“Essa tocha que eu achei
Ela tem que ser afogada,
Ou logo vai explodir.
Então sirva uma para minha garota
E mais uma para a estrada.”
(One For My Baby - Johnny Mercer/Harold Arlen)
Era tarde, provavelmente depois das três da madrugada. O bar estava vazio, exceto pelo barman e pelo cliente em uma banqueta com um copo vazio.
- Mais uma, Frank.
O barman, Frank, era um americano alto, olhos azuis, um sorriso discreto mas marcante e uma cara de sono que diria a qualquer pessoa mais sóbria que já era hora de fechar. Claro, o sujeito no banco estava muito além de reconhecer isso. Não parecia, mas alguém que estava bebendo a noite inteira não poderia estar sóbrio. Não mesmo.
- Cara, já tá na hora de fechar. Esse é o último, ok?
- Claro, claro - respondeu o homem, obviamente não ouvindo - mas aí, Joe…
- Frank.
- Frank, isso, claro. Senta aí, Frank, eu tenho uma história que vale a pena você ouvir.
Ele era persuasivo, e Frank resignou-se. Serviu de um copo de Jack, e sentou-se para ouvir a história.
- Nós estamos bebendo, meu velho - disse, ao até então desconhecido velho amigo - em homenagem ao fim de um episódio breve.
- Uma mulher?
- E não é sempre?
Ambos riram.
- E ela se foi. - perguntou Frank, afirmando.
- Como todas, meu velho - e a seguir, falou mais baixo - como todas. Sabe, eu poderia te falar muito, sobre reinos nas nuvens e sobre as princesas que os construíram, mas é contra as regras.
- Um brinde às regras! Elas nos separam dos animais.
Copos se tocam.
- E da realidade.
- Também.
Mais um brinde, mais risadas. Não era um clima agradável, certamente, mas era contagioso. Frank colocou uma música bela, mas triste, cantada pelA Voz, no jukebox.
- Somos só gatos se achando leões entre as damas, eu acho - disse Frank, meio sem saber o porquê, mas sabendo muito bem.
- Fale por si. Eu me sinto mais um york se passando por lobo entre as chacais.
- Uhh - disse Frank, em um tom meio de gozação - seria mais engraçado se não valesse para todos nós.
Silêncio.
E então, mais silêncio.
E mais do mesmo silêncio.
E, finalmente, gargalhadas. Ambos choravam de rir. Frank se segurando no banco pra não cair, e o estranho com a cabeça deitada no bar.
- Então, um brinde.
- A esses palhaços solitários.
- E aos amigos ausentes.
- Viva.
Um último brinde, e a última dose. A última última mesmo. Então o estranho se levanta.
- Espero que não tenha se importado por eu alugar seu ouvido.
- Em absoluto. Apareça mais vezes, não seja um estranho.
- Pode deixar.
Então o estranho foi embora, enquanto Frank fechava o bar e ia para casa.