23/01/2013
Jogos
Postado nas categorias Subversão, Diarinho

Me peça pra parar se você já teve essa conversa. Provavelmente você vai pedir, porque todo mundo já teve essa conversa em algum momento.

Então, você está lá, conversando com um amigo ou amiga, ou mais provavelmente num grupo, e alguém fala:
“Você tem que fazer joguinho, se fazer de difícil, senão o que vem depois não tem graça.”
Eu espero, pelo seu bem, que essa pessoa não seja um de seus amigos, porque eu me sinto mal de verdade por tem que aturar uma pessoa assim. Sério mesmo. Eu sinto uma mistura de peso no coração, embrulho no estômago e aquela sensação que teu cérebro quer pular pela orelha quando começam a tocar sertanejo universitário perto de ti.

Mas eu já estive nessa situação, e era em uma época bem mais bunda-mole, e mesmo assim eu tenho a impressão de que fui contrário à pessoa. Se fosse hoje, por outro lado, meu ogríssimo eu provavelmente teria algo assim pra responder:
Sem graça? Como assim ’sem graça’, tu já ESTEVE na outra parte? No que vem depois? Se tu teve sorte, o que vem depois é ter uma companhia agradável quase sempre, fazer sexo sem nenhum grande desafio, só porque os dois gostam, e sexo com sintonia, não aquela coisa de primeiros encontros em que os dois estão ainda se achando no que cada um gosta… tu só pode ter perdido quando foi no banheiro, é isso que eu acho que aconteceu, tu cagou teu cérebro um dia e ainda não descobriu, é a única explicação pra esse tipo de atitude que eu consigo conceber como racional.”

Na real, essa resposta surgiu (em uma versão menos desenvolvida) conversando com a Sonia (sem acento mesmo), e depois me ocorreu: “Cara, essa frase é meio genial”, mas logo depois eu pensei “mas também é totalmente óbvio”. E saiba: quando uma coisa é totalmente genial e totalmente óbvia ao mesmo tempo, você percebeu algo que está muito errado.

Caso você esteja se perguntando (e, se está, quem diabos é você e como chegou aqui?), “O que estaria de errado? Pessoas são acim(sic) mesmo” (isso mesmo: se você pensa assim, eu presumo que você escreva errado), a resposta é simples: relacionamentos não são um jogo. Tudo bem você achar que aquela transa da balada de sábado de noite tem que ser complicada mesmo pra valer a pena (tem gente que tem tara em transar com balões, véi, o mundo tá cheio de perversões malucas e eu não vou julgar), mas deixa eu te contar uma novidade fantástica: relacionamentos não funcionam assim.

Claro, uma transa pode virar um relacionamento, mas vai, uma coisa é aquela vez, outra são as seguintes. Não existe motivo pra complicar as seguintes. Se você acha que não vai ter graça, eu te digo: te joga de cabeça e vai sem medo. Pode ser que não dê certo, mas aí pode ter certeza que não é o joguinho que ia salvar teu relacionamento.





23/11/2012
Mochila
Postado nas categorias Subversão, Diarinho

Existe muita gente que não sabe fazer turismo. Ruas principais, monumentos principais. O tempo é curto, a viagem é breve, mas ao menos viram o principal. Dá pra acreditar que as pessoas podem ser tão cegas? Mas eu tenho uma teoria sobre isso: o problema são as malas.

Pessoas que usam malas demais perdem de vista o que é importante. Carregando malas, caminha-se menos, porque carregar mala é um saco, é pesada, e tem tanto espaço que mal dá pra resistir. Aí se enche a mala, e ou carrega ela trocando de mão (porque malas cansam os braços), ou se puxa pelas rodinhas. Só que as calçadas odeiam rodinhas, então de qualquer jeito a mala é uma âncora.

(E carregar mala do lado do corpo sempre atrapalha o caminhar. Ou talvez eu seja o desajeitado)

A solução é óbvia: mochilas. Não cabe muita coisa, então saber escolher o que levar é fundamental. Eu estou em São Paulo, e tenho algumas camisetas, calças extras, cuecas e meias. Itens de higiene, garrafinhas de água, livro pra ler, netbook, e era isso. Tudo o que eu preciso até chegar ao supermercado.

Mochilas ensinam a identificar o necessário, e que caminhar é fácil. E a lição fica. E o necessário é conhecer a cidade. E isso só se faz à pé.

Existem ruas paralelas, pessoas na rua, garçonetes na lancheria, casas antigas, malucos religiosos, motoristas, policiais, livrarias… cidades se escondem nisso. E qual o valor de ir a uma cidade fazer turismo, e sair conhecendo só a sua maquiagem?





8/03/2012
Tema de Encerramento
Postado nas categorias Momento Scully, Contos

Stray. O motor ruge. Alto, violento. As mãos de um velho o controlam com esforço. “Estou velho demais pra isso”, penso, “mas é esse o objetivo.” Rio por dentro. O rádio toca agora Pushing the Sky. Boa música.

A estrada está impossivelmente lisa. É incrível pensar que chegamos nesse estado. Lisa e perfeita, assim como ela, quando a conheci. Lisa, perfeita e morena. Minha morena, e tanto tempo depois, agora só tenho a minha estrada.

As curvas parecem perigosas, mas não me intimidam. Big Bad World One agora. Engraçado, achei que seria assim, mas no final, mesmo o mundo tendo marcado muitos pontos, eu também marquei. Foi uma vida boa, com certeza. E agora cheguei aqui.

Uma descida, eu acelero mais. Hoje, não faz mais diferença. E, pra brincar comigo, o rádio começa a tocar o tema da Green Hill Zone. Faz tantos anos. Que saudade dessa época. Eu acelero. A descida é longa, mas elas sempre são. Dá tempo até de trocar de música. Entra essa. Nostalgia.

Curva. Seria um bom momento, mas ainda tenho muito pra subir. Olhe Sempre o Lado Bom da Vida. E eu olhei. E não olhei. Depende do dia.

Bom, agora é a hora. Falta pouco pra mudar a música. O que será que vem?

Acelero. Tatakai no Hate. Ótima escolha. Um minuto, vejo a curva perfeita. Dois minutos, começo a acelerar. Dois minutos e meio, estou quase lá, acelero mais. Três minutos, vôo.

3:30. Game over.





5/10/2011
AmizadeHxM
Postado nas categorias Subversão, Sem Noção, Véio, Diarinho

Uma vez, muito tempo atrás, uma amiga (não-relacionada ao contexto da frase) (continue lendo que logo o parênteses vai fazer sentido) se ressabiou de eu ter dito que homens enxergam dois tipos de amizades. E você talvez se ressinta de estar sendo classificada, e entenda o lado dela. Eu também entendo, porque me expressei errado. Ou melhor, de forma insuficiente.

O que eu falei foi, mais ou menos, “homens separam amizades com o sexo oposto de dois tipos: aquela que é só amizade mesmo, e que, dependendo do cara pode ser bem comum (eu sou um caso disso), e aquela que é uma aproximação, porque o cara tá interessado mas quer saber mais”. Dita dessa forma, eu entendo que a frase possa ser entendida como “Só me aproximei de ti porque tava interessado”. O que eu não entendo é como isso pode ser ofensivo.

Mas talvez não seja ofensa. Mais provável que seja mágoa, por “perder o amigo”. Mas o fato é que o “amigo” nunca existiu. O cara do tipo 2 (amizade como interesse) não é e nem nunca foi seu amigo. Ou melhor, ele foi seu amigo, mas ele nunca se viu como o amigo. E provavelmente não aceitará ser o amigo. Como diria a minha amiga Bhe, “o interesse não passa”. Reclamem o quanto quiserem, mas não se esqueçam que o cara também tem um sentimento, que é diferente do de vocês e que também merece ser respeitado. (Quem quer respeito, respeita, não é?)
A não ser, claro, que você seja uma daquelas que acham que homem algum presta. Aí vc pode parar de ler aqui, porque você é uma eterna insatisfeita que vai morrer infeliz ou sozinha.

Voltando.

Perguntar “vamos continuar amigos?” é uma frase que não faz sentido, porque nunca houve uma “amizade”. Na verdade, o que aconteceu é o seguinte: a mulher não captou nosso sinal de interesse. E existe uma ironia nessa incapacidade de perceber os nossos sinais. Afinal, quem nunca ouviu uma mulher se queixar/se vangloriar que homens “não percebem sutilezas”, “não percebem sinais”. Né?

Normalmente, esse seria o ponto no qual eu daria a dica, mas no meio do parágrafo me ocorreu quantas mulheres adoram ou “acham necessário” testar os outros (porque são umas idiotas: uma conversa provavelmente seria mais eficiente. Mas eu entendo, uma conversa exigiria que ambos se expusessem, e esse tipo de mulher tem um medo terrível de se expor), e que esse conhecimento seria facilmente pervertido. Até eu decidir se o risco compensa, vou ficar quieto.

Existem diferenças entre amigos e interessados. Algumas (muitas) até sabem disso, mas fingem que não notam o interesse “pra preservar a amizade”. E isso mostra que elas realmente não conhecem a pessoa com quem estão lidando: mulheres também não entendem homens. Entendam, vocês não estão garantindo nada. Talvez o cara aceite continuar sendo “o amigo”, mas é injusto esperar isso. Você acabou de rejeitar o cara, não espere que ele faça grandes esforços por você.

E isso, na minha mente prática, aponta pra necessidade de uma linguagem comum, que ambos entendam. Não algo imposto, que acabasse com os joguinhos que algumas pessoas acham tão atraente, mas apenas um recurso extra, algo sem ambiguidade, que permita às pessoas comunicarem seus sentimentos sem que haja chance de interpretar errado.
Claro, isso já existe: chamam-se “palavras”. As linguagens humanas tradicionais já permitem esse tipo de comunicação (claro, se as palavras forem usadas corretamente). Mas, parece que existe uma barreira que impede alguns caras de usarem ela pra se expressar claramente. E uma outra barreira que impede as mulheres de responderem da mesma forma (já aconteceu comigo. Não é uma regra, o que estou dizendo é que acontece. Se não acontece com vc, parabéns por superar a barreira).

Por sinal, garotas, não pensem mal do cara que não quer “ser amigo” (o que, como eu já falei, é algo que ele nunca foi). Aceitem os fatos: vocês vão encontrar caras muito legais, com quem vocês vão querer bater papo, passar tempo, ver um filme, dar uma volta, tomar um sorvete, o que quer que seja, mas por quem vocês não vão se apaixonar. E uma hora vocês vão perder essa pessoa. Vocês estão perdendo um amigo, eu entendo que é ruim. Ele está desistindo de alguém que ele estava gostando. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja algo inicial, é um sentimento bem maior que amizade. Pra ele é pior.
Não sejam egoístas. Pensem no que o cara que vocês consideram um amigo está sentindo antes de dizer “vamos continuar só amigos?”. Porque essa frase doi.





20/09/2011
FasciNacionalismo
Postado nas categorias Subversão

Hoje é feriado no Rio Grande do Sul. Farrapos, um feriado onde comemoramos o fato de termos feito uma trégua com o governo em uma guerra lutada em favor das elites. É um feriado de “orgulho local”, um dos conceitos mais cretinos que se ensina atualmente. Sempre que eu vejo um ufanista, eu me lembro que esse tipo de coisa não é impossível:

INTERROMPEMOS A PROGRAMAÇÃO COM UM BOLETIM ESPECIAL: A AMÉRICA ESTÁ AGORA SOB LEI MARCIAL. Todos os direitos constitucionais foram suspendidos. Fiquem em suas casas! Não tentem contatar pessoas próximas, agentes de seguro ou advogados. Calem-se! Não tente pensar ou você poderá ficar deprimido. Fiquem em suas casas! O toque de recolher é às 19h em ponto, após o trabalho. Qualquer pessoa pega fora dos portões do seu setor da subdivisão após o toque de recolher SERÁ EXECUTADA! Fiquem calmos! Não entrem em pânico! Um oficial passará pelas suas casas para colher amostras de urina pela manhã. Qualquer pessoa que interfira com a coleta de urina SERÁ EXECUTADA. Casas serão inspecionadas, atrás de vestígios, ao meio-dia. Qualquer um que falhe em exibir a bandeira em sua sala de estar SERÁ EXECUTADO. Câmeras e equipamentos de vigilância serão instalados em todos os postes. Qualquer pessoa que falhe em ir às cerimônias de adoração no domingo será preso na mesma hora, e enviado para um resort educacional. Fiquem em suas casas! Fiquem calmos! O inimigo número 1 do progresso são QUESTÕES. Segurança nacional é mais importante do que vontade individual. Todas as transmissões esportivas continuarão sendo feitas normalmente. Duas pessoas podem se reunir em qualquer lugar apenas mediante autorização. Use apenas as drogas prescritas pelo seu chefe ou supervisor. CALEM-SE! Sejam felizes! Obedeça à todas as ordens, sem questionar. O conforto que você exigiu agora é obrigatório. Seja feliz! Finalmente, tudo é feito POR VOCÊ. (Jello Biafra - Message from our sponsor)





16/09/2011
Bundamolização 2
Postado nas categorias Subversão

“Eu sou um esquisito. Eu sou um malucão. Que diabos estou fazendo aqui? Eu não pertenço aqui.” (”Creep”, Radiohead)

Antes eu achava que a Era da Escrotidão ia ser fudida. Afinal, a descrição faz jus: zumbis pra todo lado, destroços de uma civilização de merda criando grandes cenários pós-apocalípticos, Stairway to Heaven proibido em todos os lugares, bárbaros guerreiros cavalgando iguanas gigantes e brandindo seus machados, e o Divino ainda correndo por aí e enrabando os pobres idiotascoitados que insistirem em manter suas ações (sabe, da bolsa de valores) quando elas estavam indo pro caralhoburaco.
Se você não sabe do que estou falando, é porque você não ouve o Nerdcast, e não merece saber do que eu estou falando.

Mas, tolo e ingênuo jovem que sou, ignorei o fato de que estou vivendo em uma era que, da sua forma, é tão ruim quanto a Era da Escrotidão: A ERA DO MIMIMI. Há, inclusive, semelhanças com a Era da Escrotidão, exceto que, ao invés de termos guerreiros cavalgando iguanas gigantes, temos um bando de idiotaspessoas que, de alguma forma, chegaram a um acordo mútuo de fingir que nada pode ser criticado. Na verdade, essa é meio uma regra, mas também é um fingimento: a realidade é oposta, e tudo o que existe está aberto à críticas. Infelizmente, a habilidade de criticar foi perdida junto com a criação dessa regra para crianças.

De alguma forma, tornou-se socialmente inaceitável apedrejar bichas que dizem “Ah, não fala mal de tal coisa prq eu gosto”. INTERLÚDIO.

INTERLÚDIO Cabe uma explicação aqui: eu não estou falando de homossexuais, até porque gostar de homem não é qualificação de nada, exceto de determinação sexual. Estou falando de “bichas”, um animal diferente e que, independente do seu sexo e determinação sexual, age como uma garotinha mimada de 13 anos.
E não falo de garotas por nenhuma ideia de “sexo frágil”, é somente porque garotas de 13 tendem a ter uma voz muito irritante. E bichas enchendo o saco ficam irritantes muito rápido.
FIM DO INTERLÚDIO.

Meu querido, minha querida, presta atenção: se você não gosta, o problema é inteiramente teu. Eu não gosto, tenho motivos e, se eu quiser falar neles, eu irei. Por mais que eu goste e/ou te respeite, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não estou falando de ti, então, quer me explicar por que você tá se mordendo? Quer defender, tudo bem, mas ficar de mal porque falei mal disso é bobagem. A não ser que você já me ache um babaca, mas isso é uma coisa completamente diferente.

Mas pior que quem não gosta de ouvir falar mal é a tribo (geralmente composta pelos mesmos membros, logo, essa frase não faz sentido) que fala “Não gosto, mas também não critico”, embora essa gente deva ser explicada com mais cuidado: existe mais de um motivo pra você não criticar algo. O melhor deles é o fato de que você não tem noção do que seja a coisa, o que te dá duas opções: ou você julga baseado nos seus pré-conceitos (caso tenha algum), ou você comete um crime (mas isso é assunto pra depois), que é “não ter opinião”. Também não é lá muito legal puxar um assunto só pra criticar na frente de quem gosta. Esses motivos são aceitáveis.
O que não é aceitável é você conhecer, não gostar, e se furtar de dizer: primeiro porque o interlocutor não tem direito de se ofender, se ele levantou o assunto. Ninguém tem o direito de esperar 100% de concordância o tempo inteiro. E, se esperar, só lamento, mas você é uma bicha. E não me adianta olhar com cara de choro. Entenda uma coisa: pedir pra que eu me cale porque você discorda de mim, não importa quanta chantagem emocional você use, é uma puta falta de respeito da sua parte. E não só eu vou continuar falando, como meu respeito por você vai acabar diminuindo. Porque alguém que usa chantagem emocional pra pedir algo não tem argumentos, não sabe aceitar uma opinião divergente ou (preparem seus sais, bichinhas) aceitar que está errado. Então apela e, logo, não merece respeito. Mas pode receber escárnio, serve?

E sabe por que deixar de falar, quando você discorda, é errado? Porque quando você não fala, você se furta da possibilidade de descobrir que está errado. Você evita se expor a algo novo, evita ter que rever suas ideias, mudá-las, melhorá-las. E, pior que isso, você furta ao outro essas mesmas chances. Claro, pode ser que a outra pessoa que seja uma bicha que não aceite mudar de ideia, e que aí ela vá brigar com você. Mas, sinceramente, não consigo ver algo de negativo nessa possibilidade: por que você faz tanta questão de ser amigo de alguém que não consegue aceitar que você pensa diferente? Você é um indivíduo, não parte de uma massa homogênea (eu espero), não precisa aceitar isso. Não deve aceitar isso, de ninguém.

Claro, você pode. Mas isso é uma escolha sua. Nunca diga para alguém “não fala mal disso, porque eu gosto”. Nunca diga isso para mim, porque você não vai gostar da minha resposta. E você vai ouvir a minha resposta.





14/09/2011
Alcance.
Postado nas categorias Diarinho, Metapost

Uma coisa estranha que aconteceu comigo, recentemente: trocar e-mails com gente que eu nunca vi antes. E o legal é ver quem são essas pessoas: uma mineira que entrou em contato comigo pelo blog, com a velhaclássica pergunta “por que você é o Ornitorrinco?”, embora ela tivesse uma utilidade mais prática pra resposta. E legal que a conversa tá durando tanto que hoje eu dei parabéns pra ela, pelo aniversário.

Tá certo, eu já namorei paulistas, carioca, eu já fui longe. Mas sempre tem algo de muito engraçado nisso. É estranho a gente simpatizar tanto com algumas (é meio raro, também) pessoas só trocando e-mails, quando a maioria das pessoas não conseguem conceber a ideia. E isso realmente me leva ao meu próximo ponto.

(Muito) Provavelmente por alguma influência disso, eu esses tempos, lendo as tirinhas de um cara (chamam-se Negative Space, e valem muito a pena), eu me identifiquei MUITO com uma situação pela qual ele estava passando (dificuldade de superar um relacionamento que foi muito significativo), e resolvi escrever pro cara, pra dizer que melhora, a gente supera. E a conversa chegou num ponto em que ele me mandou um e-mail que eu acho que li todos os dias, desde que recebi (faz uns três dias, então não é tanto assim). Antes desse e-mail, eu tinha dito que ele podia se confortar com o fato de que, como a guria tinha também se surpreendido um pouco de querer terminar com ele, é um pequeno consolo o fato de que ela com certeza amava ele. E aí chegamos a esse e-mail:

That’s true, I never thought of it like that. You’re right, it’s better than nothing. Thanks for the awesome observation, it really has made me feel better in some strange way. Like you gave me some extra closure, somehow.

You’re an awesome person.

TRADUÇÃO LIVRE: É verdade, e eu não tinha pensado dessa forma. Você tem razão, é melhor do que nada. Obrigado pela observação fantástica, realmente fez eu me sentir melhor, de uma forma estranha. Como se você tivesse me dado algum encerramento extra, de alguma maneira.

Você é um cara fantástico.

ESCLARECIMENTO: eu estou longe de ser um cara fantástico. Eu só tenho algumas boas percepções de vez em quando. Não se enganem.

E sei lá. Me senti bem com isso. Então, o objetivo desse post (e do título, não sei se alguém notou) era só dizer: do outro lado da tela provavelmente tem uma pessoa. Se você está lendo um blog, ou um site de tirinhas, vai ter um autor, ele é uma pessoa como você (até em outros países). Se essa pessoa teve a sorte (acreditem, é sorte, mesmo que seja intencional) de escrever algo que te tocou (deixem as piadinhas óbvias de lado, só dessa vez. Obrigado), escrevam pra essa pessoa e digam isso.

Você pode se surpreender.

Ah, e parem com essa porra de “________ virtuais”. Relacionamento virtual é quando você bate punheta mais de 5 vezes pro mesmo vídeo. No resto, existem sempre pessoas.





30/08/2011
Tradução
Postado nas categorias Subversão, Sem Noção, Véio, Nerd

Quando um animal se sente acuado, o cérebro passa a trabalhar em cima de duas respostas apenas: fugir ou lutar. E me parece que isso também ocorre quando as pessoas têm suas ideias acuadas: ou a mente foge do assunto, ou ignora completamente razão e racionalidade e defende suas ideias com unhas e dentes.

Vejamos, por exemplo, o caso desse cara aqui. Ele chegou ao extremo de defesa de ignorar completamente o conceito de falácias lógicas. Falácias são argumentos que, pela forma como foram feitos, não podem ser sustentados. Muitos envolvem ignorar fatos ou generalizações injustas (uma redundância, eu sei).

O autor, interessantemente, descreve, nos itens de 1 até 8, boas formas de se responder a argumentos religiosos. Eles tipicamente caem em falácias lógicas, ou em argumentos falhos, como, por exemplo, a aposta de Pascal. Muitos cristãos (nunca vi pessoas de outras religiões fazendo o argumento) acham que é mais vantajoso acreditar em Deus, visto que os descrentes vão para o inferno. Claro, eles ignoram detalhes como, por exemplo, que mesmo que a Aposta de Pascal fosse válida, ela ainda não justifica a escolha do deus cristão sobre qualquer outro.
E tem também o fato de que ela é uma tremenda duma ameaça no melhor estilo mafioso. “Você tem um belo destino aqui… seria uma pena se algo acontecesse com ele caso você não venha para o nosso lado.” Tsc.
Não apenas isso, como afirmam que pegar afirmações fora de contexto (o chamado “quote mining”) deveria ser válido. Até Richard Dawkins já foi citado fora de contexto dizendo que coisas surgiram como se fosse do nada. Claro, não é citado que, imediatamente após, ele diz que evolucionistas não acreditam nisso. How convenient.

Aliás, outro que vale a pena mencionar é o item 2, no qual a pergunta está mal formulada: em momento algum se comprova que seres humanos são “coisas criadas”. E não adianta colocar as mãos nos ouvidos e dizer “mas você só tem essa teoria da evolução, que parece lógica pra você mas que não pode estar certa porque tudo foi criado por deus”.

Por brevidade, vamos pular o resto. Porque do item 9 em diante é que as coisas começam a ficar realmente interessantes. Aliás, o próprio item 9 é interessante, porque eu não conheço ateus que achem que a ciência nos dá certezas absolutas. Ela nos permite interpretar certos fatos, é verdade, mas tudo na ciência está aberto a questionamento. Nada é sagrado. Você pode questionar, mas não pode questionar sem bons motivos. Pra mim, parece justo.

E, quando uma mentira não for o suficiente, partamos para as generalizações injustas (itens 10, 11 e 13). Afinal, o que é um texto de propaganda (no estilo Goebbeliano (espero que isso seja uma palavra)) sem uma generalização injusta? Aliás, é engraçado ver pessoas que advogam um deus que usa táticas de intimidação (afinal, quem não crê nele vai pro inferno, certo? Parece intimidação pra mim, desígnio divino ou não) falar que os ateus fazem isso. Ainda mais considerando que é algo que eu nunca vi sendo feito, mas já vi cristãos batendo em pessoas com críticas legítimas a atos inconstitucionais.
“Mas esses não eram verdadeiros cristãos”. Sim, amigo religioso. Falácia do escocês. Se todo escocês gosta de haggis, e você encontrar um escocês que não gosta, é mais provável que ele não seja escocês do que que você esteja errado. E isso é um argumento batido. Tsc tsc.
(ponto extra pra quem disser em qual item o autor cai em mais uma falácia do escocês)

E, quando as generalizações e as mentiras não bastarem, você sempre pode partir pras comparações que não procedem! Como por exemplo, comparar a contagem de corpos da Inquisição e das Cruzadas (eventos que ocorreram por motivos religiosos) com os (inúmeros) assassinatos cometidos (geralmente por motivos políticos, como qualquer livro de história pode atestar) pelos regimes comunistas. O que nós dizemos é que nenhum ateu pode ser culpado pelo que um comunista faz. Mesmo que o comunista seja ateu. Porque o comunista não está agindo como ateu, está mantendo o seu regime. Bem diferente de arregimentar soldados e matar pessoas porque deus quis assim.

Mas, o melhor item de todos é certamente o 14. Porque ele não é mentira, e não é um bom conselho: pra mim, ele parece uma admissão de receio. Admito que só consigo ler esse item assim porque o texto inteiro é uma espécie de “não faça”. O que permite interpretar o item 14 como “não se juntem a outros ateus, com quem você possa trocar ideias e aprender mais sobre pontos de vista seculares e motivos pelos quais qualquer deus não passa de um amigo imaginário levado a sério demais”. Sério, nesse ponto eu sou forçado a parar porque fiquei com pena desse receio todo da parte do autor.





22/07/2011
Bundamolização 1
Postado nas categorias 6 x 9 = 42, Subversão, Koans

“Naqueles tempos, os espíritos eram bravos, as apostas eram altas, os homens eram homens de verdade, as mulheres eram mulheres de verdade e as criaturinhas peludas de Alfa do Centauro eram criaturinhas peludas de Alfa do Centauro de verdade.” (O Guia do Mochileiro das Galáxias)

Aviso: o texto está escrito como se fosse escrito para uma mulher por ser a maioria dos casos que já vi disso. Mas se aplica a homens também. E homossexuais de ambos os gêneros. E até a pansexuais, imagino que hajam umas árvores bem sacanas por aí também.

Já ouviram essa música? Ela é um prato cheio pra críticas, afinal, a “cantora” tem a mesma voz da Alanis Morissette, ou as rimas terríveis (”você vai pegar uma gripe por causa do frio da sua alma” é pra matar”, puta que pariu), mas eu vou pegar e usar essa música dentro de um contexto mais amplo.

Basicamente, a música fala sobre uma garota que teve o coração partido por um cara mais de uma vez e que finalmente caiu na real e parou de dar chances pra ele. E “ela se tornou forte o bastante pra nunca mais cair de volta em seus (os dele) braços”.

PERAÍ, CUMÉQUIÉ?

Vamos rever essa explicação de outra perspectiva: temos aqui um otário (porque um cara que sai por aí dizendo “eu te amo” só pra levar uma mulher pra cama é um otário, isso é inquestionável) que sacaneia uma guria mais de uma vez, ela continua dando chances pra ele (o que, na boa, faz com que ela seja mais otária que ele), e a guria ainda tem a cara de pau de culpar o cara. Peraí, que porra é essa? A expressão “vaza, imbecil” saiu do dicionário?

Tudo bem, não é fácil dizer “vai embora” pra alguém que você ama. Não é fácil mesmo. Mas às vezes é necessário. Existe uma coisa chamada “responsabilidade”, que você tem que ter: se o sujeito (ou a garota) te machucou uma, duas, três, quatro vezes, e você continua dando chances, não culpe ele por isso: você está dando a chance. Ele diz “Vem” porque ele sabe que funciona. Mas você diz “Vou” pela oitava vez porque é uma imbecil.

Aqui talvez mereça ser explicado um detalhe sobre mim: eu acredito em escolha. Sempre que alguém me diz “mas eu não tive escolha”, eu não consigo evitar de pensar “escolha você tem, mas as alternativas são uma merda mesmo”. Mas a escolha está lá: você não tem que dar a décima-quinta chance pro babaca que só te machucou, você pode escolher dizer “Não” pra ele pelo resto da vida. E acredite em mim, vai ficando mais fácil. Imponha um limite e faça-o valer: “Se fizer isso, me esqueça pra sempre!”
Você se deve esse mínimo de respeito próprio.

Amor não é falta de opção. Você pode dizer “Não” pra alguém que te faz mal, e deve fazer isso, também. Do contrário, você entra no que chamam de “relações abusivas”, e, bom, vai ser abusada. E dizer “Não” pra alguém que você ama dói, dói pra cacete, você vai ter dúvidas, vai pensar se não pegou pesado demais, “Mas talvez ele não fosse tão mal assim”… pára com essa porra! O cara te traiu com a ex-namorada que nem queria realmente nada com ele, o cara te falou que tu não vale a pena (e, sejamos francos, talvez você não valha mesmo, tem que pensar nisso — autocrítica é saudável), e tu ainda volta dizendo “mas eu te amo!”. Grande merda, cara, você já amou antes e pode amar de novo. Mas primeiro tira esse otário do caminho.

Mas, no final, é mais fácil ser a vítima, né? Ninguém “tem culpa de se apaixonar por um imbecil”, “o que eu posso fazer se eu amo ele?”, e tantas outras. Bom, aqui vai a dica: se você caiu na primeira, que merda, você se deu mal. Verdade. Se você caiu na segunda, bom, você é ingênua pra caralho, mas agora aprendeu, né? Se você caiu na terceira, olha, aí você é burra pra caralho, e tem mais é que se fuder mesmo.

O que eu estou tentando esclarecer aqui é que você tem escolha. Se o cara “sai por aí colecionando corações em um vaso”, não saia com ele. Nem fale com ele. Crie esse hábito. E ensine esse hábito pras suas amigas que são otárias como você: parem de dar atenção pros babacas de sempre, e eles terão que mudar. E você não vai chegar à “conclusão” de que “homem é tudo uma merda” por causa do seu dedo podre, e quando encontrar um cara legal, não vai tratar ele com paranoia, como se a qualquer momento ele fosse te machucar.
Porque quando você fica o tempo todo desconfiando que a pessoa vai te machucar, ela acaba indo embora e te machucando mesmo.

Ou seja, você não é uma vítima. Se bobear, você é até o motivo do chute que levou. Autocrítica é importante: se você fez merda e fica repetindo essa merda, mas nunca aprende, tem mais é que se ferrar até cair a ficha que você precisa parar de sacanear quem gosta de ti.

Vai doer. Vai. Como arrancar um dente molar sem anestesia e mais um pouco. Te vira. Dor passa, e depois você estará melhor. É o que se ensina pra homens já faz muito tempo: tu vai levar muita porrada, mas essas porradas podem te fazer alguém melhor, só que tem que aguentar. Invoco aqui novamente as palavras de Rocky Balboa: “Não é o quanto você bate, mas o quanto você aguenta.” Aprender a levar porrada é uma das coisas mais essenciais na vida, e é tão importante quanto aprender que às vezes não é uma porrada o que tá vindo na tua direção, mas você não vai saber até ser tarde demais. Correr riscos.

Quando você aprender tudo isso, será uma pessoa com mais disposição pra tentar, mais capacitada a superar, e terá tempo de achar um cara que não precise “mudar”, porque ele já é o que o babacão de antes só fingia ser.
E vai me dizer mesmo que um cara que é não parece melhor que um cara que finge?





2/07/2011
Insulto
Postado nas categorias Marvin, Diarinho

“E assim foi que em Santa Maria nos separamos
E ela ali permaneceu.
Embarquei para fazer a última viagem.
E eu me lembro do seu ombro
no meu ombro.”
(Nando Reis, “Santa Maria”)

Existem muitas formas de se tentar inusltar alguém. Não é algo que depende de palavras, mas de você ser capaz de transmitir uma mensagem que afete a pessoa de uma forma negativa e inesperada, criando assim um certo nível de conflito entre a visão dessa pessoa sobre o mundo, e o alvo. Disso, podemos concluir que o insulto não precisa ser feito com palavras. Mas também é preciso admitir que as palavras bem-escolhidas ajudam muito.

Existem formas mais ou menos globais (no mínimo bem comuns) de se insultar alguém. Insultar membros da família (”filho da puta”), membros genitais (”ô pinto pequeno”), especular sobre algum desvio da pessoa da norma social (”ô viado”) são as mais comuns. Em algumas línguas funcionam os insultos compostos por uma sequência longa de profanidades (vide o inglês), enquanto em outras fica bem ridículo (por exemplo, em português). E aí temos a categoria de insultos não-óbvios.

É sobre um deles que eu quero falar. Muitos vão lembrar do filme “300″, que foi lançado acho que em 2005. Bem, nesse filme, a tropa de soldados espartanos (os herois) são traídos por um corcunda deformado que o rei Leônidas recusou como soldado. O vilão, Xerxes, então recruta esse sujeito, chamado Ephialtes. “O cruel Leônidas exigiu que se erguesse, meu bom amigo”, ele disse, “eu apenas peço que se ajoelhe”. Típico vilão.

Bom, graças à essa traição, os 300 perdem a batalha das Termópilas (se não estiver acompanhando, veja o filme. Vale a pena). Antes de morrer, Leônidas encara Ephialtes, agora trajado como um general persa, e fala “e Ephialtes… que você viva para sempre“. Se você sentiu um arrepio ao ler isso, é normal. Se você não entendeu, é mais normal ainda. Eu levei anos pra entender. E acho que só fui entender mesmo hoje.

Vejam: Ephialtes queria se juntar aos gregos. Infelizmente, suas deformidades fizeram com que ele não fosse capaz de segurar o escudo e empunhar a lança de forma adequada à formação espartana, logo, ele não poderia ser aproveitado sem se tornar uma vulnerabilidade. Sem opções, ele recorreu aos persas, mesmo sabendo que ele estava errado. Mesmo se arrependendo, e esse arrependimento fica claro nas reações dele. Ele traiu seu povo, se arrependeu, e vai viver para se lembrar disso.

“Que você viva para sempre”. Que você nunca possa esquecer desse sentimento, que cada momento acordado ou adormecido de sua vida seja uma lembrança desse momento, e que a vergonha te consuma.

Não é óbvio, mas é forte. É algo que só funciona na situação correta, e com quem fez por merecê-lo.

Que você viva para sempre.