A Gaveta
Isso realmente aconteceu.
Era terça-feira. Ou melhor, é terça-feira, isso acabou de acontecer. Enfim, acordei sentindo um calafrio sinistro, que se intensificou quando vi a mesa do meu quarto arrumada. Pensando bem, nesse momento eu entrei em pânico. No momento seguinte, porém, eu lembrei que eu mesmo a tinha arrumado na noite anterior, pois hoje a minha mãe vem pra cá, ela quer trocar os armários do meu quarto na casa deles e na minha. E sempre dá ataques porque meu apartamento não é impecável. Mas isso não tem nada a ver com nada. Exceto por ser um sinal das coisas sinistras que estavam por acontecer.
Levantei-me, tomei meu banho tranquilamente, ou quase. Tomei um copo de leite, e vim para o trabalho. A manhã prosseguiu tediosa, registrei bugs que não conseguia corrigir, li um ou dois artigos. Paz. Pelo menos até aquela hora. Até a hora do almoço.
Fomos almoçar no Alemão, um restaurante daqui. Chegando lá, vários pediram xis ou pratos diversos. Eu pedi uma panqueca. Não fui o único. Porém, enquanto estava pedindo, senti uma presença, e ao olhar pra trás, vi… o Marv. Marv é um colega do trabalho, que tem esse apelido por ser parecido com o personagem de Esqueceram de Mim (o cara obcecado com abrir torneiras). Nada demais. O almoço transcorreu sem maiores incidentes. Depois do almoço, xadrez com o Mendel. Ganhei. Nada demais.
O terror me esperava no meu escritório, entre a minha cadeira e a porta da sala de reuniões, e não era o telefone. Certamente não era a caneta bic, embora ela fosse minha principal suspeita para eventos sobrenaturais e malignos. Não. O mal estava na minha gaveta.
Veja bem, eu estava vendo que não haviam chegado e-mails durante o almoço, quando o Fabricius chegou e perguntou se já tínhamos escovado os dentes. Eu respondi que não, e fui destrancar meu armarinho para pegar minha escova de dentes e a pasta. Mas, ao girar a chave… ELA NÃO SE MEXEU! A chave com que tranquei minha gaveta antes de sair pro almoço agora deixou de funcionar! Pensei em colocar a chave de cabeça pra baixo. Uma vez mais, nenhum resultado. Minha mente fervia, pensando nas possibilidades. Teria alguém trocado meu móvel com o de outra pessoa? Não era impossível, alguns colegas de trabalho têm senso de humor estranho.
O Fabricius reparou na minha dificuldade. Ele me viu tentando abrir, sem sucesso, a fechadura. Era loucura! Leis da física poderiam ser quebradas tão mundanamente? Loucura, loucura! Como pode?
Foi quando uma inspiração sinistra, como uma voz vinda das profundezas da Terra, falou comigo. Pedi a chave do Fabricius emprestada. Não tinha sentido, era ilógico esperar que uma chave que comprovadamente não abria aquela gaveta fosse subitamente funcionar, mas eu tentei. Quando estava girando, ela… abriu. O que era insano de repente se tornava doentio. Eu, que sempre baseei meu mundo em análises lógicas, vi suas bases desmoronando. A gaveta abria. Todas elas. COMO ASSIM?
Eu, que não bebia, hoje sou um ébrio, perambulando pelas ruas da cidade, falando sobre aliens abduzindo gavetas para seus experimentos. É verdade! Eles as consideram a forma de vida dominante, pela sua predominância. É…
Tá, não aconteceu nada disso. A vida seguiu normal, mas agora eu tenho uma chave nova. Não entendo como isso aconteceu, e não sei se algum dia irei. Mas fiquem sabendo, ó povo de pouca fé. Cuidado com suas gavetas! Elas estão vivas! VIVAS, EU LHES DIGO! Não as subestimem, pelo bem de suas almas, e muito cuidado. Uma vez trancadas, elas podem alterar a configuração interna de suas fechaduras tornando-se quase impenetráveis. Ou talvez, adaptando-se a uma outra chave próxima de você, que você nunca descobrirá qual é, para brincar com sua mente…

Eu não duvido de mais nada… Tomarei cuidado, tomarei cuidado…
Comment por Grazi — March 24, 2009 @ 1:59 pm