Diabo
Quer ouvir uma história legal?
Todo mundo fala sobre o diabo como se ele fosse antagonista de deus, uma força opositora, e mal sabem que é tudo bobagem de padres.
Você vê, tudo começou com um cara que conheceu um diabo. Depois eu explico isso melhor, mas digamos que esse cara (vamos chamá-lo de “Pedro”) saiu um tanto mudado desse encontro. O que eu vou falar agora é negado em todo lugar. O padre da sua paróquia vai dizer negar cada palavra, mas não significa que não seja verdade.
Só que é essa verdade não oficial.
Bom, o Pedro passou a aprender bastante, e bem rápido, depois do encontro. E a sacar como as pessoas funcionavam. Ele adquiriu habilidades que foram de grande proveito a ele e ao culto que ele participava (uma igreja menor de Roma, monoteísta). Sabe, eles tiveram aquela que deve ter sido a mais brilhante idéia pra se atrair otáriosfiéis: tiraram dos ombros delas todas as culpas que elas tinham. E como eles fizeram isso? Colocando a culpa em alguém. De preferência, numa fonte não-existente, não-confirmável, não-atingível, e assim, eterna.
Creio que, a essas alturas, você já entendeu que eu estou falando do diabo, não?
Claro, precisaram de algumas alterações para criar um mito decente: primeiro, uma imagem ameaçadora, que Pedro e seus capangascolegas criaram baseados numa entidade mítica do politeísmo vigente. Depois, colocaram ele num lugar inatingível: o Inferno, onde você só pode chegar (tcharam) depois de morrer. E por último, deram-lhe o poder mais útil de todos: o de influenciar as pessoas ao mal. MWAHAHAHHA. Com isso, eles deram às pessoas o que elas mais queriam: absolvição. De repente, ninguém mais era culpado de nada. Digo, ninguém além daquele cara que a gente só sabe que existe porque ele nos influencia a fazer coisas ruins.
E, como bônus, adicionaram tormentos eternos aos que caíssem em “tentação”. Sabe, para as pessoas “puras” sentirem aquela satisfação maliciosa de que aqueles que elas consideram “impuras” serão punidas e com severidade. Gênio puro.
Mas então, quem é esse tal de “diabo”? Bom, a resposta seria “ninguém”. Ou então “todo mundo”. Sabe, ambas são válidas.
Na verdade, “diabo” é mais um título. A palavra em si deriva do grego diabolos, que significa “difamador”. É um termo bastante irônico, na verdade, motivo pelo qual muitos “diabos” o adotaram como título.
A ironia está no fato da palavra ter sido usada de forma difamatória contra antigos sábios que pregavam idéias pouco populares. Enquanto a nossa sociedade moderna cria ficções minorizando e ridicularizando idéias pouco ortodoxas, antigamente não era tão fácil fazer isso. O melhor a fazer era demonizar os pregadores.
Desde o começo, certas idéias perturbam as pessoas. Tenho certeza que você pode pensar em exemplos sem minha ajuda, então vou evitá-los. Basta dizer que os “diabos” são pessoas que não tinham problema em falar coisas que perturbavam as pessoas. Aquelas verdades que ninguém quer ouvir, que as pessoas mal conseguem admitir pra si mesmas sem precisar ler no mínimo três livros de auto-ajuda depois (pra não mencionar alguns anos de terapia).
Ninguém gosta desse tipo de gente. Ou quase ninguém.
Pra maioria das pessoas, idéias diferentes das da maioria não são atraentes. Na verdade, são replentes. Outros, porém, e poucos também, sentem uma certa coceira na mente, uma necessidade inexplicável e inevitável de buscar o diferente. De saber mais. Essas pessoas buscam o conhecimento, e buscam se livrar do senso comum, a noção possivelmente errada que todo mundo tem sobre as coisas.
E são essas pessoas que aprendem a observar. A entender os comos e os por quês. Mas esse conhecimento tem um preço, nada é de graça. Essas mesmas pessoas nunca mais podem se integrar à humanidade, pois há certas coisas que você vê e não pode tira nunca mais da memória.
Dependendo de pra quem você perguntar, isso pode ser equivalente a vender a alma.
Sempre existem os que simpatizam com idéias diferentes. Os dissidentes. Os subversivos. Assim como foi muito impopular ser cristão. Assim como sempre foi muito popular jogar nossas culpas em outro, mesmo que seja em um mito. Assim como sempre será tentar, de qualquer maneira, calar a dissidência.
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Texto baseado na distorção de fatos reais, para melhor expor a idéia. Não deve haver fatos reais aí (mas, claro, só temos a palavra deles para confirmar).
“Melhor” significando “mais senso de drama”.
