Foi quando eu estava entrando no apartamento.
“Foi uma bela gargalhada. Realmente achou que fosse engraçado?”
Antes de tudo, permitam que eu me apresente. Sou Nathan Xavier, consultor geral, ao menos até onde os registros do governo se importam. Na verdade sou um ocultista, e ganho o meu fazendo consultoria, geralmente para riquinhas metidas. Um pouco de adivinhação, luzes, fumaça e espelhos. E ando por aí no meio tempo. Um exorcismo ali, alguns bate-papos com anjos aqui. Conheço alguns anjos e alguns demônios, e posso dizer que odeio os dois. Anjos são seres metidos e esnobes, que se esforçam demais para controlar tudo o que for possível em nome do próprio benefício. Demônios são mais agradáveis, mas apenas porque é o melhor jeito de tirar algo de você. São seres pouco agradáveis de se manter por perto.
O susto faz com que eu esteja saltando antes de entender o que estava acontecendo. Quando fui perceber, minhas mãos estavam voando e meu coração estava batendo rápido demais para meu próprio bem. Levo segundos pra ver a figura sentada na cozinha, com uma xícara na mão. Foi interessante notar que a xícara estava vazia, mas isso eu só percebi depois que ele foi embora, e o anjo ainda estava ali. Ao menos, eu eventualmente descobriria que ele é um anjo.
A criatura bebeu um gole do seu café sem tirar os olhos de mim. Seu olhar me deixava desconfortável, como um pai severo que punia o filho só com o olhar.
“E então, vai responder ou ficar me encarando?”
“Como você entrou aqui? Quem é você?”
“Eu sou alguém com mais educação que você, aparentemente. Meu nome é Gaghiel, e sou o Rugido de Deus. E entrei pela porta, obviamente” e, falando isso, me olhou com um olhar que quase parecia escárnio, “embora não seja a mesma porta que você.”
“É, típico de anjos, ignorar a etiqueta terrestre”, falei, levemente irritado.
Do nada, Gaghiel aponta uma espada de fogo para meu pescoço. As chamas da lâmina queimam minha barba mal-feita. O mesmo fogo queima em seus olhos.
“Desgraçado! Eu deveria matá-lo aqui e agora por ter libertado o maior mal que o mundo já conheceu!”
Só então entendi do que ele estava falando. Ele estava vindo me cobrar satisfações do meu pequeno encontro com o senhor de toda a fodelança maligna cósmica.
“Olha aqui, Gaghiel, eu não sei o que você ou o Chifrudão lá ou o teu chefe voyeurzão lá pensam, mas eu não trabalho pra ninguém. Freelancer, lembra?”
Entre dentes.
“Mil vezes maldito!”, seus olhos eram a pura fúria divina, “você pode ter condenado esse e todos os outros mundos.”
“Então eu acho que perder tempo pressionando um espectador é uma bela burrice, não é?”
Cara, se olhares matassem eu certamente teria morrido ali. Acho que é verdade quando falam que anjos têm um pouco de demônios em si.
“Tem razão. Mas antes que eu parta, saiba disso: o que acontecer de agora em diante, e você pode ter certeza que haverão repercussões, será culpa sua”, e, com essas palavras, ele sumiu.
Eu adoro tipos angelicais por essa necessidade de controle. Nem deve ter passado pela cabeça dele que agora o diabo estava em dívida comigo. Com certeza era algo para se rir. Céu e inferno se dirigindo para a guerra, graças à este que vos fala, que também pode mudar os rumos do conflito. Dias interessantes estão por vir.
Não que eu me importe muito. Jogo minhas roupas no sofá e pulo na cama e durmo.
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Vem coisa por aí…