O Arlequim
Olá, o meu nome é Arlequim
E você não me vê
Nem você, nem você
Mas eu brinco.
Sabe sua chave que sumiu?
A carteira que não está mais lá?
A mosca na sua bebida?
Fui eu. Ou não fui.
Mas essa história
É do dia da Colombina
Você vê, nem tudo são flores quando ninguém lhe toca
Pois até o Arlequim se apaixona
Mesmo sem ousar tocar
Mesmo podendo apenas ver
Meu coração pode disparar
E ele dispara
Seus cabelos negros ondulando a luz
Seus olhos, verdes, que tem luz própria esmeralda
E essa sua boca, esse sorriso
Oh, esse sorriso milagroso
Eu já tive muitas Colombinas
Mas seu sorriso me deixa inseguro
Sua cara indica as horas
Hora de sair da cama, hora de encontrar meu presente
Aos seus pés, bem à vista para ver
bem perto para pisar
bem ali para aceitar
deixo-lhe meu coração
Já esperava sua reação
O grito, o espanto
Também esperava o que vinha depois
O rosto em dúvida, e a risada
Oh, nossa, uau, essa é a música que os deuses procuravam
E nunca criaram
Você pega meu amor sangrento e exposto com nojo
Carrega até a pia da cozinha, e embala com cuidado
Ou seria com medo?
Em plástico, e coloca no bolso
E sai
Eu sei que você quer perguntar para alguém sobre meu presente
Mas para quem se pergunta sobre o coração?
Você anda devagar
E eu logo atrás
Em meu passo invisível
Balanço chapéus, danço e canto
Pois sou também inaudível
E também sou feliz, mesmo que triste
Minha condição me permite lhe acompanhar mesmo longe
Enquanto você senta e observa a fonte
Eu tiro o dinheiro do bolso do homem de terno
E coloco na lata do homem de fedor
Tiro o chapéu do homem de bigode
E como meio côco brinco de correr com o aro, tal qual vento, e nem um movimento atrai tua atenção
E nem a de ninguém
Você não me vê sentar ao seu lado
Nem me vê quando choro
Pois queria seu colo
Estou sempre só na multidão, ter você ao meu lado de nada vale sem seu toque
A lágrima rola
Tua mão no bolso
Minhas mãos incertas
Meu rosto incerto
Minha vida incerta
Um pombo voa
Só
Dou um pulo, enxotado por uma velha
Em seu rosto, a história do mundo, em seus gestos, a alma do mundo
Ela me xinga, e me empurra, e me toma o lugar
Desacostumado, levanto e sou gentil
Afinal, o Arlequim é um brincalhão, não um rufião
Mas logo a velha berra
e levanta
e corre
“O coração! Do Arlequim! Se livra disso!”
Sua cara é de dúvida
A minha desespero
Você não jogaria fora meu coração, jogaria?
Ele sangra, ele pulsa, ele existe por você
Não o tenho mais utilidade, preciso do seu
Divide parte de ti comigo como dividi contigo, viveremos um no outro e nada será mais glorioso!
Eu vejo os pensamentos
Ou melhor, o ato de pensar
Gostaria que pensasse alto, queria participar
Você caminha, eu brinco
Você entra pela porta que tem sino, e eu lhe sigo
Você senta, e pede uma porção de arroz, batatas assadas, um pouco de ketchup e sal
E pega meu coração do seu bolso
Lenta e delicadamente você o come
Invisível, meu coração é como se não o comesse
Invisível, intocável, sou como se não vivesse
Mas de repente você reluz em verde e vermelho e amarelo
Minhas cores, minhas cores refletem em teus olhos
E se levanta
E me beija
E lhe vejo pela primeira vez
Os cabelos que ondulam a luz
Os olhos brilhando esmeralda
E o sorriso, agora um milagre vermelho em um rosto branco
Em um olho, um detalhe delicado
No outro, uma grande mancha preta
No conjunto, toda a beleza que existe
A comida perde o interesse
Assim como as roupas. As antigas, sem cor
Agora vestes vermelho e roxo e preto
Como uma princesa risonha
Quando eu pulo, você pula
Quando você pula, eu lhe pego
Bagunçamos mil vezes mais, pois o amor não é soma
É exponenciação: eu elevado à você elevada a mim elevando-nos ao infinito
Pulando e cantando e escrevendo a canção
—
Baseado na história “A Paixão do Arlequim”, escrita por Neil Gaiman e desenhada por John Bolton.

Bah! O.O
Gostei mesmo! Demorei pra ler, mas finalmente aqui estou… Me ficou uma duvida… Com relação a velha… Mas falamos disso depois.
Beijos!
Parabens!
Comment por Dé Borges — March 9, 2009 @ 1:43 am
simplesmente adorei! *_*
Comment por anelise — March 9, 2009 @ 10:23 am