Crítico
“Tu é muito crítico.”
Isso é algo que uma amiga disse, esses tempos, quando a gente estava num grupo discutindo sobre algo (provavelmente TV, mas não me lembro), no Cavanhas, alta madrugada, depois de um fantástico episódio onde eu escapei por pouco de ficar com o cabelo vomitado.
Mas essa é outra história.
Eu lembro que eu estava falando empolgado sobre alguma coisa, e ela me vira e disse. O choque só me atingiu bem depois… “peraí, como assim, EU sou muito crítico? Será que sou mesmo?”.
Claro, eu sou, e sei que sou, mas a pergunta surgiu por outro motivo: cara, e quanto aos outros, que não são críticos? Quero dizer, eu estou cansado de ver gente que ouve música que não gosta, assiste programas que não vê, faz as coisas sem saber o motivo, e nem ao menos pensam nisso. Obviamente ela não pensou nisso, ou não é comigo que ela ficaria surpresa.
Porque, na boa, eu me choquei por muito tempo com gente assim. Hoje em dia, só acontece com casos extremos. Dos outros, já é meio que esperado (e já cometi algumas injustiças por causa disso :-( ).
Eu não sei ser assim. Ou não sei mais ser assim. Eu sou absolutamente incapaz de olhar pra uma letra e não pensar “cara, que merda” ou “cara, que coisa mais incrivelmente totalmente fantástica!”. Eu não funciono assim, e me surpreenderia se você funcionasse. Todos emitimos julgamentos, é normal. São diferentes, é verdade. Você vê um toxicômano (”drogado”, para os que não se preocupam com bobagens politicamente corretas) e vê o quê?
Não interessa. Pelo menos, não agora. O que interessa é que você pensa algo. E são altas as chances de que você, pense o que pensar, tenha vergonha de se expressar. E, se for o caso, não se sinta mal (mas não fique igual), é o que se ensina hoje em dia.
Porque hoje em dia pessoas mentem que não julgam (boa sorte tem tentar me convencer que você REALMENTE não julga). Julgar é feio, errado, chato e causa cáries. Claro, é uma prova de que você pensa, e pensa criticamente, sobre algo, e todos sabemos como pensar é feio. Você não demonstra que pensa sobre algo porque sua opinião pode potencialmente ofender alguém. E isso seria um grande pecado, não? Pior que ofender, a outra pessoa pode discordar de você, o que seria terrível. Nesse caso, você teria duas opções:
ser o cabeça-dura provocando uma discussão “tentando ter razão” (como se ter razão fosse algo decidido em uma discussão (é algo que se descobre, não que se decide. São duas coisas MUITO diferentes)),
ou aceitar, dizer que a outra pessoa tem razão, baixar a cabeça e evitar maiores confrontos. Cada um tem direito à sua opinião, certo? Certo. E discutir essa opinião seria negá-lo, certo? Errado.
Não é crime questionar alguém.
Questionar outra pessoa não é errado.
É mentira afirmar que é ruim iniciar uma discussão que possa levar alguma das pessoas a descobrir que está errado.
Existe uma multidão de pessoas lá fora que se forçam a não questionar. A não criticar. Mas, gente, criticar é preciso. Criticar e-mails que você recebe, notícias que você lê, músicas que você ouve, coisas que as pessoas dizem, as pessoas que dizem essas coisas. É inevitável, isso se chama pensar, e eu gosto muito. As vezes dói, as vezes incomoda, as vezes cansa, mas é bom. Te dá uma apreciação maior sobre o mundo. Te dá um mundo maior pra apreciar.
Sem contar que você não passa vergonhas como se dizer feminista e gostar de funk, ou ser o cara que discorda de absolutamente tudo o que ouve, ou ser o cara que concorda com absolutamente tudo o que houve, ou ser o babaca escroto sem auto-crítica que fica criticando quase tudo e não se importa com o sentimento das pobres pessoas que discordam de você.
Uma dessas frases foi irônica. Espero não ter que especificar qual.
Então parem de dizer que eu sou crítico demais. Perguntem-se por que vocês não são tanto. Adoraria saber as respostas pra isso.
P.S.: Só pra deixar o óbvio explícito: Estou falando de crítica construtiva. Saiba seus motivos.

Eu tbm sou critica o/ Não sei ler blog sem comentar. :)
Comment por Prig — November 23, 2008 @ 9:50 am