Lago
Certo dia, um garoto estava sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo. Atrás dele estava uma paisagem verde. Era um dia leve de outono, bem no começo. Quando a temperatura começa a ficar fria, mas não exatamente, ainda. O céu estava nublado. Não nublado como em um dia de chuva, apenas… cinza. Sabe, como aqueles dias tranquilos que aparecem de vez em quando e tapam o vão do infinito, quando você olha pra cima e ao invés do infinito enxerga uma grande massa cinzenta, e espera olhar para o lado e ver uma escada levando para o segundo andar. Para a maioria das pessoas esse seria um dia triste, desagradável. Você vê, pessoas gostam de sol, essa parece ser uma condição indissociável para que elas se sintam bem quando estão sozinhas. Mas essa é a característica das pessoas que tentam estar felizes sempre, e não era o caso dele. Não é o meu, também, e com sorte, não é o seu, mas nem eu nem você temos nada a ver com essa história.
Essa é a história de um garoto sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo, e enquanto pensava mil e uma coisas, passado, presente, dos futuros que não virão e das coisas que não tem um tempo próprio para si, ele enxergava um mundo diferente. Os peixes são bastante ignorantes. As pessoas não sabem, e aposto que elas se surpreenderiam se soubessem, mas os peixes possuem uma mente relativamente bem desenvolvida. Infelizmente para eles, ou felizmente talvez, o parâmetro mais adequado para essa comparação é aquele tipo de pessoa que toma substâncias da felicidade. Eles vivem sempre em um corpo d’água, limitado. Alguns em um lago, alguns em aquários, e alguns no mar. E todos possuem um território limitado que consideram como se fosse seu mundo. Peixes de lago são os mais certos nisso. Eles, afinal, só podem ir até onde acaba seu lago. Peixes do mar são os piores. Eles não se aventuram por medo. O mar é grande e eles sabem, mas não nadam longe por medo de não terem para onde voltar, medo (bem justificado, aliás) de morrer, medo de descobrirem que lá são os únicos de sua espécie. Poucos peixes realmente nadam para muito longe, no mar. E tem os de aquário, que não raro são insanos. Clinicamente insanos, pois eles são cercados por paredes de vidro. Seu espaço é pequeno e o tortura com um mundo onde ele nunca estará, e que mal pode compreender. Acredite, você não duraria muito tempo assim também. E nem ele.
E é por isso, entre outras coisas, que ele está sentado à beira do lago. Ele encara a água, reflexivo. Ele sabe que vive em um mundo cruel e indiferente, em que o futuro é incerto e o passado é algo que seria muito bom ter esquecido. Ele repete para si mesmo, como um mantra, “mas doutor, EU sou o Grande Pagliacci”, esperando que isso traga algum sentido pra tudo. Não funciona, mas ele continua repetindo. Não há nada mais que possa fazer.
E, de um arbusto próximo, de forma que seria contrária à todas as regras do que aceitamos como realidade, um ornitorrinco sai, caminhando devagar. Tá, não devagar, apenas calmamente, afinal ornitorrincos não têm pressa. Eles podem se dar a esse luxo. Humanos vivem apressados, temos consciência e medo da morte, e a segunda parte que é problemática. Sabe, quando tememos a morte, ela chega mais rápido. Os ornitorrincos sabem disso, e por isso, ela os ajuda. Fornece impulso, e eles superam o atrito e conquistam o mundo, por assim dizer. A superação do medo lhes permite um grau de sabedoria que poucos humanos atingem.
Por sinal, atingir é o que ele fez. Acertou sua pata direita na cabeça do garoto, quebrando sua melancólica concentração.
- Existe algo de belo na melancolia. É atraente a idéia de sentar-se à beira de um lago e remoer o mundo por um período indeterminado de tempo.
- E por isso eu apanho? - pergunta o garoto, passando a mão na cabeça, uma careta de dor no rosto.
- Não. É por cair na tentação. Você realmente vive em um mundo cruel e indiferente, e de fato seu futuro é incerto, mas só se você se mexer. Aqueles que ficam parados possuem futuro certo, e é no mesmo lugar. Não se prenda em um momento. Ai, o que foi isso?
Dessa vez, quem bateu foi o garoto.
- Engraçado estar do outro lado da pancada. Te acertei, sua toupeira (”grunf grunf, sou um ornitorrinco”, murmurou ele), porque dessa vez é você o cego. Está agindo como aqueles idiotas que acham que momentos tristes nunca deveriam acontecer, seu grande baka.
- Espera aí, o que diabos é um “baka”?
- Ah, sim, desculpa. “Baka” significa “besta”, “burro” ou “idiota”, em japonês. A intensidade depende bastante do contexto. É a convivência.
- Ok, prossiga então, “jovem mestre”.
- Certo, ignóbil discípulo. Você diz que eu não devo “sucumbir à tentação” da melancolia, e por dizer isso você mostra que não sabe tanto. Não sucumbi à tentação nenhuma, eu estou melancólico. E, de acordo com meu status Deus Ex Machina de autor da história, você pode ver que eu não sou eu e o clima me obedece. É o cenário que eu queria de volta, mesmo sem ser exatamente este. Saudade daquele morro com vista pra Provo…
- Hã, o assunto te ligou, quer saber você ainda quer ele por perto ou se vai ficar divagando - disse o ornitorrinco, sarcasticamente - e corta o papo de narrador onisciente. Eles já sacaram quem é o protagonista. O resto da história poderia ser apenas diálogos.
- E será, meu diminuto amigo. E será. Ou não. Enfim, eu não estou aproveitando a melancolia. Estou sentindo. É parte bastante grande de minha natureza, se você bem se lembra, não algo que eu controle. Eu apenas sigo as marés. A do mundo e a minha. Eu sei que parece estúpido e sem sentido pessoas ficarem tristes, ainda mais na época da felicidade em pílulas, mas quem nesse mundo está feliz o tempo todo?
- Muita gente que perde tempo em seções de auto-ajuda.
- Exato! Gente que perde tempo procurando as soluções complicadas quando as soluções são simples. Por que alguém iria querer ser assim?
