela escorre lentamente. É fina, e meu pé afunda fácil. Caminho sem rumo. Para a direita, como o Leão da Montanha. Ou seria a esquerda? Sei lá.

A noite está um pouco fria. Venta bastante, afinal estou no litoral. Um pouco de areia açoita minhas pernas, algumas gotas de mar chegam até mim. O céu está aberto, e eu estou caminhando há quanto tempo? Minutos, horas, ora sei lá. Esse é o bom de caminhar sozinho, você está livre para caminhar como quiser por quanto tempo quiser e o seu único juiz ainda é você mesmo. Claro, existe o sacrifício, mas… ei, que luz é aquela?

Por um instante penso que posso ter visto uma fogueira à distância. De repente tenho um rumo, resolvo ir caçar os vaga-lumes na noite. Corro desajeitado como posso pela areia soçobrante, até que chego e vejo que não há vagalumes. Ou melhor, acho que não. Há uma guria com um monte de coisas indistintas e brilhantes no chão. Não consigo ver de longe, mas vou chegando perto. Ela arremessa alguns para o ar, e de alguma forma equilibra… todos… não sei dizer, mas ela arremessa vários e pega todos antes que caiam no chão e joga para o alto de novo, mas eles não caem, ao menos não como as pedras cairiam. Eles meio que flutuam, o que não faz sentido, porque eu me aproximo e vejo que eles são cobertos de alguma forma de vidro. Parecem tão frágeis, como lâmpadas esféricas perfeitas com seus filamentos de tungstênio circulando por dentro do xeônio, carregados por energia elétrica vinda do nada, ou talvez do espaço, ou sei lá.

Chego perto o bastante, vejo que ela quebar o clima de praia em sua roupa preta. Jeans, camisa e sapatos. E ela fala, sem olhar para mim, “Você veio de longe.” Confirmo, e ela diz que não era uma pergunta. Eu pergunto o que ela faz aqui, e ela responde “Eu não sei. Só que não posso voltar para casa essa noite.” Uma boa olhada é o bastante para ver que ela não vai dizer o motivo. Ao invés disso, pego algumas esferas luminosas e tento fazer igual a ela. O problema é que sou desajeitado, elas escorregam por entre meus dedos e caem. Uma quebra, a luz apenas desaparece, sem deixar traços. Ela olha para mim e sorri. “Não tem problema”, ela fala, com sorriso tranquilizador, lendo minha mente, “elas só quebram quando é hora.” Pergunto de que hora ela fala, “oras, isso são sonhos. As luzes, quero dizer. Quando esse invólucro quebra, eles se soltam e voltam para de onde vieram.”

“Tá, mas e de onde eles vieram?”, pergunto, confuso. “Ora, não é óbvio? Para onde sonhos voltariam, além do Sonhar?” Preciso parar um pouco para absorver essa idéia. Sento na areia. De repente tudo se esclarece na minha mente como uma epifania. Eu conheço ela. Eu sei quem é essa garota, e eu a amo. E ela me ama. E não é nada disso que vocês estão pensando. As luzes continuam caindo. Algumas pairam ao redor dela, como lâmpadas ao ar. “Na hora certa, hein?”, pergunto, “e como você sabe quando é isso?”. Ela me olha como se para uma criança. “Ora, quando elas caírem, é a hora. Não é preciso magia antiga pra saber isso.” É quando eu reparo que ela não é ágil, mas sim que os globos ao redor dela não caem. Eles param no ar. “E qual é seu truque? Por que esses não caem?” “Ué, porque não é hora. Não prestou atenção antes? Eles só caem na hora certa, é simples assim.”

Resolvo tentar de novo. Pego dois globos e jogo pro ar. Eles flutuam. Como não notei que faziam isso antes? Pego mais globos mais rápido do que posso jogá-los. Sinto-me como se tivesse supervelocidade, eles são tão devagares, tão macios no ar, alguns são quase imóveis. Eu me preocuparia, mas o sorriso dela não deixa. Seus cabelos negros voam para o mesmo lado do meu, o vento fica mais forte, e eu deixo de reparar no tempo. Se a gente não sente o tempo significa que ele não existe? Não sei se o dia nasceu ou se na minha afobação não acabei iluminando aquele pedaço de praia. Demoro para perceber que ela está sentada e, cara, ela nunca pára de sorrir? Eu me deito na areia, fico olhando o espetáculo. Os globos se movem lentamente, ocasionalmente se tocam, sempre quicando um no outro. Em alguns momentos penso que estou dormindo.

Dou por mim com ela de pé, olhando para mim. “Acho que é hora de voltarmos para casa, né?” Pisco longamente. Suspiro. “Não, vou ficar aqui mais um pouco. E você não vai pra casa, né?” Esse sorriso não vai embora. Ainda bem. Teria que ser louco para querer ver outra expressão facial dela. Essa resume tudo, ou tudo que importa. “Não, aquilo era verso de uma música. De duas, na verdade. Mas tenho que ir.” Peço para ela esperar. Pego um dos globos, enterro levemente na areia, que começa a brilhar. Muito rapido, cresce uma flor. “Para você”, digo. “Não vai me dar a flor?” Não a arranquei do chão. “Não, ela é sua, e está ali, florescendo sempre. Se eu arrancasse, seria uma flor morta, e que tipo de presente é uma flor morta?” Me aproximo, beijo sua bochecha, digo “Tchau, gótica lindona”, e volto pelas dunas. E a luz do sol vai pintando o mar de um azul mais claro.

April 9, 2009

 Coragem 

Era tarde da noite. Eu estava caminhando pela rua, não era minha cidade, eu era só um visitante. A lua brilhava num céu sem nuvens, as ruas estavam escuras, e até os cães estavam com preguiça demais para latir para esse noctívago. Eu ando por uma rua residencial, a rua com o asfalto gasto. Uma coruja voou pela minha cabeça. Eu ando e um poste se apaga. Por algum motivo, isso me chama a atenção e paro para meditar sobre isso por um segundo. É nesse momento que noto, do outro lado, um apartamento com uma luz acesa. Bem fraca, duvido que notasse se o poste não estivesse apagado. Caminho até lá e, pela janela, vejo uma garota sentada lendo.

É um quarto quase vazio. O armário é grande, ocupa uma parede inteira. Uma escrivaninha bagunçada. Uma cama bagunçada. Caramba, a bagunça é tanta que quase sinto que é o meu quarto. A poltrona vazia tinha apenas uma calça largada em cima, certamente no mesmo esforço que eu faço pra que ela se amasse menos. No chão, pilhas de papéis. Aposto como ela sabe onde está cada um deles. Eu também sei dos meus.

Me identifiquei tanto que resolvi fazer o inesperado. Dei alguns toques na janela dela. Sentei em posição de lótus no jardim. Ei, não me olhe assim, era madrugada. Se eu dissesse “oi” ou coisa assim nunca teria chance de nada.

“Oi”, ela falou. “O que você quer?”
“Ah, nada. Fiquei curioso sobre o que você está lendo, pra estar acordada à essa hora.”
“Na verdade, nada demais. Um livro sobre interações sociais. Quero ver se aprendo mais sobre protocolos sociais, tem certas situações nas quais nunca sei como agir.”
O universo tem uma forma engraçada de juntar seus filhos mais estranhos.
Depois disso, começamos a conversar. Dormimos abraçados. Não aconteceu nada demais, apenas descobrimos o quanto um era parecido com o outro, duas pessoas com as mesmas vontades e carências. É tão raro encontrar alguém assim (e naquela noite nós realmente calculamos as probabilidades), não podíamos deixá-la passar. E não deixamos. E nunca mais nos vimos. Eu não sei como chegar na casa dela de novo. Talvez nunca mais nos encontremos, mas quem sabe?

Outra ocasião, estava no trem, lendo, quando paramos em uma estação qualquer. Entre as pessoas que entraram era uma garota alta, parecia interessante, a armação destoava o rosto mas não de uma forma feia. Era uma daquelas situações onde eu olho e penso “cara… isso é tão contra-intuitivo que não tenho como não achar atraente”. Ela sentou na mesma fileira que eu. Puxou fones de sua bolsa. E um mp3 player. Grande, telinha perfeitamente legível do meu lugar. Eu captava esses detalhes entre olhadas para meu livro, claro, porque… bom, porque eu sou assim, e não sei se posso dizer que fiz um grande esforço pra mudar isso.

De qualquer maneira, ela encosta a cabeça na janela, e logo está dormindo. Reparo nas músicas que ela escuta. Engenheiros do Hawaii. Legião Urbana. Picassos Falsos. Nando Reis. Quando olho, a música é Espatódea. Resolvo quebrar meu padrão. Depois de alguns minutos criando coragem (ei, é uma quebra do meu padrão, normalmente eu levo horas!) me aproximo, cutuco e pergunto: “Tem lugar pra mim?”.

Bom… tentei, né?
Talvez algum dia eu seja assim mesmo :-)

April 3, 2009

 Oi 

Eu tenho um flog.

E confesso, tenho postado tanto lá quanto aqui. Contos e bobagens, ultimamente, bem como aqui.

Para ver lá, clique aqui.

Qualquer hora escrevo de novo. Estou entre o ocupado e o preguiçoso.

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Em caso de dúvidas, e-mêia eu, tio.


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