Medo
Um dos meus medos esquisitos, até estranho, na verdade, é o de caucasianos. Isso mesmo, cara, caucasianos.
Eu sei, eu sei, sempre falam que negroafro-descendentes que são perigosos, ladrões, seiláoquê, que na terra “deles” (a África)(como se não tivessem nascido no Brasil como a gente) eles escravizavam uns aos outros, matavam, mutilavam, coisas que a nossa cultura não aceita. Mas saca só, caucasianos são piores. Ao menos, os africanos faziam isso entre si.
Caucasianos fazem isso com todo mundo, inclusive com eles mesmos. Quem foram os principais responsáveis pela devastação de várias culturas diferentes? Caucasianos. Quem foi responsável pela escravização e chacina de povos da Arábia, África, Américas, Japão (lembra Hiroshima? Lembra Nagasaki? Chacina é pouco), Índia, Austrália, e praticamente todo lugar pra onde conseguiu viajar? Caucasianos. Qual a cor da pele da maioria dos executivos e líderes mundiais que, diariamente, tomam decisões que significam dor e morte pra milhares de pessoas em seus países e em outros países (tipo cortar verbas pra fundos de bem-estar social, mudar fábricas para um local com leis fiscais mais baratas, desviar dinheiro público, começar guerras)? BRANCA. Eu realmente não sei como eu consigo viver no meio desse povo sem sair correndo de medo.
E antes que me julguem, eu não sou racista por escrever isso: também sou caucasiano, branquelão. E morro de medo de gente parecida comigo.
(Hipócrita? Deve ser por causa da cor da minha pele)
O primeiro medo é de papel. Não qualquer folha de papel, mas sim de folhas com desenhos seguindo certos padrões. Um papel com um solzinho desenhado não me assusta, e um extrato bancário também não (bom, de vez em quando não me assusta, pelo menos), mas um mandato de prisão com certeza faria com que eu me borrasse todo. Certas notícias de jornais também me assustam bastante, e certas coisas que eu leio pessoas escrevendo, mais ainda.
Tá certo, nem sempre tá no papel, as piores coisas você lê na internet mesmo. Eu acho que nunca vou esquecer uma vez em que, numa comunidade, tava discutindo (racionalmente, não flame) com um facista, e ele ficou sem outro argumento além do clássico nazi-facista-ditatorial: CALA A BOCA. Aí eu perguntei se ele achava que censurar oposição era algum tipo de solução, se ele gostaria de ver algo assim institucionalizado, censurar quem discordasse dele. A resposta do cara: “Claro que sim”. Quê? Eu li e reli aquilo, e fiquei totalmente sem palavras. Saí da comunidade, de tão grande o desgosto.
Esse tipo de desenho em papel me assusta. E, por um rolo de papéis azuis, você pode acabar morto. Me surpreendo que mais gente não tenha esse medo.
Falando em papel, a mídia deve ser um dos maiores medos que eu tenho. Aliás, eu acredito, firmemente, que as pessoas só não têm medo de mídia porque não têm noção do que estamos falando. Do jeito que eu vejo, ela é muito assustadora.
Peguemos um exemplo recente, o Circo Isabella (onde vários palhaços ficam jogando acusações “fatos” tortas, dois domadores estão com as cabeças na boca do leão e a trapezista morreu). O exemplo que melhor resume minha visão sobre esse caso (que eu mal ligo a TV e já sei o que acontece) está resumida na capa da Veja: Um fundo preto, com apenas os olhos do casal em destaque, e os dizeres, em letras brancas bem grandes: FORAM ELES. Detalhe quase imperceptível, a legenda: “A polícia não tem mais dúvidas”.
Eu estava na fila do supermercado, e travei por um instante ao ler isso. A polícia não tem mais dúvidas… mas e qual é o pensamento do Juiz? De repente, não temos mais julgamentos, deixamos para a imprensa decidir quem é culpado e quem não é?
Porque tem outro detalhe, todas as abordagens “jornalísticas” sobre o assunto que eu vejo passa o mesmo ponto de vista:
“Olhe bem para eles. Olhem para essa FALSA cara de coitadinhos, as MENTIROSAS alegações de inocência. Você ainda tem alguma DÚVIDA de que esses MONSTROS mataram aquela POBRE CRIANCINHA? *exibe foto da guria* Olhem para esse rostinho angelical, você não tem PENA? Não acha que eles tem que PAGAR? Olhe, temos especialistas dizendo que eles têm MOTIVOS. A POLÍCIA não tem mais dúvidas. Claro, não temos ainda um julgamento, mas já temos preparado nosso discurso indignado caso eles sejam considerados inocentes. Na verdade, estamos torcendo para isso, pois assim vamos vender mais e mais jornais massacrando o casal até que eles não tenham mais nada a perder, e que até seus pais os odeiem. Aí então vamos cobrir a nova derrota do [time de futebol]. E beba Coca-Cola!”
E ainda tem gente que fala em opinião pública. Esse é um dos meus mitos favoritos. Está mais para opinião privada, decidida com base no que vai conseguir mais audiência e vender mais anúncios. Me dá pesadelos pensar na irresponsabilidade e o sensacionalismo dos jornais.
FORAM ELES!
A polícia não tem mais dúvidas.
Pensem bem nisso.
…
Isso me lembra de outro medo, relacionado também, que são os “cidadãos preocupados”. Vocês sabem de quem eu estou falando. Sabe, pessoas que acham que todo criminoso merece morrer, pessoas que acreditam que drogadosdependentes químicos são escória, que música “errada” transforma crianças em delinquentes, entre outras bobagens.
Eu me canso, mas não paro, de me surpreender com a capacidade que essas pessoas têm de se cercar de ilusões. Todo criminoso merece morrer? Quer dizer que não tem diferença, furto é igual à latrocínio que é igual à desviar dinheiro público (os crimes estão em ordem crescente de periculosidade)? Porte de drogas é tão ruim quanto tráfico de drogas? Tá certo que usuários são quem sustentam os traficantes, logo são parte da cadeia e criminosos também, mas o cara que vende essas merdas é que é o verdadeiro vilão. O usuário é um idiota.
Mas o meu cidadão consciente favorito ainda é o “pai/mãe consciente”, porque esses caras vão além de todos os limites possíveis. São as pessoas que acreditam que, se proibirem os filhos de assistir certos programas ou filmes, ouvir certas músicas, andar em certas companhias, vão ter filhos que se tornarão “bons cidadãos”. Ouvir essas pessoas falando sempre me faz pensar se há realmente algum mérito em realmente educar os filhos, por exemplo, explicando o que eles estão vendo na televisão, o que significa aquilo que os cerca, ou seja, ensinar os filhos a pensar ao invés de treiná-los para ser mais alguns retardados aceitando tudo aquilo que ouvem ou lêem.
Falta de senso crítico vai tornar seu filho um criminoso, sra. Silva, não os Dead Kennedys. Sinto muito, mas a culpa é da senhora e do seu marido. Aceite.
Falta de senso crítico, por sinal, me leva ao último elemento da lista, o patriotismo. Esse me assusta mesmo, porque é a falta de senso crítico em seu estado mais grave (bom, segundo estado mais grave. O primeiro é acreditar em bobagens como “imprensa livre”).
Se bem que “patriotismo” é a palavra errada. O certo é “patriotismo ufanismo”, aquele sentimento extremo, bastante comum na época de competições mundiais como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, uma coisa meio “Brasil Über Alles”, “viva o Brasil”, “nós somos a maior nação do mundo”, “verde para nossas matas, amarelo do outro e azul do nosso céu límpido e estrelado”. Essa última eu acho fenomenal, porque são as pessoas que rodaram em história na escola e não sabem que verde e amarelo são as cores da família Bragança.
E vocês já pararam pra observar os carros-forte? Atrás sempre tem uma bandeirinha brasileira que diz “Ame-o”. “Ame-o”, cara, hoje em dia você nem tem mais a opção de deixar o país! Esse tipo de coisa me assusta. Eu não faço posição de sentido pro hino nacional, eu não canto o hino nacional desde a oitava série (na escola, na semana fascistada pátria na escola eu de vez em quando ficava só mexendo os lábios pra não perder tempo com professores), caraca, eu nem mesmo escrevo hino nacional com letra maiúscula. E tem gente que acha esse tipo de comportamento é falta de patriotismo.
Bom, na minha versão, os não-patriotas são as pessoas agitando bandeiras, carregando faixas, berrando em plenos pulmões o quanto amam o Brasil, e ficam negando para si mesma que esse país têm problemas sérios. Nós não somos a melhor nação do mundo, não chegamos nem perto. E, se eu estiver errado e o Brasil é o melhor país de todos, cara, que mundo de merda esse nosso. Se o Brasil é o país do futuro, estamos fudidos. Temos um povo de merda, que não pensa, não julga, e é passivo dum governo que só fode seus patrões. Temos problemas de racismo enrustido, uma péssima distribuição de renda, um governo que não sabe governar, um povo que não sabe votar e, cara, o que tem de gente que se esforça pra permanecer ignorante nesse país não é brincadeira. E não são só esses problemas, tem mais.
Não sei quanto à vocês, mas se eu vejo alguém que eu amo com um problema sério mesmo, eu tento convencer essa pessoa a se tratar, ofereço ajuda… quem ama cuida, saca? Você ama seu país?
Enfim, citando o sr. Jello Biafra,
Obrigado pelo papel higiênico
Mas essa bandeira não significa nada pra mim
Olhe ao seu redor, somos todos pessoas,
Quem precisa de países? (Dead Kennedys - Stars and Stripes of Corruption)
Esses são meus medos bestas.
Quais são os seus?
NOTA: Só pra deixar bem registrado, eu não tenho uma opinião formada sobre o caso Isabella. Não sei se os pais são culpados ou inocentes, e não quero saber, a decisão não é minha e eu fico muito feliz por isso. E a decisão também não é de vocês, e isso me deixa mais feliz ainda. A decisão cabe aos tribunais, e não ao jornal da noite.
