ABA e a Campanha Apelativa
“Eles querem te vender
Eles querem te comprar
Querem te matar a sede
Querem te sedar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?” (Engenheiros do Hawaii - Terceira do Plural)
… ou “Todas as pessoas te consideram inteligente até que você discorde delas.”
Hoje eu estava vendo Teatro Mágico no Altas Horas, quando um dos comerciais foi com um casal, cada um de um lado do sofá, defendendo a liberdade das agências de propaganda. Eu adorei o comercial, é uma peça publicitária totalmente escrota.
Vocês podem ver aqui. Não vou embedar o vídeo no blog porque isso deixa a página lenta, e eu não gosto de páginas lentas. Mantenham a internet rápida.
O motivo dessa campanha, até onde eu descobri — porque eles NÃO falam o motivo no comercial –, é que o governo está falando sobre regulamentar propaganda infantil, proibindo comerciais do tipo “ah, diga pra mamãe comprar produto X”, ou comerciais que impliquem que possuindo tal produto, a criança vai se tornar melhor/mais legal/derivados. Posso estar errado, mas a ABA não se preocupou em nos informar por que estão sendo repreendidos.
O que, aliás, é bem esperado. Se eles falassem esse motivo, era melhor nem falar nada.
E o bom é que eles já saem largando a carta da censura. Não só não dizem do que estão reclamando, ou contra quem (coisas úteis pra se obter um posicionamento, se você for racional)(pensando bem, é uma estratégia campeã pra se usar na Terra), mas já saem largando uma carta apelativa como essa. Vinte pontos negativos pela burrice. Dramalhão é coisa pra novela.
Ora, vamos e venhamos, as propagandas hoje em dia são de alguns tipos:
- as que implicam que você vai ser uma pessoa melhor/mais legal/pegar mais mulher/ser mais bem-sucedido/qualquer outra ilusão similar pra
enganarvender o produto para osotáriosingênuos; - as que ressaltam as características que tornam o produto superior aos concorrentes, sem inventar pesquisas, fatos, depoimentos ou afins. Também são chamadas de “lendas”;
- as engraçadinhas, com alguma história ou afins, com uma história bem bolada (não me vem falar de “Bar da Boa”, aquela propaganda é retardada);
- as que te dizem para, por qualquer outro motivo, comprar o produto;
- tou esquecendo agora, escrever de madrugada dá nisso, mas as importantes tão aí
Cara, na boa, se um publicitário vier me falar que propaganda é sobre vender produtos, eu levanto uma sobrancelha e desconfio. Propaganda hoje em dia é a venda de ilusão. É a ilusão de que bebendo refrigerante X aquela gostosona vai chegar te agarrando, que o banco Y não vê você como um número, mas como uma pessoa, que bebendo cerveja Z todos vão ser seus amigos, toda mulher vai ser gostosa (peraí, acho que essa é verdade, mas só depois de muitas cervejas). Pergunto: e o queco? Eu não quero que meu banco me respeite como pessoa, eu fico feliz com taxas baixas e pouca ou nenhuma incomodação. Não estou interessado em cerveja, mesmo que toda mulher gostosa comece a olhar pra mim (depois da terceira garrafa)(cá entre nós, a minha namorada já é linda e gostosa, não preciso disso), e cara, meu refri tá com defeito, eu já bebi em lugares públicos dezenas de vezes e nenhuma vez uma modelo me agarrou. Nenhuma. Zero. Never. Quero meu dinheiro de volta!
Não só isso: tem todo um papo cômico sobre propagandas (ou melhor, sobre como elas seriam, em um mundo perfeito):
a) informar consumidores: NOT. Veja parágrafos anteriores.
b) estimular competição: NOT. Isso é feito pelo Deus Mercado. Propaganda, até onde eu vejo, só estimula competição entre propagandas. Conheço pouca gente que compra baseado em propaganda, e não me peçam pra respeitar inteligência de quem o faz. É o bastante eu acreditar que essa inteligência existe, se eu acreditar.
c) melhorar produtos e serviços: NOT. Isso se chama pesquisa e desenvolvimento. Pela minha experiência (relatos profissionais, na maioria), os departamentos de marketing até atrapalham, criando expectativas idiotas nos clientes.
d) motivar redução de preços: NOT. Exemplos de quando isso aconteceu são bem-vindos, e que podem ser documentadamente provados que a propaganda foi um fator decisivo, e que são casos peer-reviwed (quando pessoas da mesma área — no caso, pesquisa estatística — revisaram o estudo), são bem-vindos.
(pedindo demais? Pedir demais é me chamar de otário e esperar que eu acredite em mentiras repetidas mil vezes)
e) suportar liberdade de imprensa, diversidade e gratuidade dos meios de comunicação: quase-NOT. Suporta, realmente, a gratuidade dos meios de comunicação.
O que temos é uma classe, os publicitários, pedindo auto-regulação. Uma classe que atua baseada na venda de ilusões, ou seja, que não faz o trabalho (informar o consumidor sobre os produtos) (pra falar a verdade, eles informam bem sobre promoções, e só) que deveria fazer, que quer manter o direito de trabalhar como quiserem, mesmo que isso signifique vender propaganda que influencia negativamente crianças (seres extremamente influenciáveis, como todos sabemos). Quem nunca viu um caso de criança que se sente inferior por não ter um determinado produto que levante o braço. Vão querer me convencer que é errado proibir isso? Sem chance, filho.
Eu sou a favor dessa regulamentação sim. Se o setor de marketing atendesse às expectativas que vem com “auto-regulamentação” — ou seja, que o papo sobre censurar propagandas negativas fosse redundante — eu seria contra, mas do jeito que está, não ganharam a minha simpatia. Nem toda censura é ruim.
Só mais um detalhe: eu tenho quase certeza que aquela atriz tava segurando uma risada. Olha bem pra cara dela e diz que não.

na verdade, acho que tu ainda não viu as piores propagandas da aba nesse sentido, como aquela em que um adulto pega uma bola numa e um lápis em outra e fala sobre milhares de perigos absurdos, e depois tem uma frase dizendo que estão tentando controlá - los, quase como se estivessem fazendo mal a alguma criança com as propagandas. No caso, simplesmente repugnante.
Comment por anelise — April 20, 2008 @ 8:20 pm
Quem é feito para informar é jornal. Propaganda é para seduzir.
Comment por Pedro — April 22, 2008 @ 12:21 am
Sabe que eu já esqueci todo o raciocinio que eu tinha feito com vc naquele dia que vc postou? pelo msn?
Mas de qualquer forma, a minha opinião sobre o post foi vip: conversada e debatida com vc =o)
Não sobrou muito o que comentar aqui =P
Eu sou chique!
=o)
Eu ja disse que adoro os posts que vc escreve nesse tom, ne?
;o)
Comment por Carol Rodrigues — April 24, 2008 @ 2:32 pm
Caro Troll.
Seus comentários (até agora não muito eficientes) sobre meu post renderam um post particular. Peço para que focalize seus comentários futuros lá para melhorar a organização do blog.
Link.
Comment por Ornitorrinco — June 4, 2008 @ 10:03 pm