Eu não tenho câncer
Esse é um post sobre um post anterior. Sobre suas consequências e inspirações, pra falar a verdade. Acho que vai ser bom escrever não-contos =) tempão que não faço isso.
Bom, vamos em ordem de prioridade. Desculpem pelo efeito realista (embora eu fique feliz, se eu convenci, estou melhorando na qualidade) do conto. Sim, “Carta” era um conto, estava ali no rótulo. Eu queria um efeito de realismo, então me limitei a deixar pequenas pistas de que a história era ficção. Os detalhes do texto em si — por exemplo, o fato de que eu fui extremamente vago — eram propositais, eu queria realmente passar (e tentar entrar na) idéia de alguém que sabe que vai morrer. Depois eu explico isso melhor. Só queria pedir desculpas em especial pro César (já posso falar contigo de novo? :-) e pra Fabiane (desculpa o susto pesado, e os maus pensamentos ^^; prometo que dou um jeito de te compensar), que foram as únicas pessoas que se manifestaram sobre o assunto. Desculpas em anônimo a quem não falou nada.
Dito isso (e esperando que eu seja mesmo perdoado :-), motivações. Pra começo de papo, mantenham em mente que eu não tenho medo da morte. Claro, tento evitá-la como qualquer um, mas sempre tive uma curiosidade pra saber o que vem depois. De certa maneira, mal posso esperar. Acho que vai ser divertido. Sem contar que eu amo a Morte, o que é bem previsível. Quem não a amaria? Leiam “O alto preço da vida” e me digam se ela não é o máximo.
Outro ponto importante, e derivado do primeiro: eu não tenho medo de pensar na minha própria mortalidade. Eu vou morrer e sei bem disso. Mais que isso, eu aceito. De boa. Não quero morrer cedo, mas odiaria viver pra sempre. É uma coisa meio Alvie Singer (de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”). Morte é um assunto meio importante pra mim, eu penso bastante nisso. Passei muitas aulas de ensino religioso pensando sobre o assunto (ei, eu tinha que fazer alguma coisa pra passar o tempo naquele inferno). Não tenho conclusões, não faço idéia do que pode vir depois, e na real, não quero saber. Não gosto de spoilers.
E também, na real, eu não penso muito em jeitos de morrer. Odiaria morrer agonizando, mas, de qualquer maneira, o fim é o mesmo. Não importa como, você vai morrer. Esse é o grande equilíbrio cósmico: tudo que existe, nasceu. Tudo que existe vai morrer. Eu acho engraçado quando vejo pessoas desesperadas para serem saudáveis, para viver mais, viver melhor. Existem tantos acidentes possíveis — e eu já tive ALGUNS — que fariam com que tudo isso fosse inútil. Não que isso seja desculpa pra alguma coisa, mas cara, vale a pena perder tanto tempo com algo assim? Tem coisa melhor pra fazer.
Minha causa mortis provável vai ser auto-eutanásia (não suicídio, há uma diferença sutil e interessante entre os conceitos): em um momento em que eu decidir que já vivi o bastante. Tipo o Kiwi, sabe? Eu vou chegar num ponto em que vou cumprir certos objetivos e é isso. Boa noite e, se tiver algo depois, talvez nos vejamos por lá. Pode vir, minha gatona gótica, estarei te esperando :-)
Tenho certeza que deixei uma cacetada de gente horrorizada com esse último parágrafo. Deixa perfeita para o terceiro ponto: eu sou assim porque eu não deixo muitos arrependimentos pra trás. Tem pessoas pra quem eu gostaria de reparar certos pecados que eu cometi, pra outras tem uma bela sequência de socos aguardando. De resto, eu fiz o que podia ou achava que podia, dentro das minhas capacidades e limitações, e na boa, não lamento muitas das minhas decisões. Feri algumas pessoas que mereceram. Amei outras. Me diverti com pessoas legais, e raramente dou muita atenção pra quem eu não gosto. Conheço tanta gente que adoraria dizer o mesmo…
Em suma, e porque eu acho que não me expliquei bem antes, eu sou assim não porque eu não me importo, mas porque eu me permito. Permito-me errar ou acertar. Os erros a gente conserta (quando dá — os que não dão vão praquela lista de arrependimentos), os acertos comemora. Exigir mais de si mesmo — ou dos outros — é bobagem. Isso me dá um pouco de paz, o que é uma boa forma de compensação, porque os arrependimentos pesam pra cacete.
De volta ao tema: Eu estava lendo a história, o arco final de Estranhas no Paraíso (leiam, é uma série fantástica), onde o personagem descobre que tem um câncer no cérebro. Óbvio, a primeira reação dele foi não falar pra ninguém sobre o assunto. Acho que quando a gente não fala sobre algo, seja o que for parece menos real. Então, ele estava falando com essa personagem que era apaixonada por ele, e ela estava falando em casamento, e na real, não me lembro todos os detalhes. Eu lembro que ela estava falando no futuro e ele estava bem quieto porque, cara, não devia ter coisa mais deprimente que falar sobre o futuro naquela situação. A mulher era meio sem noção e continuou forçando o assunto, o que foi irritando o cara até que ele explodiu num berro. Na página seguinte, ela finalmente nota que tinha algo de errado e os dois estão abraçados no chão, e o cara só fala baixinho: “Eu não quero morrer.”
Essas páginas bateram pesado em mim. E a edição nem acaba ali, mas eu precisei dar uma parada. Foi quando surgiu a idéia.
E o resto é história. Eu sou só um sujeito com uma imaginação adoidada e que se recusa a aceitar certos limites.
E lembrem-se: tudo que for rotulado “contos” é ficção.

falar de futuro sabendo que não vai estar lá é realmente um problema.
Comment por Ererer — October 22, 2008 @ 4:01 pm