“Eu não acredito em finais felizes”, disse o pombo.
Não que ele tivesse muitos motivos pra dizer isso. Ele já teve finais felizes antes, embora tivesse continuado.
Pensando bem, vamos do começo.
Existia esse pombo, realmente estúpido. Veja, ele vivia entre humanos, em um criadouro, uma vida gorda e feliz. Claro, ele não podia sair por onde quisesse, mas poderia ficar ali quanto tempo quisesse. Tinha algum espaço dentro de sua casinha, onde podia ter o básico, e todo dia, várias vezes, vinha uma pessoa alimentá-lo. Os outros pombos pareciam satisfeitos com aquilo, e gabavam-se de como eram sortudos. Muitos invejavam suas vidas, todos a queriam, mas só eles tinham. Ao menos, que soubessem.
Menos nosso amigo pombo. Ele gostava, adorava aquela vida, é verdade, tinha muitas vantagens. Delícias, uma cama confortável, a companhia constante. Na verdade, o único ruim era a constante lembrança dada pelo teto e pelas janelas e pela porta fechada que se abria na hora de comer que ele estava preso ali. Havia algo lá fora, algo de que ele teria que desistir para viver do lado de fora.
E foi o que ele fez. Ele sofreu por fazer isso, sentiu-se traindo uma parte de si mesmo (especificamente, seu estômago), mas não podia evitá-lo. Claro, ele sentia falta, em especial quando vinha a fome, mas aprendeu a lidar, e com o tempo entendeu que era um preço. Estava vivendo livre, e isso não saía de graça.
Tempos depois, estava vivendo algo diferente. Tinha outra casinha, agora em um parque. Raros eram os dias em que não comia, pois dessa vez não apenas um, mas vários humanos apareciam para dar a ele e aos outros comida. E não haviam paredes, janelas, tetos ou portas. Ele voava para onde queria, por quanto tempo queria, e era certo de ter comida e uma casa confortável quando chegasse.
E mesmo isso, logo, não era o bastante. E dessa vez não era uma necessidade que ele conseguia identificar, apenas uma que existia. E novamente ele voou para longe.
Mas dessa vez, ele não achou o que procurava. Na verdade, achou pouco e insuficiente. Uma bicada ali, e outra aqui, e nunca o suficiente para que ele se sentisse satisfeito na parte que protestava desde o começo.
Certo dia, fatigado, parou para descansar. E topou com uma coruja, sendo “topou” o verbo certo. Ele havia derrubado a coitada da árvore onde dormia. Sendo a coruja um ser paciente, ouviu a história do pombo. Quando ele terminou, e após pensar um pouco, a coruja disse o seguinte:
“Seu tolo! Cresça e seja alguém melhor. Você tem olhos, tem pernas e têm asas. Nada lhe falta, exceto saber usá-los. Seus olhos são fracos, enxergam apenas o ruim e ignoram todo o resto. Suas pernas mal lhe dão sustenação, e deixam-no dependente de suas asas. E o dependente é, por essência, limitado. Aprenda a andar com suas próprias pernas, enxergar todos os lados, e exercite suas asas, mas saiba descansar.”
…
“Entendi, mamãe. Então a moral da história é que devemos saber quando estamos confortáveis, e aí parar de voar, certo?”, disse uma pequena massa rósea, do fundo da toca.
“Não, seu burro. A moral da história é que não importa o quanto ele procure, ele nunca vai ficar satisfeito. Nada é bom o bastante para quem não pára de procurar”, disse outro filhote de ornitorrinco.
“Errado vocês dois. A fábula é sobre o eterno conflito da vontade de mudar contra a vontade de permanecermos os mesmos. Todos os seres sentem conforto em situações em que têm seus desejos, ou uma quantidade razoável deles, atendidos. Porém, quando há consciência, também há imaginação, e surge a dúvida ‘há algo melhor?’. Essa dúvida é a transiostase, a vontade de mudar a situação atual, que conflita com a homeostase, o hábito e a rotina e seus confortos. É uma história que define muito bem os inconvenientes da consciência” disse um terceiro, intelectual.
“Mamãe, qual é a moral da história?” perguntou uma filhote, a última a sair de seu ovo.
“A moral é aquela que vocês entenderem. A vida não traz lições prontas, apenas as histórias. Agora deixem de conversar e vão dormir.”