Flores para Charlie
Eu acabei de terminar de ler o livro mais triste que eu já li. Lembro de ter lido Werther com essa impressão, de uma das maiores tragédias da história da literatura — e realmente, Werther é um livro bastante triste. Mas Flores para Algernon faz com que Werther pareça um episódio de Barney (o dinossauro roxo retardado).
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O livro trata basicamente de um sujeito chamado Charlie. Ele é um retardado (”especial” ou “deficiente mental”, caso você seja um dos tolos que acreditam que sintaxe é mais importante que semântica) que se sujeita a um experimento para torná-lo mais inteligente. Esse tratamento havia sido testado em animais o bastante para os cientistas concluírem que era seguro para humanos, e Charlie foi aceito como cobaia humana. O experimento dá certo, e Charlie se torna mais inteligente. De fato, muito mais inteligente que qualquer outra pessoa, o bastante para saber que o experimento não foi inteiramente bem sucedido, e que uma falha fatal faria com que ele, eventualmente, voltasse ao seu nível intelectual anterior.
Enquanto aprende mais e mais sobre o mundo à sua volta, Charlie percebe como ele estava enganado sobre as pessoas ao seu redor, que ele julgava serem suas amigas, e começa a lembrar de seu passado, com sua mãe que não o aceitava como ele era. Também aprende a lidar com as próprias emoções, e desenvolve como única amizade real o também cobaia rato Algernon, o único espécime animal a ter mantido a evolução tão rapidamente.
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Não é estragar o livro dizer que Charlie (um retardado, e o personagem principal) passa por um experimento de aumento de inteligência que dá extremamente certo, e o torna um gênio, mas que é falho por natureza e que ele volta ao seu nível intelectual anterior. Acreditem em mim, vocês ainda podem ler o livro sabendo disso porque essa trama se torna bastante secundária, ao final do livro. É o estereotipal conto do homem que teve de tudo e acabou com nada, contado com maestria pelo autor Daniel Keyes.
A narrativa é na forma de relatórios que Charlie escreve sobre o experimento, para que possam avaliar sua evolução, e permitem observar com perfeição como Charlie evolui rápido e em pouco tempo. De uma fala totalmente incorreta, com textos curtos que demonstram como ele gostaria de ser capaz de entender e participar do mundo, ele evolui em alguém que, por entender demais do mundo, não foi aceito por ele. E não é apenas isso: do momento em que ele percebe que há algo de errado com o experimento (através do comportamento do rato Algernon, que mostra a Charlie o que o espera) até o derradeiro final, com o adeus de Charlie escrito como no começo do livro, as palavras externam todo o desespero, a certeza do final, a vontade de lutar e finalmente a desistência.
Talvez porque eu me transfira bem demais para o papel do personagem, ou por eu ter lido o livro praticamente sem parar, o que causa uma impressão mais forte, mas eu me senti tocado pela história. Werther é um passeio no parque, e eu não sei como não chorei com as últimas palavras do autor(você pode pular se quiser):
De qualquer forma eu aposto que sou a premera pesoa burra no mundo que discobriu algu importanti para a siencia. Eu fiz augu mais não me lembru u que. Entao eu achu qui e como si eu tivessi feitu isso por todas as pessoas burras comu eu no [Instituto] Warren e por todo o mundo. Adeus srta Kinnian e dr Strauss e todu mundu…
P.S. pur favor contim pru prof Nemur nao ficar tao imburradu cuandu pesoas rir deli i eli teria mais amigus. E facil ter amigos si vosse deicha pesoas rirem de vosse. Eu vol ter muitus amigus praondi eu vol.
P.S. pur favor se voces tiverim a chanssi coloquem algumas floris no tumlo do Algernon nu quimtau.
(Se houver uma tradução em português do livro, e você tiver lido, vai notar que minhas palavras não são iguais às do autor. Isso porque eu só o encontrei em inglês (e a um bom preço, algo raro) e traduzi eu mesmo. Se não houver tradução, eu sei que gostaria de fazê-la. Vou atrás disso, mais tarde.)
É um livro tocante, e mais que muitos, porque é uma história mais fantástica que o Senhor dos Anéis, e faz Shakespeare parecer um amador. Lendo-o, eu percebo que não há nada mais aterrador do que ver a si mesmo definhar, tendo plena consciência do processo, e ser totalmente incapaz de fazer qualquer coisa para evitar. E acho que o mais trágico é a resignação quase alegre de um narrador que, no final, simplesmente não consegue entender o bastante da própria situação pra saber o que pensar dela. Talvez seja a forma mais piedosa de terminar a história, como um anestésico antes da injeção fatal, mas não rouba em nada a tristeza que fica um leitor capaz de compreender a tragédia de Charlie (e de Algernon).
Caso se interessem, o ISBN da minha edição é 0-15-603008-X. Recomendo a leitura.
