“E ele me disse que todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia
Cínicos e bêbados e incomodando alguém em uma cafeteria escura.”
(Joni Mitchell - The Last Time I Saw Richard)
Era tarde, bem tarde. O sol ia se pondo, as pessoas começavam a sumir das ruas, e eu fui ao café. Estava com muito pouca cafeína no sangue, precisava de um especial. O inverno de Detroit com bastante vento, mesmo meu sobretudo, meu cachecol e meu fedora não estavam ajudando. O fedora, aliás, insistia em se mexer na minha cabeça.
Entrei, o guizo na porta tocou, anunciando o novo cliente. O bar estava vazio, salvo as baratas e poucos clientes. Não é o lugar mais limpo da cidade, e certamente não é o melhor atendimento, mas existe algo aqui que faz com que eu perca a vontade de tomar café em outro lugar. Procurando uma mesa, vi um velho amigo.
Richard era um sujeito estranho. Seus olhos tinham olheiras profundas e constantes, embora que eu saiba ele tenha passado boa parte de sua vida dormindo. Sua camiseta branca tinha algumas manchas e estava amassada até para os padrões dele. O cinzeiro na mesa estava cheio, a xícara estava vazia, e o papel com manchas marrons estava coberto pelos rabiscos que Richard insistia em chamar de letra. Ele nem em viu, mas duvido que fosse notar algo menor que a queda de um meteoro. Ou melhor, de um planeta. Me aproximei, e vi que seus olhos estavam meio vermelhos. Ele olhava para o nada e ainda não me via, com certeza era o mesmo sujeito de sempre.
“Sabe, Dan” começou ele, me assustando pra caramba. Quem diria, ele notou que eu estava aqui. Algo estava errado. “Sabe”, continuou ele, “todos os românticos sempre encontram o mesmo final: cínicos e amargos e bêbados, incomodando alguém em algum café escuro. A minha vítima é a garçonete ali”, falou, apontando para uma mulher atrás do balcão. Uma cara gorda e nervosa, cabelos loiros presos por uma rede no cabelo, mas um cigarro caído no canto da boca. “Uma verdadeira lady,” disse eu, rindo.
“E quem é a sua vítima?”, ele me perguntou. Soltei uma gargalhada, involuntária. Mesmo previsível como o inferno, ele ainda sabia me pegar de surpresa. “Tá rindo, é. Por acaso você acha que está a salvo? Olhe-se no espelho, meu amigo, eles brilham como as últimas rosas da primavera, antes de murcharem para o outono.”
“Bom, nesse caso, acho que a minha vítima é você. A não ser que queira dividir”, falei, referindo-me à garçonete, que lavava louça enquanto derrubava cinzas na pia alagada. Vai ver era esse o sabor defumado do café.
“Eu sei como você pensa, você gosta de rosas, beijos, afagos, todas aquelas mentiras bonitas quando dizemos que amamos alguém. Provavelmente gosta mais de falá-las do que de ouvi-las, ah, eu sabia”, interrompeu-se ele, vendo a resposta no meu rosto. “Pelo amor de Bog, rapaz, você é pior que eu!”, berrou ele, com um tom de desapontamento na voz. Era óbvio que ele tinha, como ele mesmo gostava de dizer, “aberto mais um vácuo”.
Ele é tão romântico quanto eu, não o entendam errado. Nós dois somos daquela rara última espécie de cara que realmente pensa em algo romântico com outros objetivos além de conseguir sexo. De fato, algumas vezes nem ambicionamos o beijo, fazemos simplesmente porque, bem, é algo que a gente faz. Mas, vocês vêem, essa era a teoria do Richard, que ele bolou depois de vários relacionamentos ultraromânticos (e ultrafalhos também): a gente se aproxima das mulheres, dá a elas o que elas querem, e aí elas vão embora nos deixando com mais um vácuo. Se relacionar com pessoas é difícil, e com mulheres em dobro porque elas adoram joguinhos e alimentam fantasias idiotas de caras que as entendem só pelos gestos. Acham que isso é possível o tempo todo, e acham que querem isso, mas quando conseguem, vêem que não queriam mesmo aquilo, desistem e vão atrás do mesmo sonho, de novo. Essa é a teoria do Richard, mas não sei se realmente discordo ou concordo com ela. Acho que, como tudo o mais que ele diz, em parte.
Richard levantou-se e foi até o jukebox. Colocou uma ficha e escolheu um álbum, e enquanto ele fazia isso eu olhava seus rabiscos. Não entendi porra nenhuma, como sempre, essa letra dele é tão ruim que eu juraria que são desenhos. Malfeitos, aliás, muito mal feitos. Coloquei o papel de volta na posição anterior e fiquei observando a postura de Richard. O mesmo passo levemente cambaleante para a esquerda, aquela incerteza toda que ele ocultava sob uma postura meio cínica, meio arrogante, mas puramente amarga na maior parte do tempo. Ao menos era assim que ele agia em público, alguns seletos conheciam ele melhor que aquilo. Ele sentou-se e a garçonete nos serviu mais café defumado. “Bebam, já está quase na hora de fechar”, ela falou, com sua voz monótona, meio arranhada. Como eu disse, o atendimento não é dos melhores, mas cara como esse café é bom!
“Richard, você não mudou nada, cara! Você só está remoendo de novo e de novo e de novo uma daquelas velhas dores que ficam dentro da sua cabeça. Você fica aí falando sobre românticos cínicos e deixando a garçonete e as baratas e eu sabermos que você quebrou a cara e que nunca mais vai se apaixonar, mas ouça a o disco que você escolheu. Você não vai convencer ninguém ouvindo As Time Goes By!”, eu falei, rindo.
“É, e não foi a última vez. Foi a última vez essa semana, com sorte esse mês, mas definitivamente não foi a última vez, nisso você tem razão”. Isso é outra coisa interessante sobre o Richard: de vez em quando ele responde uma pergunta com a resposta pra sua pergunta seguinte, e quem não o conhece fica meio perdido com isso. Felizmente, eu já estou acostumado.
“Mal assim, hein?”, perguntei, porque tem vezes em que as perguntas mais idiotas não são tão idiotas assim.
“É mais um livro, meu caro, mais uma metáfora e mais um livro. É o que nos sobra no final, certo? Elas nos dizem que somos seus sonhos, e aí um dia elas acordam e nos deixam com uma metáfora e a trama de mais um livro pra pessoas que procuram motivos pra sentir tristeza.”
“E o próximo livro, é sobre o que?”, eu perguntei, tentando mudar de assunto.
“Sobre um idiota. Não é sobre o que são todos? Todo livro é sobre uma marionete seguindo as ordens de um autor todo-poderoso. É parte do barato de escrever, nós podemos controlar vidas de personagens. Eles só existem na nossa imaginação, mas isso não significam que não seja divertido.”
Súbito, o refrão de Blue Moon foi interrompido e as luzes foram sendo apagadas. Era o sinal de que estavam realmente fechando. Cada um pegou suas coisas, pagou sua conta, e fomos embora.
Do lado de fora já estava escuro, e vários postes estavam apagados. Eu e Richard nos cumprimentamos, e cada um seguiu seu caminho. Foi a última vez que o vi.
Não sei dizer o que aconteceu com ele. De quando em quando me pego pensando nisso. Poucas das pessoas que eu encontrei eram tão interessantes quanto ele. A maioria era tão chata quanto qualquer outro. Acho que eu nunca mais encontrei um sábio urbano como ele, com aquele jeitão melodramático, sempre o guardanapo pronto pra virar rosa no bolso, os olhos tristes mas o sorriso que, de um jeito que eu nunca entendi, encantava as mulheres. Ele nunca conseguiu relações duradouras, mas eu sei que tentou bastante. Eu também, para falar a verdade, e não posso dizer que consegui. De vez em quando, eu pego um café e fico imaginando Richard fazendo a mesma coisa, em alguma mesa em alguma cozinha num apartamento em algum lugar, a luz entrando pelo lado de fora, e ele curtindo um momento de solidão antes de ir deitar do lado de sua esposa e dormir, com aquele sorriso estranho e atraente no rosto.
Mas isso é só a minha imaginação. Richard tinha toda a razão, sabe? É nessas horas que eu percebo como me tornei um velho sentimental. Sozinho, mas ainda um romântico com seus livros na estante e um café quente, levemente defumado, do lado da poltrona.
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Obviamente baseado na música The Last Time I Saw Richard.