August 13, 2007

 Diálogo 

“Era como se eu a conhecesse. Ela era minha mais antiga e mais querida amiga. O tipo de pessoa pra quem você pode contar qualquer coisa, não importa o quanto seja ruim, e que vai continuar te amando, porque te conhece.”
(Brant Tucker, sobre a Morte, em Sandman #56)

Certo dia, eu estava sentado num banco, em uma praça. Pessoas iam e vinham, com seus cães e bicicletas e corpos pingando suor na areia. Eu, por minha vez, pingava suor apenas porque o dia estava insuportavelmente quente. Por algum motivo, usar minha camiseta de lobo e minha calça verde-escura com tecido pesado parecia uma boa idéia (e talvez esse motivo seja porque estamos no inverno, e estava fazendo um calor desgraçado aqui), e agora era tarde demais pra voltar. Eu nem sabia o que estava fazendo ali, até que ela chegou.

Ela, ao menos, era um pouco mais esperta que eu. Sua blusa preta de alcinha com certeza era mais quente que a minha camiseta de malha pesada, e seus jeans, também pretos pareciam tão bons quanto. Dizem que pessoas brancas (e acreditem, ela é branca, ao ponto de me fazer parecer bronzeado) sofrem mais quando o sol quente bate na sua pele, mas se ela sentia qualquer desconforto, escondia muito bem, ali para de pé. O sorriso, maravilhoso como sempre, contrastava com aquela tatuagem embaixo do olho que parecia descrever a trajetória de uma lágrima que sumiu no meio do seu rosto. Os olhos, uma mistura única de alegria e tristeza, me encaravam meio de lado, de um jeito
que, vindo de qualquer outra pessoa, seria zombeteiro, mas eu a conhecia bem o bastante pra saber que ela nunca zombaria de mim. Para alguém tão divertida, a Morte era bastante séria.

- Então é isso, já morri? - perguntei, sem desviar os olhos do nada
que eu observava à minha frente.
- Morrer? Você quer morrer? - ela perguntou, parte curiosa, parte rindo.
- Claro que não. Quem quer morrer?
- Pessoas que nasceram mas ainda não viveram. Você se surpreenderia com quantos existem.
- Surpreender? Sei lá, acho que duvido. Já vi muitos idiotas do tipo.
- Ah, mas sempre tem um idiota pior para te surpreender, e ele sempre aparece quando você acha que não pode piorar.
- Então… já que não vou morrer, a que devo a visita?
- Ah, eu tenho que estar aqui em meia hora, e te vi aqui meio cabisbaixo, resolvi dar um olá.
- Engraçado… eu tava com a sensação de que deveria estar aqui hoje. De fato, nem estou triste, estou só naquela calmaria lenta e pensativa, e estava esperando algo. Acho que era você.
- É, de certa forma, todos esperam por mim.
- … mas nenhum quer realmente te encontrar.
Ela gargalha. Uma gargalhada sonora, alta, ininterrupta, límpida. Poderia ser uma música.
- E então?
- Então… o quê?
- O que você queria me dizer?
- Nada, eu acho. Sei lá, não tenho pensado muito usando palavras, minha mente anda mais uma mistura de sensações e sentimentos e imagens, como se eu jogasse tudo em um liquidificador gigante e o resultado fosse o que está se passando na minha cabeça.
- Hmm.
- Se fosse qualquer outra pessoa, eu estaria sendo considerado doido por dizer isso, mas aposto que vocÊ me entende, né?
- É, mas eu entendo todo mundo.
- Heh algum dia eu chego lá.
- Chega sim. Todos chegam, alguns só demoram demais.
Mais gargalhadas. Dessa vez minhas. Comparadas com as dela, era como se fosse uma garça sendo estrangulada, mas não deu pra segurar.
- O que é tão engraçado?
- Que, quando eu me sinto deprimido, esses papos com a Morte me animam. É irônico, não?
- Não muito. Seria realmente estranho se você se animasse sem pensar em mim. Sabe, eu sou parte da sua vida.
- E uma parte muito agradável, quando deixamos de ter medo de você.
- Ora… obrigada. - ela responde, meio sem jeito. E posso ter delirado, mas nesse momento eu acho que vi a Morte corar levemente. Deve ser ilusão de grandeza.

Pouco a frente, um cachorro escapa da coleira e sai correndo. Seu dono tenta alcançá-lo, sem prestar atenção em nada na sua frente. “É ele?”, perguntei. Ela apenas abanou a cabeça, olhando fixamente pra escada logo adiante.
O cachorro se aproxima de nós, e nisso eu levanto do banco e o agarro o fujão. O dono vai desacelerando pouco a pouco, agradece e vai embora. Não acontece nada quando ele chega na escada, o que me deixa um tanto confuso. Extremamente confuso, a julgar pela reação da moça-entidademetafísica ao meu lado.
- Antes que você pergunte - ela começa - eu não planejei nada disso.
E, cantarolando, ela vai embora. Realmente, não tem como não amar a Morte.

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4 Comentários »

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  1. olhando por esse conto, até q a Morte me pareceu simpática!
    Mas eu não a amo, não!

    Ela é o máximo, e eu a amo!

    Comment por Carol — August 13, 2007 @ 1:05 am

  2. Gostei, gostei! Muito DanteZCO esse conto… BeijoO
    Ah, prometo que vou terminar os quadrinhos. >.

    Comment por Menina Ruiva — August 13, 2007 @ 1:12 am

  3. prefiro amar outras… pessoas!

    Comment por Carol — August 13, 2007 @ 1:15 am

  4. Neil Gaiman se sentiria feliz ahuhuahua. E a morte parece ser legal, mas eu queria mesmo é levar um papo com o Destino huahuuah

    Comment por Nayara — August 13, 2007 @ 11:43 am

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