Rendição
Ok, humanos, eu me rendo. Na verdade, já há muito desisti, só que hoje formalizo minha rendição. Sou obstinado, persistente, teimoso até, mas a sabedoria exige o reconhecimento das batalhas perdidas que não merecem ser travadas. E a interação social seguindo suas regras é uma delas.
Tentei aprender, como melhor faço: observação. Acredito que, com observação e com a mente apurada o suficiente, não há sistema lógico que não possa ser decifrado; mas essa regra vale apenas para sistemas lógicos. Interações entre humanos não são lógicas, ou talvez o sejam, mas sua natureza não-determinística impede que sejam reduzidas a um número adequado de algoritmos bem-definidos. Pelo contrário, a quantidade de desvios e exceções e variáveis aumentam rumo ao infinito. Há sim um conjunto de regras básicas, em especial para relacionamentos mais distantes, como conhecidos ou parentes distantes. E mesmo nesses casos, é normalmente aceito, é impossível atingir algo próximo à adequação em cem por cento dos casos. O que resta, então, senão a rendição? Desisto, então, prezados e nem tanto, de tentar participar de sua tão aclamada civilização.
Ao menos, em seus termos. Explico-me.
Assim como muitos (e, bom ou mau, muito poucos), estou agora impondo meu próprio conjunto de regras para interações. Sei que nenhum ou poucos irão compreendê-las em sua plenitude, ou mesmo aceitá-las, mas espero conseguir transmitir a estrutura lógica que as guia.
A primeira é repúdio total ao tratamento melhor que polido e frio à pessoas que me desagradam, seja pelo motivo que for. O motivo mais forte é que, ao meu ver, tratar pessoas desagradáveis tal como eu trato amigos é uma ofensa aos últimos, que possuem características que eu considero virtuosas, e que me tratam com o respeito e o carinho que os primeiros não demonstram. Igualar ambos é um ato que beira o criminoso.
Eu renuncio toda sutileza absurda. A interação é muitas vezes dificultada pelo abuso de comunicação que ocorre em um nível imperceptível e sinais dúbios. Esses procedimentos inserem um nível de ruído na comunicação tamanho que é surpreendente que quaiquer duas pessoas se entendam. É como procurar padrões na fumaça, o que deve explicar a atração de certas pessoas por ele. Por ser inevitável, eu continuarei tentando encontrar esses padrões na fumaça (mesmo sabendo que, em nível atômico, eles são óbvios e belos), mas reservo-me o direito de abdicar deles em absoluto. Não tenho necessidade ou desejo de comunicar nada além daquilo que desejo comunicar.
Ou, resumidamente, “sim é sim, não é não, talvez é talvez”. Aquilo que eu digo significa exatamente aquilo que quer dizer. Nem mais nem menos.
Reivindico os direitos roubados pelas bazófias de bufões: direito à solidão, à melancolia, à ignorância saudável, aos “defeitos”. Nada tenho contra a provocação bem-intencionada, contra a sátira, mas ergo minha voz contra a acidez desnecessária, o ataque e toda a agressividade contra os defeitos não-danosos. Estar sozinho é um direito e, segundo minha crença, condição irrevogável para uma mente saudável, permite à pessoa ordenar os pensamentos, meditar e atingir conclusões próprias. A melancolia, semelhantemente, permite uma alteração no ponto de vista, por vezes benéfica. A ignorância saudável, aquela que admite que não sabe e busca o conhecimento. Em suma, reivindico todos os defeitos não danosos ao ser e aos outros.
Esses são meus termos e, aceitos ou não, constituem minha renúncia às regras, formais ou não, instituídas pela sociedade e minha desistência de tentar a adaptação, e o compromisso com um conjunto específico de regras: o meu.
Assinado,
O Ornitorrinco.
