October 13, 2008

 Carta 

Oi

Eu realmente não gostaria de estar escrevendo essas palavras. Não agora, nem nunca, mas é preciso. Tem algo que eu preciso te contar, e não vai ser fácil, e eu sei que nunca conseguiria dizer isso pessoalmente. Acho que não passaria da idéia de dizer antes de desabar em choros e… bom, eu estou enrolando, então lá vai. Eu tenho câncer.

Eu tenho câncer. Você não sabe quantas vezes eu tive que dizer isso para poder acreditar que era eu dizendo, e que era comigo, e que era verdade. Acho que já aceitei, pelo menos a idéia de que meu corpo fudeu legal com tudo. O tipo? Isso realmente importa? É o tipo do qual a gente não se recupera. Aliás, a essas horas, acho que você até já sabe qual é o tipo, e eu nem contei. Acho que sempre fui assim, sempre tive medo de contar qualquer coisa. De começar qualquer coisa. Medo por não saber como ia acabar. É estranho eu ter medo de algo que eu sei como vai acabar.
Ou seria estranho, se fosse outra pessoa. Acho que, pra mim, o estranho é normal.

Acho que agora você já sabe por que eu andava com aquelas dores de cabeça. Aquelas sumidas eram as piores, que eu não queria que ninguém visse. Meu maldito orgulho, que me afasta de quem eu preciso quando eu mais preciso. Droga, estou sendo dramático. Odeio quando isso acontece.

Acho que o que eu quero dizer… não, eu sei que o que eu quero dizer é que, se eu tive coragem de contar isso pra qualquer um e não pra você, é porque pros outros era fácil. Não eram pessoas que iam fazer tanta falta, nem sentir tanto minha falta. Não eram você. É fácil ser direto quando os danos serão menores, mas como se dá uma má notícia pra pessoa que vai recebê-la com maior impacto? Eu sou frio pra algumas coisas, em situações necessárias, mas é difícil ser frio com quem importa. E eu até consigo, afinal, você está lendo isso, certo?

É engraçado olhar pro espelho e saber que você vai morrer. Os dias parecem diferentes, e, se você — e todo mundo — pensava que eu me importava demais com certas coisas, preocupem-se: eu agora me preocupo bem mais com elas, mas isso está em outra carta. Essa aqui é entre eu e você.

Por mim, posso dizer que vivi bem. Mesmo meus dias mais inúteis, em que fiquei sentado em frente ao computador jogando, foram fantásticos. Eu sempre te disse que não me arrependo de muita coisa, e agora eu posso ver direitinho que não me arrependo de nada, mesmo. Fiz o que podia, o que devia, o que queria. Neguei responsabilidades em nome disso, assumi outras. Cometi erros, acertei e também teve algumas cagadas colossais. Enfim, diria Frank, eu fiz da minha maneira, e não me arrependo de nada, também.

Quanto a você, bom, é seguro dizer que nunca conheci ninguém como você, e que eu espero que você me esqueça. Não que deva abandonar minha memória completamente, mas você ainda está aí, e eu sei que você não sabe aproveitar o que faz. Você perde tempo demais com besteiras. Já passou, não tem volta. Conserte o que der, abandone o que estiver quebrado. A vida é muito curta, acredite, eu sei bem disso. Ninguém precisa de tanto peso. Se minha passagem por você tiver que deixar algum impacto, que seja esse. Que seja saudade, mas que não seja morte. Peso que não esmague. Eu sei que erramos bastante mas, bem, “welcome to the jungle, kid. Ain’t no heroes here”.
E não se culpe. Não foi você. Eu digo isso, sabendo que nunca vou te convencer disso.

E eu quero pedir desculpas por só ter coragem de contar isso agora, que estou debaixo da terra (ou melhor, espalhado na grama, se vocês honraram meu pedido). Fui egoísta nisso, mas eu não saberia fazer de outro jeito, e queria que a despedida fosse só uma, não todo o resto do meu tempo. Acredite, eu aproveitei bem meus últimos dias.

Bom, hora de encarar a cortina final, eu acho. Curvar-me ao público e sair, deixando todos querendo bis. A vida é uma comédia, nesse ponto. Se quer sair com impacto, ou você sai deixando uma última piada solta no ar, e o público esperando pela seguinte, ou enche o bucho de C4 antes de morrer.

Heh. Desculpe, mas minha última piada tinha que ser essa.
Com todo meu coração (ou o que restou dele)
Eu

P.S.: Tem um presente pra você no meu armário, em uma caixa cinza. É uma daquelas raquetes com bolinha presa por corda, que faz boing-boing. Divirta-se.

Eu sei, sou um idiota, mas fui o melhor idiota que você já conheceu.

Aviso: eu não estou com câncer. Não tem nada de errado comigo, na verdade, as coisas estão se acertando de novo. É que eu estou lendo essa história e, bem, tem esse personagem que eu realmente gosto e o cara vai morrer antes do fim, e eu parei pra pensar, entre uma página e outra, como seria a última carta dele. Ela está aí. Genérica, pra vocês se ligarem — e eu sei que vai ser inútil — que poderia ser de qualquer um para qualquer um.

Se bem que tem um monte de mim ali, mas fui eu que escrevi, queriam o quê? Desculpem qualquer susto, mas eu precisava do clima. Tentem não me odiar por isso :-)

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1 Comentário »

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  1. muito bom, assustou bastante mas a sinceridade nas palavras compensou.

    Comment por Ererer — October 13, 2008 @ 2:26 pm

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