March 24, 2009

 A Gaveta 

Isso realmente aconteceu.

Era terça-feira. Ou melhor, é terça-feira, isso acabou de acontecer. Enfim, acordei sentindo um calafrio sinistro, que se intensificou quando vi a mesa do meu quarto arrumada. Pensando bem, nesse momento eu entrei em pânico. No momento seguinte, porém, eu lembrei que eu mesmo a tinha arrumado na noite anterior, pois hoje a minha mãe vem pra cá, ela quer trocar os armários do meu quarto na casa deles e na minha. E sempre dá ataques porque meu apartamento não é impecável. Mas isso não tem nada a ver com nada. Exceto por ser um sinal das coisas sinistras que estavam por acontecer.

Levantei-me, tomei meu banho tranquilamente, ou quase. Tomei um copo de leite, e vim para o trabalho. A manhã prosseguiu tediosa, registrei bugs que não conseguia corrigir, li um ou dois artigos. Paz. Pelo menos até aquela hora. Até a hora do almoço.

Fomos almoçar no Alemão, um restaurante daqui. Chegando lá, vários pediram xis ou pratos diversos. Eu pedi uma panqueca. Não fui o único. Porém, enquanto estava pedindo, senti uma presença, e ao olhar pra trás, vi… o Marv. Marv é um colega do trabalho, que tem esse apelido por ser parecido com o personagem de Esqueceram de Mim (o cara obcecado com abrir torneiras). Nada demais. O almoço transcorreu sem maiores incidentes. Depois do almoço, xadrez com o Mendel. Ganhei. Nada demais.

O terror me esperava no meu escritório, entre a minha cadeira e a porta da sala de reuniões, e não era o telefone. Certamente não era a caneta bic, embora ela fosse minha principal suspeita para eventos sobrenaturais e malignos. Não. O mal estava na minha gaveta.

Veja bem, eu estava vendo que não haviam chegado e-mails durante o almoço, quando o Fabricius chegou e perguntou se já tínhamos escovado os dentes. Eu respondi que não, e fui destrancar meu armarinho para pegar minha escova de dentes e a pasta. Mas, ao girar a chave… ELA NÃO SE MEXEU! A chave com que tranquei minha gaveta antes de sair pro almoço agora deixou de funcionar! Pensei em colocar a chave de cabeça pra baixo. Uma vez mais, nenhum resultado. Minha mente fervia, pensando nas possibilidades. Teria alguém trocado meu móvel com o de outra pessoa? Não era impossível, alguns colegas de trabalho têm senso de humor estranho.

O Fabricius reparou na minha dificuldade. Ele me viu tentando abrir, sem sucesso, a fechadura. Era loucura! Leis da física poderiam ser quebradas tão mundanamente? Loucura, loucura! Como pode?

Foi quando uma inspiração sinistra, como uma voz vinda das profundezas da Terra, falou comigo. Pedi a chave do Fabricius emprestada. Não tinha sentido, era ilógico esperar que uma chave que comprovadamente não abria aquela gaveta fosse subitamente funcionar, mas eu tentei. Quando estava girando, ela… abriu. O que era insano de repente se tornava doentio. Eu, que sempre baseei meu mundo em análises lógicas, vi suas bases desmoronando. A gaveta abria. Todas elas. COMO ASSIM?

Eu, que não bebia, hoje sou um ébrio, perambulando pelas ruas da cidade, falando sobre aliens abduzindo gavetas para seus experimentos. É verdade! Eles as consideram a forma de vida dominante, pela sua predominância. É…

Tá, não aconteceu nada disso. A vida seguiu normal, mas agora eu tenho uma chave nova. Não entendo como isso aconteceu, e não sei se algum dia irei. Mas fiquem sabendo, ó povo de pouca fé. Cuidado com suas gavetas! Elas estão vivas! VIVAS, EU LHES DIGO! Não as subestimem, pelo bem de suas almas, e muito cuidado. Uma vez trancadas, elas podem alterar a configuração interna de suas fechaduras tornando-se quase impenetráveis. Ou talvez, adaptando-se a uma outra chave próxima de você, que você nunca descobrirá qual é, para brincar com sua mente…

March 14, 2009

 Lago 

Certo dia, um garoto estava sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo. Atrás dele estava uma paisagem verde. Era um dia leve de outono, bem no começo. Quando a temperatura começa a ficar fria, mas não exatamente, ainda. O céu estava nublado. Não nublado como em um dia de chuva, apenas… cinza. Sabe, como aqueles dias tranquilos que aparecem de vez em quando e tapam o vão do infinito, quando você olha pra cima e ao invés do infinito enxerga uma grande massa cinzenta, e espera olhar para o lado e ver uma escada levando para o segundo andar. Para a maioria das pessoas esse seria um dia triste, desagradável. Você vê, pessoas gostam de sol, essa parece ser uma condição indissociável para que elas se sintam bem quando estão sozinhas. Mas essa é a característica das pessoas que tentam estar felizes sempre, e não era o caso dele. Não é o meu, também, e com sorte, não é o seu, mas nem eu nem você temos nada a ver com essa história.

Essa é a história de um garoto sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo, e enquanto pensava mil e uma coisas, passado, presente, dos futuros que não virão e das coisas que não tem um tempo próprio para si, ele enxergava um mundo diferente. Os peixes são bastante ignorantes. As pessoas não sabem, e aposto que elas se surpreenderiam se soubessem, mas os peixes possuem uma mente relativamente bem desenvolvida. Infelizmente para eles, ou felizmente talvez, o parâmetro mais adequado para essa comparação é aquele tipo de pessoa que toma substâncias da felicidade. Eles vivem sempre em um corpo d’água, limitado. Alguns em um lago, alguns em aquários, e alguns no mar. E todos possuem um território limitado que consideram como se fosse seu mundo. Peixes de lago são os mais certos nisso. Eles, afinal, só podem ir até onde acaba seu lago. Peixes do mar são os piores. Eles não se aventuram por medo. O mar é grande e eles sabem, mas não nadam longe por medo de não terem para onde voltar, medo (bem justificado, aliás) de morrer, medo de descobrirem que lá são os únicos de sua espécie. Poucos peixes realmente nadam para muito longe, no mar. E tem os de aquário, que não raro são insanos. Clinicamente insanos, pois eles são cercados por paredes de vidro. Seu espaço é pequeno e o tortura com um mundo onde ele nunca estará, e que mal pode compreender. Acredite, você não duraria muito tempo assim também. E nem ele.

E é por isso, entre outras coisas, que ele está sentado à beira do lago. Ele encara a água, reflexivo. Ele sabe que vive em um mundo cruel e indiferente, em que o futuro é incerto e o passado é algo que seria muito bom ter esquecido. Ele repete para si mesmo, como um mantra, “mas doutor, EU sou o Grande Pagliacci”, esperando que isso traga algum sentido pra tudo. Não funciona, mas ele continua repetindo. Não há nada mais que possa fazer.

E, de um arbusto próximo, de forma que seria contrária à todas as regras do que aceitamos como realidade, um ornitorrinco sai, caminhando devagar. Tá, não devagar, apenas calmamente, afinal ornitorrincos não têm pressa. Eles podem se dar a esse luxo. Humanos vivem apressados, temos consciência e medo da morte, e a segunda parte que é problemática. Sabe, quando tememos a morte, ela chega mais rápido. Os ornitorrincos sabem disso, e por isso, ela os ajuda. Fornece impulso, e eles superam o atrito e conquistam o mundo, por assim dizer. A superação do medo lhes permite um grau de sabedoria que poucos humanos atingem.

Por sinal, atingir é o que ele fez. Acertou sua pata direita na cabeça do garoto, quebrando sua melancólica concentração.
- Existe algo de belo na melancolia. É atraente a idéia de sentar-se à beira de um lago e remoer o mundo por um período indeterminado de tempo.
- E por isso eu apanho? - pergunta o garoto, passando a mão na cabeça, uma careta de dor no rosto.
- Não. É por cair na tentação. Você realmente vive em um mundo cruel e indiferente, e de fato seu futuro é incerto, mas só se você se mexer. Aqueles que ficam parados possuem futuro certo, e é no mesmo lugar. Não se prenda em um momento. Ai, o que foi isso?
Dessa vez, quem bateu foi o garoto.
- Engraçado estar do outro lado da pancada. Te acertei, sua toupeira (”grunf grunf, sou um ornitorrinco”, murmurou ele), porque dessa vez é você o cego. Está agindo como aqueles idiotas que acham que momentos tristes nunca deveriam acontecer, seu grande baka.
- Espera aí, o que diabos é um “baka”?
- Ah, sim, desculpa. “Baka” significa “besta”, “burro” ou “idiota”, em japonês. A intensidade depende bastante do contexto. É a convivência.
- Ok, prossiga então, “jovem mestre”.
- Certo, ignóbil discípulo. Você diz que eu não devo “sucumbir à tentação” da melancolia, e por dizer isso você mostra que não sabe tanto. Não sucumbi à tentação nenhuma, eu estou melancólico. E, de acordo com meu status Deus Ex Machina de autor da história, você pode ver que eu não sou eu e o clima me obedece. É o cenário que eu queria de volta, mesmo sem ser exatamente este. Saudade daquele morro com vista pra Provo…
- Hã, o assunto te ligou, quer saber você ainda quer ele por perto ou se vai ficar divagando - disse o ornitorrinco, sarcasticamente - e corta o papo de narrador onisciente. Eles já sacaram quem é o protagonista. O resto da história poderia ser apenas diálogos.
- E será, meu diminuto amigo. E será. Ou não. Enfim, eu não estou aproveitando a melancolia. Estou sentindo. É parte bastante grande de minha natureza, se você bem se lembra, não algo que eu controle. Eu apenas sigo as marés. A do mundo e a minha. Eu sei que parece estúpido e sem sentido pessoas ficarem tristes, ainda mais na época da felicidade em pílulas, mas quem nesse mundo está feliz o tempo todo?
- Muita gente que perde tempo em seções de auto-ajuda.
- Exato! Gente que perde tempo procurando as soluções complicadas quando as soluções são simples. Por que alguém iria querer ser assim?

March 10, 2009

 Ornitorrinco 9 

Todas as criaturas consideravam o leão como seu rei. Ele era um bom rei, atendia às necessidades de seus súditos antes das próprias, resolvia as disputas com justiça, e todos os animais nele geralmente confiavam.

Um dia, ele chamou todos os animais e proclamou que, daquele dia em diante, lobo e ovelha, o tigre e o cervo, o coelho e o cão, todos deveriam viver em paz e amizade perene. A proposta não foi tão bem-recebida, mas foi aceita por quase todos. O coelho disse, em tom jocoso, “oh, como ansiei pelo dia em que o fraco poderá sentar-se ileso ao lado do forte!”, no que imediatamente saiu correndo. O cão correu atrás dele e transformou-o em ensopado.
Nisso, o ornitorrinco chegou-se ao rei e disse “majestade, sua proposta é bem-intencionada, mas a natureza irá transparecer”. O cão, que continuava com fome, atacou então o ornitorrinco, tendo sua cabeça prontamente decepada por um golpe preciso. “E os mais fortes”, continuou o ornitorrinco, inabalado, “nem eles terão paz, pois a paz é um momento, e a amizade não é eterna.”

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