Madrugada
Céu e inferno não estão acima e abaixo, em terras distantes ou outras dimensões. Estão aqui. Preste atenção aos detalhes para enxergá-los.
Quatro e meia da manhã. Eu acordo com um gosto ácido e amargo na boca, o mau humor tradicional que o hábito de acordar de manhã pra mijar criou em mim.
Cambaleio até o banheiro, fecho os olhos e começo o ritual diário. Cachoeira, riacho, corredeira… ahh.
Lavo as mãos, vou até a cozinha e pego uma maçã. A cortina rasgada mostra a madrugada ainda escura. Prédios imundos, algumas casas caindo aos pedaços, um cachorro deitado na rua e um carro com alarme ativado. A boa e velha vizinhança. Parece que não vou voltar a dormir tão cedo.
Coloco uma calça, tênis, uma camiseta velha e saio de casa. Na saída quase tropeço no Velho Zé, um mendigo que dorme na escada aqui do prédio. Sem ter o que fazer à essa hora, saio andando sem rumo.
De madrugada, no escuro, esse buraco quase parece habitável. Metade dos postes não funcionam e a outra metade pisca mais que as últimas putas da madrugada, mas dá pra andar na rua sem tropeçar nos sacos de lixo.
O céu está escuro, estranho. Parece escuro demais pra essa hora, eu acho, mas como normalmente eu estou dormindo nesse horário, não sei ao certo. O que eu sei é que essa luz que eu estou vendo ali adiante não deveria estar ali. A luz do sol deveria vir de cima, não de baixo.
Dou alguns passos até uma casa abandonada. “Casa” o caramba, só resta a fachada, e talvez o chão. Olho pelo que algum dia deve ter sido uma janela e mal consigo acreditar: alguém fez um buraco enorme e iluminado no chão. E, pelos gritos que vêm dali, provavelmente caiu dentro. Vamos ver se dá pra fazer algo pelo pobre-diabo.
Com um chute eu abro a madeira podre que teoricamente estaria vedando a casa, entro e paro do lado do buraco. Ajoelho-me do lado e o fedor de enxofre, carne queimada e seiláoquemais quase me sufoca. Dentre todos os gritos de terror, um se destaca.
“Ei, você aí fora, me ajuda!”, é o que diz a voz no buraco. Como eu não tenho nada melhor pra fazer, estendo a mão, o que talvez tenha seja uma má idéia, considerando-se que o cara que saiu do buraco tem chifres na cabeça.
“Obrigado, mortal”, fala o sujeito com uma voz arrepiante, “agora poderei começar a guerra final, que irá por fim à criação.”
E, com essas palavras, o senhor de toda a fodelança maligna do universo sai por aí pronto pra acabar com tudo, deixando-me ali parado com uma expressão confusa.
É um péssimo jeito de começar o dia, mas por algum motivo, enquanto volto pra casa, não consigo parar de rir.

Bah, bem teu tipinho ajudar o capeta, seu atentado! auauauau
Comment por Talita — February 17, 2007 @ 6:29 pm
seu sádico!!!
maníaco!!!
Comment por Honey — February 18, 2007 @ 12:11 am
Ei, quanto tempo ele vai levar?
ta demorando d+ pra acabar com tudo =/
(podia ser nos próximos 10 min… nao quero ir p aula)
Comment por Rafa — February 22, 2007 @ 10:36 am
Eu lavo antes…
Comment por Alexandre — February 24, 2007 @ 1:35 pm
Uma palavra pra você: medo. ok?
Até. ehauehauehauh
:*
Comment por Gaby Zaupa — September 23, 2007 @ 6:16 pm