November 1, 2009

 Apanhar 

“Toda mulher gosta de apanhar, apenas as neuróticas reagem.” (Nelson Rodrigues)

Thays sentia-se desconcertada. Não fazia muito sentido, a página inteira e nada. “Estado civil: namorando”, “Paixões: … Minha namorada …”. Uma declaração no “Sobre Mim”, fotos do casal no álbum (aliás, álbum dedicado também). Tudo como deveria, mas ela não desiste. Tem que ter algo errado. Será que tem algo oculto nas mensagens? Confidências trocadas como testemunhos? Tinha que ter algo. E ela nem estava perto, quem estava com ele? Mandou uma mensagem.

“Amor, saudad d vc.”

Ele respondeu. E rápido, curto e romântico. Suas pernas fraquejam um pouco com a resposta, como sempre, mas ela ainda não está satisfeita. E se ela for compreensiva? E se eles estiverem rindo… Ela liga. Quer saber por que ele não está em casa, falando com ela. Ele explica, diz que logo chega em casa, ela aceita. Faz sentido, mas ela ainda não acredita. Que ruim que é namorar à distância, não posso chegar na casa dele e pegar os dois no flagra. Ela sabe que está sendo traída, ele vive com mulheres, como poderia evitar? E é um belo canalha também, esconde cada detalhe com perfeição, se ela fosse ingênua poderia até acreditar nele.

É domingo e ela está entediada. Súbito, idéia: vou verificar todas as amigas dele. Scrapbooks, depoimentos, fotos. Ela desliga a notificação de visita (é por uma boa causa) e vai. Horas depois, nada. Por mais difícil que pareça de acreditar, parece que seu namorado é fiel. Não que ela planeje aceitar isso assim, sem provas melhores.

Resolve sair atrás do nome dele no Google. E endereços de e-mail, apelidos, tudo o mais. Ela tem muito tempo livre nas mãos, e hoje em dia pesquisar algo assim é bem rápido. Nada também. Ele está completamente limpo, isento, inocente, mas ainda acusado. Ah, ele não ia escapar tão fácil assim, não de alguém tão perceptiva e inteligente quanto ela.

E o namoro foi seguindo, até onde ele sabia, tudo bem. Até onde ela sabia, também, mas só um dos dois acreditava nisso, e os reflexos surgiam, claro. Ela agiu e “reagiu” até que ele não aguentou mais: trocou-a por outra. E depois terminou o namoro, contando tudo. Ela indignou-se, escandalizou-se, mil verbos, todos desagradáveis. Sabia o tempo inteiro que isso aconteceria, estava há mais de um ano prevendo isso.

Em seu interior, uma voz urrava, satisfeita: “Ah, era isso que eu queria”.

October 22, 2009

 Beast inside 

“- Me conte sobre as coisas no porão.
- O que tem elas?
- Me fala sobre essas coisas aí dentro. Elas têm raiva?
- Raiva? (…) Sabe, às vezes é difícil respirar. Como se tivesse essa fera dentro de mim.” (Rocky Balboa, 2006)

Eu tive dois papos muito interessantes hoje. Um foi com a Adri, conversamos sobre nossas diferentes formas de abordar divergências. E conversei também com outra pessoa que eu não vou nomear. Digamos, V. Como “de Vingança”. Bom, com V o papo não foi dos mais agradáveis. Foi uma briga onde um monte de coisas tentaram sair, aqueles detalhes que vão se acumulando até que um dia explodem (por isso a citação de Rocky Balboa (por sinal, o segundo melhor filme da série)).

As pessoas guardam muita coisa. Eu já fui assim, mas não acredito mais nisso. Eu acho que as coisas que a gente fica guardando são perigosas. V me deu uma série de coices semana passada, aparentemente sem motivo. Coisas guardadas explodem. Com certeza fiquei feliz de eu não ser o tipo que guarda muito, senão teria sido bem mais feio, mas eu falei o que me incomodava, e até tentei descobrir os motivos. Enfim, é suficiente dizer que, por enquanto, parece que não estamos mais nos falando. O interessante foi a conversa, foi a primeira vez que eu percebi, conscientemente e na hora, a explosão. Não é uma coisa que acontece súbito, existe uma certa lentidão no processo. Se você parar pra prestar atenção, dá pra ver o ar se expandindo muito rápido, o fogo e os estilhaços. E dá pra conter, também, mais ou menos. Ou então foi assim só hoje.

Interessante foi depois, conversando com a Adri sobre nossas diferentes formas de tratar divergências. Ela pega rotas mais pacíficas, enquanto eu tenho uma tendência mais conflituosa (isso é uma simplificação). Eu discuto, e ao contrário do que rezam as lendas, posso ser convencido, se a outra pessoa estiver disposta a mostrar os argumentos razoáveis pra isso. Não sou senhor da verdade, nem sei de tudo, mas eu não tenho dúvidas sobre o que eu sei e o que eu penso. E eu falo mesmo. Lembro hoje da @ascatia falando que nem todos querem saber verdades; eu quero. Não me incomodo que outras pessoas compartilhem as suas verdades comigo, e pros poucos que tiveram coragem de fazer isso (aparentemente, é preciso ter muita), eu mostrei que aceito bem.

É engraçado que, quando você também está disposto a discutir, menos pessoas estão dispostas a falar. Parece que as pessoas só têm certeza quando sabem que não terão réplica. Eu sei que pareço arrogante dizendo isso, mas é difícil não pensar que eu tenho razão a maior parte do tempo quando todos agem assim. Afinal, qual é o medo de discutir?

Isso me leva de volta ao papo que estava tendo com a Adri, dessa vez um trecho sobre como eu tinha tanta certeza. Estávamos falando sobre caminhos, quais os melhores a tomar. E acho que o mais apropriado é colar um trecho. Espero que ela não tenha problemas com isso :-) alterei um pouco pra melhorar a fluidez do texto.

Adri:
melhor caminho?! existe?
Ornitorrinco:
bom, se existe um número limitado de caminhos, um deles inevitavelmente vai ser melhor que os outros
Adri:
diferentes
Adri:
melhores ñ tm como saber
Ornitorrinco:
com alguns, tem
Adri:
depende do q no momento for o objetivo
Adri:
tem? como eu sei qual é?
Ornitorrinco:
boa pergunta
Ornitorrinco:
a gente segue os instintos =)
Adri:
mas qm diz q eles acertam e escolhem O melhor?
Ornitorrinco:
não sei =) meu truque é não ligar
Ornitorrinco:
eu escolho o que eu vejo como o melhor
Ornitorrinco:
e o resto já era
Adri:
Ornitorrinco, sério, um dia ainda descubro o q é toda essa auto-confiança; ou se é só a carcaça
Ornitorrinco:
haha parte é, e mais uma armadura
Ornitorrinco:
mas não isso
Adri:
acho tao estranho alguem falar com tanta certeza
Ornitorrinco:
eu sei, mas eu tb não entendo como as pessoas falam com tão pouca

E eu realmente não sei. Eu olho pras pessoas tendo dúvidas sobre quase tudo na vida e me pergunto como essa gente toma qualquer decisão. Vai ver por eu ter ouvido sobre isso tantas e tantas vezes, e a pessoa que melhor sintetizou foi o Fernando Anitelli, do Teatro Mágico, em uma só palavra: “Permita-se”. Eu me permito. Pessoas gastam tanto tempo procurando o melhor caminho, eu gasto meu tempo mais pensando se o caminho que estou pegando vai ser ruim. O truque é não pensar muito, porque não adianta de qualquer maneira. “Agora” é o único tempo que a gente tem, e ele é muito curto pra grandes análises. Carpe Diem. Ou Noctem.

Eu já fui muito oposto a isso. Diametralmente. Todos os 180 graus do outro lado (não 360, por favor, lembrem-se disso), eu mais vivia que pensava. Felizmente eu cresci e aprendi com um cara de dreads que a vida tá passando, aprendi com um palhaço que a gente só tem agora, que o resto é bobagem, e isso vale pra tudo. Vejam o meu papo com V: esperou até a última hora pra dizer o que eu fazia que incomodava, e a única coisa que fez pra manifestar esse sentimento foi ficar me escrotizando e mentindo motivos. Eu já passei do tempo em que entendia isso, então nem vou ficar muito no assunto, mas querer compreensão por agir assim eu acho sempre pedir demais.

Quando você adquire esse tipo de “confiança”, percebe que é tão cego quanto as pessoas do outro lado, sobrepensando e meditando. Ninguém sabe o que vem depois. Eu não sei o que vou fazer de um dia pro outro. Certa vez, eu decidi e fui pra São Paulo. Eu decidi e fui pra Santa Maria. Um dia eu acordei e fui de trem falar com o Buda em Porto Alegre. Vários domingos eu já dormi o dia inteiro. O que vem depois? Sei lá. Só sei que parado, pensando no que não vai acontecer, você não vai a lugar algum.

Desafio: conversem com uma pessoa sobre algo que ela faz e te incomoda. Ponto extra se escolherem alguém que não vá aceitar isso numa boa.

September 20, 2009

 RPG Brazilis 

Era o último dia daquela jornada. O nobre Ezwold finalmente chegara aos pés do Monte Apocalipse, lar do Dragão das Eras, uma fera dita imortal, que guerreiro algum jamais havia sobrepujado, para conquistar o Grimório de N’mar’dil, o maior mago sinistro de todos os tempos, e o equipamento de todos os guerreiros que falharam em obtê-lo. Ele circundou a montanha e encontrou, enfim, a entrada para a caverna.

Lá dentro, ele encontrou uma pequena tribo de gnomos das trevas, que foram facilmente derrotados graças à sua perícia no uso da poderosa Espada de Andar, com a qual ele foi o primeiro a derrotar o troll Ulik, o terrível. Adiante, ele chegou ao lago de lava, o qual apenas aqueles capazes de cruzar pelas estalagmites que magicamente resistiam à lava poderiam cruzar. Um guerreiro com uma armadura corporal completa certamente pesaria demais para a tarefa, se não fosse a presença das Botas de Bóreas, conquistadas em combate contra o maligno elfo negro An’him, que reduziam o peso do seu utilizador e permitiam andar até pela mais fina camada de gelo com a mais pesada das cargas. O lago de lava não teve a menor chance.

Além da próxima passagem, havia um corredor escuro, com surtos de luz ao fundo. A travessia foi longa e cuidadosa, mas não haviam armadilhas preparadas. Ao final, ele viu a origem das luzes, o bafo flamejante do Dragão das Eras, que estava… roncando?

Aparentemente, Ezwold chegou na hora da soneca do Dragão das Eras. Sabendo reconhecer a oportunidade e, talvez, a sua melhor chance, ele investe com um poderoso golpe contra o pescoço da fera, apenas para que a assim dita invencível Espada de Andar se quebrasse. O dragão aparentemente nada sentiu. Ele pega sua menos invencível Claymore, com as runas de fogo que os druidas lhe deram, que quebra tão facilmente. Nada ainda. A massiva clava Esmagadora, leve como uma pluma, mas capaz de desferir terríveis golpes, faz com que o dragão tenha sua primeira reação digna de nota.

“Deixa eu dormir, porra.”

Ezwold está sem ação. Ele olha para seu arsenal humilhado, e olha ao redor. Não parece que ele seja um oponente à altura. O Dragão das Eras mal percebe a sua presença, e…

“Ô narrador!”

Hã? Eu?

“Sim. Escuta, já que o dragão parece que não vai colaborar, e que a história foi pro saco, que tal se a gente fizer um acordo?”

Comoassim? E como você está falando comigo? Que raios de acordo, vai lá matar o dragão, ou morrer tentando, você está estragando a minha história!

“Tive uma ideía melhor: você ‘vai ao banheiro’ e, na volta, talvez encontre algumas peças do tesouro escondido do Dragão das Eras, o que me diz?”

Hmmm…

“Talvez algumas páginas do Grimório de N’mar’dil, também.”

Galera, já volto, a natureza chama.

..

….

.

Onde eu estava? Ah, sim, o grande e nobre Ezwold conseguiu ser o primeiro a tirar o Grimório de N’mar’dil da posse do Dragão das Eras, cumprindo sua missão, ganhando 34500 XP e 10000 GP. Agora, vão lá que eu vou ler uns… e-mails.

September 8, 2009

 Mar 

Morar na praia tem um elemento engraçado: você nunca está sozinho. Às vezes eu gosto de sair, no fim de tarde, pra caminhar pela areia vazia (porque existem praias onde ninguém quer ir, e essas são as melhores, onde você encontra os deuses antigos do mar e pode beber e trocar histórias com eles), e ouvir aquilo que está por todo lugar, em toda cidade: o quebrar de ondas do mar.

Água vem, água vai, e o som começa forte, intenso, mas vai se reduzindo, ficando mais devagar, mais calmo, mas não pára. E quando ele ameaça parar, vem outra onda e tudo começa de novo. Esse som está na beira do mar, mas também está dentro da cidade. Quem vive perto do mar sabe desse som em todos os lugares. O vento carrega para dentro da casa mais fechada, e a música mais alta não abafa. É o som da alma coletiva da humanidade explodindo palavras e emoções que somem, uma alma individual de cada vez.

Estar com saudades é como viver em uma cidade com praia.

August 31, 2009

 Privacidade 

A internet vai acabar com a vida privada?

Aceitem os fatos, dinossauros: comunicação via internet veio para ficar. Vocês podem reclamar o quanto quiser sobre como é impossível conhecer pessoas sem ser cara-a-cara, como não é a mesma coisa, como existem coisas faltando, e tantas outras reclamações sobre as quais vocês poderão até estar certos. E em alguns casos até estarão certos, mas não importa, a tecnologia avança, e se o melhor uso que vocês podem fazer dela é para reclamar no twitter/orkut/facebook/afins sobre como twitter/facebook/orkut/afins é ruim, então sai da frente, que eu vou me adaptando (e saindo do seu jardim).

Minha motivação é o caso da professora infantil que foi filmada dançando “Todo Enfiado”, com a “coreografia” e tudo. Foi demitida. Se tivessem demitido ela pelo gosto musical, eu entenderia. “Todo Enfiado”, por acaso isso é nome de música? Já existe a “Dança Vadia, Que Eu Quero Te Comer”? Se não existe, descobri o hit do próximo verão.
Mas divago.

Eu tenho certeza que o principal argumento foram as “más influências” que ela pode exercer sobre os seus alunos. Imaginem o horror, quando criancinhas de 5 anos começarem a se vestir como prostitutas e a dançar ao som de melodias libidinosas de forma erótica.
Se bem que isso já existe, e se chama “Rebeldes”, que, pelo que eu entendo, faz um puta sucesso, com aval dos pais. Não, não deve ter sido pelas “más influências”, em especial porque ela não fez isso em aula, não fez isso na escola, fez isso num festival de pagode (ou como quer que essas zorras se chamem), em seu tempo pessoal, e imagino que sem levar qualquer aluno junto. E teve o azar de ser filmada, e ter ido parar na internet. E aí vem várias pessoas (e, se formos pesquisar cada uma a fundo, eu imagino que vamos descobrir que várias delas fazem coisas tão “ruins” quanto ou piores, sem câmeras por perto — ou com, vai saber) chegam pra julgar.

Essa demissão me lembrou um assunto que surgiu esses tempos em uma reunião na empresa onde eu trabalho: regras de conduta em redes sociais, para qualquer um que se apresentar como funcionário da empresa. Ou seja, se eu disser o nome da empresa no twitter, de repente não posso mais defender posição como ateu, não posso falar mal de certas empresas cujas práticas e/ou produtos eu não gosto, além de ter que manter uma conduta como se estivesse o tempo inteiro no trabalho.
Mas peraí!
Não estão me pagando para isso. É o meu lazer, comoassim a empresa acha que pode determinar o que eu faço no horário no qual eles não estão me pagando? Isso é baseado em quê? Eu não sou um representante da empresa, sou adulto e responsável pelo que escrevo. Se eu escrever um livro (é, sonhe!), a empresa vai poder ditar o tema?

As empresas têm direito de exigir conduta fora do trabalho? Quais as opiniões de vocês sobre isso? GO!

August 22, 2009

 Protesto silencioso 

Toda revolução é sangrenta. Acho que foi Malcom X que disse isso, ou algo assim. A história do século XX teve grandes marcos nas guerras. A história anterior, também. O status quo raramente mudou em silêncio, mas aconteceu bastante no Brasil. A nossa independência foi comprada, nossa república foi só uma mudança de mãos do poder. O povo sempre teve a voz silenciosa da reclamação de bar, de salão.

Deixando o passado mais distante de lado, chegamos no mundo dos anos 60. A ditadura tentou silenciar a oposição e aí surgiram os grandes artistas. A música de protesto, que se estendeu por anos. Até hoje, aliás, embora hoje ela esteja praticamente morta. Foi comprada, esqueçam. E a música também já atingiu seus limites, hora de mudar de tática. Ou melhor, de somar táticas.

Música é propaganda. Ajuda a espalhar as idéias, o que é ótimo, mas pára aí. Eu já fui em shows onde a banda falava como se ao sair dali Sarney iria para uma cadeia. Se eu não tivesse certeza de que seria linchado, teria dito “Pô, não é por aí! Já notaram que todas as 20 pessoas aqui concordam com vocês?”.
Sim, porque o show era num moquifo vazio, e não tinha nem 30 pessoas no lugar. E todas concordavam com a banda. Notaram a falha?

É como a idéia do “protesto”. O “protesto indignado”. O “protesto silencioso”. Todos estão protestando, mas pra quê? Notaram que o Sarney está lá? O Lula é popular, FHC teve dois mandatos, e ninguém saiu por protesto. Dizem que o Collor, mas ele estava tão queimado que os caras-pintadas dificilmente seriam necessários. Minha teoria é de que eles foram uma extensão do mito do movimento estudantil. Felizmente, esse é um dos que já foi por terra, espero.

E claro, espalhar a idéia é uma boa, mas e depois? Quando você tiver um número razoável de pessoas que pensam como você, o que você faz? Partimos para a luta, certo? ERRADO. Revolução Russa. Revolução Francesa. A queda do Império Romano. Todos mudaram absolutamente nada. Derrubar estruturas de poder podres e depois instalar algo novo e melhor com certeza tem o seu valor, mas ignora o passo essencial: a manutenção.

A história mostra que o estado que as coisas são não muda. O poder tende a se concentrar na mão de poucos, e esses poucos abusam, até serem derrubados. Motivos pra isso seriam desviar do foco, mas vejam bem: é constante. Por que é constante? Por que as coisas mudam tanto e tão pouco sempre? Existe um padrão aí.
Interlúdio: quando eu era pequeno, eu era daquelas crianças que gostavam de Lego. Não que gostasse de brincar com ele, minha diversão era montar coisas, admirar por algum tempo, e destruir pra fazer outra. Passei muitas horas assim.
O padrão é que os revolucionários chegam, constroem, e depois vão embora. E surgem os parasitas. Acabei de perceber como isso também é parecido com o ciclo vital: nascemos, nos desenvolvemos, e então decaímos e somos decompostos. A diferença, aí, é que o organismo não tem opção, mas estruturas hierárquicas têm. E é nesse ponto que eu queria chegar.

Precisamos desabafar. Precisamos espalhar as idéias. Diachos, até uma revolução nas ruas é importante, ocasionalmente. Mas não basta. Chegar no ápice é importante, mas mais importante é manter-se lá. É afastar os parasitas. É o passo que falta: revolução nas urnas.

As pessoas reclamam da democracia. Reclamam de ter que votar, de que não tem em quem votar, mas vão e votam. Democracia é tão liberdade que o voto é obrigatório. Irônico, não? E, apesar das reclamações e queixas, como é que os mesmos nomes sempre voltam pro poder? Os mesmos nomes todas as vezes. É a falha no terceiro e mais importante passo, a revolução nas urnas. A democracia precisa do seu voto. Se você tem um candidato, apoie-o (só não saia sujando a cidade, por favor), vote nele. Se você não tem, então diga bem alto que não tem ninguém que merece seu apoio. Não vote no menor dos males, porque ele ainda vai te prejudicar.
E por que não se candidatar? Não como um candidato zombeteiro (embora eu adore um bom palhaço), mas como um candidato sério. E, se for eleito, ao invés de ceder aos impulsos, agir direito? Porque os eleitos têm opção, e quando vierem te oferecer algum suborno, você pode simplesmente dizer não. É algo a se pensar. Podem ter certeza que eu ainda vou aparecer em alguma cédula.

Precisamos de bons candidatos pra manter o que se construiu. Pra recuperar o que está se desfazendo. É hora de parar de desmontar os brinquedos e começar a brincar.

“Se eles já sabem quem somos, por que não falamos mais e mais alto?” (Jello Biafra)

July 28, 2009

 Um 

“Vaidade. Definitivamente é o meu pecado favorito. (Al Pacino, “Advogado do Diabo”)

Era um dia longo de uma vida longa, e ele não tinha nem 22 anos ainda. Caminhava pela cidade com tédio estampado no rosto e no corpo. Seus ombros demonstravam tédio. Suas pernas pediam ação. Mas a vida não é assim. Tédio é a soma dos dias, é o que mais acontece. Murmurou para si, “Droga, eu venderia a alma para…”

“Nunca diga que venderia a alma”, disse o velho. Era óbvio que era velho, apesar dos cabelos negros e da pele lisa. A voz era estranha, familiar, como a voz que todo velho tem e que lembra algum amigo de nossos avós, todos com as mesmas vozes arranhadas e fala arrastada do fim dos dias. “Nunca diga que venderia a alma”, disse o velho, “pode aparecer quem compre.”
“Hah. Se aparecer, eu vendo. E quem é você?”
“Alguém com alguns anos há mais de vida, e muitos passos à frente na sua estrada. Lembre-se disso. E eu era um mestre.”
Velho estranho, mas, como diz o ditado, “Quando se está no inferno, o que custa tomar um capuccino com o diabo?”. Foram.

A cafeteria fedia. Baratas faziam uma eleição e marcavam os votos na poeira dos balcões. Até a atendente parecia empoeirada. O café tinha gosto de suco de meia velha, e certamente nem um traço de chocolate, mas isso não importava muito. Até que era bom.

“Eu era um mestre”, recomeça o velho, “nunca chamei ninguém de senhor. Não, não. Esse era um privilégio a ser alugado, e assim eu e quem quer que fosse saberíamos que o único mérito era dinheiro. Eu ainda era mestre. E as mulheres, ahh, as mulheres. Mulheres sempre tentarão dominá-lo, garoto, lembre-se disso. Elas sempre querem mandar, no final das contas…”
“Mas não em mim. Isso eu garanto”, interrompeu Jonas. O velho pigarreou. Seu pulmão parecia podre.
“Se garante, é? Eu também me garantia, muito tempo atrás. Mas caí da mesma. Muitas mulheres conseguiram mandar em mim sem eu perceber. Mais espertas que o diabo, elas são. Mas eu sempre percebia. No começo eu não levava a sério. As primeiras escaparam.”
“Escaparam? Eu diria que foi você que escapou.”
“HAH. Ninguém realmente escapa. Ninguém. Só conseguimos algum tempo extra. E o tédio, ah, só esse mandava em mim, assim como manda em você. Desse somos todos peões.”
Jonas rolava os olhos. A história parecia não terminar nunca.
“Foi quando eu falei em vender a alma. E, como eu lhe disse, às vezes aparece um comprador. Naquele dia apareceu. Faz tanto tempo que não me lembro mais do rosto que tinha, mas o cheiro ficou na minha cabeça. Como repolhos podres, como mijo, como o lixo que você acumula num canto da sua casa e um dia domina o ambiente com seu fedor.
Ele fez uma oferta que eu não podia recusar, e eu não recusei. E tudo mudou. Tudo continuou o mesmo, também, mas tédio era passado. As pessoas passavam mais rápido, mas talvez eu estivesse vivendo mais sem notar. E me obedeciam. Meus chefes me obedeciam. Mulheres me obedeciam. Os que se recusavam, bom, não escapavam mais, he he he…”
“Como assim…?”
O velho passou o dedão esticado pra fora do punho pelo pescoço, e por um segundo realmente parecia uma faca. Os olhos de Jonas se arregalaram. “RRRRRRRRIIIIIIPPP”, disse o velho, voz rasgando.
“Me prenderam algumas vezes, até, mas nunca por muito tempo. Logo eu estava fora”, e dessa vez Jonas não perguntou. Sua intuição lhe dizia qual era a resposta, “porque não fazia sentido ser o último vivo no presídio e ficar lá.” Era uma intuição muito boa mesmo.
O velho serviu-se outra xícara de café.
“Mas você não dança com o demônio sem se queimar. Um dia ele veio, meu benfeitor, e quis mandar em mim. Eu não aceitei, claro.”
Jonas ia fazer a pergunta, e ouviu em sua mente, “RRRRIIIIIIPPP”. O velho sorriu. Não tinha mais a intuição de Jonas, mas sabia ler as pessoas. Você não chega até certa idade pra isso, embora chegue lá já bem lento.
“E eu continuo aí.”
“Bom, belo anti-clímax”, disse Jonas, “e um belo conto também. Uma historinha bonita. Só que o seu caso não é o meu caso.”
“Não, não é”, disse o velho, balançando a cabeça baixa, da maneira que alguns velhos fazem.
“Mas eu não entendi uma coisa: como você escapou do seu contrato?”
O velho riu, e fitou Jonas. Por um segundo houve um brilho vermelho e…

Silêncio.

Quase.
Cinco.
Minutos.

O velho se levanta. Faz um movimento para ir, mas Jonas o agarra pelo braço. “Eu aceito.”

Um sorriso. Ato falho.

July 17, 2009

 Pizza 

Que no Congresso tudo acaba mal, ou, em bom português, em pizza, nenhum brasileiro mais deve ficar surpreso. Nós conseguimos, montamos uma estrutura auto-suficiente de poder, onde o povo serve apenas para ratificar a permanência dos mesmos velhos nomes no poder. Me pergunto de onde as pessoas ainda tiram a idéia de que democracia é uma boa. Só falta de idéia melhor pra explicar isso, mesmo.

Que a nossa democracia representativa é falha, todo mundo fala. E até o presidente, que soltou a sua melhor pérola ontem (e a primeira a ser esquecida, provavelmente). Quando perguntado sobre a CPI, o Presidente Lula aproveitou pra dar uma cutucada legal, e dizer que só queriam chamar atenção, e que “Todos eles são bons pizzaiolos”.
Obviamente, o Senado não gostou.
Mas eu gostei.

Acho que nunca gostei tanto do Lula no poder quanto agora, e já teve vários momentos que eu achei o máximo a eleição dele. Gostei de finalmente a mídia estar dando atenção real ao que acontece nos bastidores (quando o governo era de direita, se vocês bem se lembram, nunca tivemos tanta cobertura do que se faz de errado lá em cima), assim como gostei de como o Lula fez sucesso lá fora. Não acho mais que a eleição dele tenha sido uma idéia tão má assim.

Porém, divago. A reação dos senadores reverberou longe, dentro e fora das paredes do Senado. Seguiram até a regra dos revolucionários de cadeira, e postaram sua indignação no twitter! Urru, vamos salvar o mundo das cáries em 140 caracteres!
Saca só:

@joseagripino O destempero verbal do presidente Lula com a estória do pizzaiolo é um caso típico de TPCPI: Tensão pré-CPI http://migre.me/3IlQ

@marconiperillo Lula chama senadores de pizzaiolos. Repudio,a atitude impensada e inadequada do presidente da República.

@marisa_serrano Achei absurdo o que vi nos sites de notícias sobre a declaração de Lula de que senadores da oposição são pizzaiolos. Rebati em Plenário.

@alvarofdias LULA se tornou o maior pizzaiolo do país quando não tomou providências e não puniu os acusados de seu governo envolvidos em corrupção

@delcidio Não concordo com as declarações do presidente Lula sobre os “pizzaiolos”. O senado tem é “grands chefs”.

Reclamações de nível. Ao invés de fatos, temos contra-acusações! E é assim que todos serão adequadamente esquecidos, no momento certo.

Mas se tem uma categoria que (espero eu) não vai se esquecer tão cedo, é a dos… ta-da-da-daaam PIZZAIOLOS! Num acontecimento digno de um final de piada, os pizzaiolos se ofenderam de ser comparados com Senadores! Eu estou louco para ver como o CQC vai aproveitar isso. Com sorte, veremos Rafinha Bastos oferecendo pizza nos corredores do Senado.

Mas cara, na boa, quando o Presidente diz que o Senado não presta, através de uma metáfora, e o Senado, ao invés de mostrar que ele está errado, ficam reclamando no meio do serviço, e acima de tudo, o grupo mencionado na metáfora se ofende…
Em um dos seus álbuns, gravados anos atrás, Jello Biafra afirmou que o então presidente Ronald Reagan não passava de uma marionete dos verdadeiros detentores do poder, as corporações, que estava lá apenas para divertir o públ… povo estadunidense (”Meus personagens de desenhos favoritos (quando estava crescend) eram Bullwinkle e o Senador Everett Dirksen”, ele diz, em um desses discos). Me pergunto se Lula e o Senado não estão lá apenas como marionetes de si mesmos e dos outros, distraindo o povo com esse tipo de piada, enquanto roubam e/ou angariam mais e mais poder político.

Pensando bem, não tenho muitas dúvidas sobre isso.

July 5, 2009

 Filantropia 

Eu sempre digo que software não é coisa que se venda para usuários pessoais. Só quem paga mesmo por software (excetuando-se uma minoria) são aqueles que são bem fiscalizados, interna e externamente. Ou seja, empresas.

O usuário residencial trata seu computador como se fosse uma TV, que só se paga uma vez, e talvez a assinatura da TV à cabo (e, se considerarmos conexão com a Internet, é possível ver que a analogia é bem adequada). Pessoas não compram Windows, Office, muitos não compram jogos, a maioria baixa filmes e músicas de graça, usa anti-vírus gratuito, freewares para todo o lado… e têm suporte de graça, também.
E ninguém pensa que todas essas coisas tem valor. Logo, devem ter um custo associado, não importa quem o pague (ou então eu tenho um entendimento errado sobre esse ponto de economia). Alguém trabalhou para fazer isso, e podem ter descoberto algum modelo de negócios que permita distribuir o programa de graça. Ou talvez seja apenas hobby. Mas tem uma área onde isso não é possível: suporte e manutenção de computadores.

Tenho certeza que todos os entendedores de computador lendo esse texto reconhecem a seguinte frase, provavelmente em um ponto quase irritante: “Ah, vc entende de computadores? Olha só, o meu tá com um problema…”. A resposta correta para essa frase seria assumir uma cara de paisagem e ignorar, ou se prontificar pra formatar (”Não, não tem como salvar seus dados, sinto muito! :-(”), ou ouvir e dizer “O problema pode ser tal, mas pra ter certeza eu teria que ver pessoalmente. Esse é o meu telefone, me liga e a gente marca um horário para eu ir até lá”. E cobrar a visita. Não em uma pizza, um “favor” (possivelmente a moeda de valor mais flutuante da história da economia), ou algo assim, mas na mesma moeda usada por profissionais de todas as áreas: dinheiro.
Porque eu até posso fazer isso por diversão, mas também precisamos fazer supermercado.

Eu sei o que a maioria dos usuários pensa disso. “Ai, mas o que que custa, vc sabe resolver, prq não me ajuda?”, e a resposta é a mesma que seu médico, advogado ou arquiteto lhe daria caso você lhes pedisse “ajuda” similar: porque ninguém trabalha de graça. Não sou contra, e até realmente ajudo, um círculo pequeno de pessoas próximas. Mas tem que ter muita amizade pra poder me pedir algo assim e esperar que eu realmente faça o serviço pra valer. Pra não passar por antipático, eu costumo enrolar a pessoa: abro alguns programas, dou uma olhada no registro do Windows, penso em alguma outra coisa e digo que não sei resolver, e que é melhor chamar um técnico. Do tipo que cobra.

É uma tremenda sacanagem esperar que seu conhecido que entende de computadores resolva todos os seus problemas por 4 motivos, que vou explicar com uma analogia com carros:

  1. Mecânico nenhum vai consertar seu carro de graça, embora alguns mais camaradas não cobrem pelo diagnóstico
  2. Aprender como funciona e como consertar carros leva tempo e dinheiro, e é algo que merece compensação
  3. Mesmo só diagnosticando o problema, o mecânico vai estar te cedendo seu tempo e conhecimento. Pense nisso
  4. Contratar e pagar um mecânico profissional movimenta a economia (é dinheiro circulando)

Você não espera que nada para o seu carro seja gratuito. Na verdade, se você for como eu, provavelmente antecipa que qualquer coisa envolvendo o seu carro vai lhe custar os olhos da cara. Entenda: seu computador não é diferente. E vai ser pior que o seu carro, porque além da parte física, vai ter o custo do software. E as complexidades do software, com as quais você, querido usuário, não quer lidar. E aí o problema é seu.

Computadores são máquinas multifunção. Eles podem realizar virtualmente qualquer cálculo matemático, e podem atingir os mesmos resultados práticos que a manipulação de números consegue. Tudo em um computador são números (na verdade, até números são uma abstração, mas isso foge do escopo do texto), e apesar dos avanços dos últimos anos para simplificar o uso de computadores, o que roda por trás dessa simplicidade toda ainda é extremamente complexo. O seu conhecido que entende de computadores escolheu aprender parte disso, e a sua recompensa é não ter que chamar o técnico a cada problema. Você repete o mantra “tenho mais o que fazer” e vai assistir televisão, e aí o problema é seu. Não é difícil aprender a identificar quais endereços e quais tipos de e-mail são perigosos, ou como melhor reaizar tarefas básicas para evitar que seu computador exploda na sua cara (aliás, isso é um absurdo. Computadores explodem, mas derretimento é igualmente provável), e se você não pode se dar à esse trabalho (eu e seu conhecido que entende de computadores pudemos, e temos belas vantagens) para assistir o enésimo episódio de mesmo enredo da sua série de TV favorita, pague o preço. O preço cobrado pelo técnico.

Caso pessoal: certa vez, fui com meus pais almoçar na casa de um amigo deles. O tal sujeito, ao saber que eu faço Ciência da Computação, pediu pra eu ver se eu podia deixar o seu computador mais rápido. Eu disse que podia tentar, fui lá, verifiquei meus e-mails, feeds, orkut, voltei e disse que fiz o que podia, e que deu uma melhorada. Tempos depois, fiquei sabendo que o sujeito estava agradecido, que a velocidade realmente tinha melhorado. Detalhe: a instalação do Windows era bem recente, e ainda não tinha os danos que ele já deve ter causado.
Não me sinto culpado por ter agido assim. Ele recebeu o serviço pelo qual pagou, o que eu considero uma filosfia importante para qualquer um que trabalhe na área: dê a eles o serviço pelo qual pagaram. Você não deve nada além disso.

Caso pessoal 2: eu recentemente postei um tutorial rápido, simples, objetivo e bem completo sobre como configurar um modem 3G no Linux. Isso atraiu e ainda atrai bastante visitas, e também parasitas. Veja alguns comentários que não passaram pela minha triagem:

Name: Antonio Marcos | E-mail: antmarsousa@msn.com | URI: | IP: 189.97.230.21x

Amigo você pode me ajudar? eu quero usar linux no meu not mais nenhum ainda consegui fazer conexão com a net, pra eu usar tem que ter net. meu modem é um huawei E156. por favor me ajude mande-me pelo meu email

Name: kobold_sequelado | E-mail: kobold_sequelado@hotmail.com | URI: | IP: 189.0.234.14x

eu tenho um huawei e156 e uso windows vistas, porém o modem tem um problema constante, quando to jogando jogo online ele da um pico q acho ser de upload e trava o jogo. mas net ainda esta conectada. existe algum mei de se resolver isso ?
to meio desesperado.
=-p
manda um email com o titulo 3g ou e156 pls.

Essas são pessoas de quem eu estou falando. Os dois me irritaram pelo mesmo motivo, o pedido de enviar instruções por e-mai. Ora, se querem um retorno, voltem ao blog e releiam a seção de comentários, que é o único lugar onde eu respondo, a não ser que eu esteja de ótimo humor. Outro motivo é que ambos são idiotas completos: um quer usar linux e obviamente não seguiu o tutorial, e provavelmente usa outra operadora ou algo assim, e não entendeu que não se estende para o caso dele; o outro é um idiota que não entendeu que o tutorial é para Linux, e que eu não sou suporte técnico para Windows, em especial o “Vistas”. Por que eu deveria aceitar ajudar gente assim?
Não receberam resposta até hoje, mas ambos estarão recebendo em seus e-mails o link para esse post, que eles não lerão, mas que os irritará :-) e essa é toda a diversão que eu espero tirar disso.

Houve um outro sujeito que também pediu ajuda.

Name: Eduardo Luna | E-mail: lunadudu@gmail.com | URI: | IP: 189.0.236.24x

Otimo tutorial, estou baixando o fedora 10 para usar este turorial e instalar o meu e156 da vivo, mais gostaria de saber se no fedora(nao conheco muito) tem como voce mudar a rede dele para WCDM ao inves de GSM? Aqui em recife conectado em WCDMA(inicialmente só conseguir no windows, tentei no ubuntu e no debia e nao obtive sucesso com WCDMA só GSM).
Parabes pelo tutorial e espero um retorno seu.
abraco

Esse teve uma abordagem BEM melhor que os primeiros, mas pediu conhecimentos que eu não tenho. Claro, eu poderia pesquisar no Google para ver se acho a resposta, mas ele também poderia, e sendo o maior interessado, acho que é a pessoa que deve fazê-lo. Eu PODERIA ajudá-lo, mas nisso estaria falhando na minha lista de motivos acima (notem que ele falha em quase todos os items).
Mas é o único que me faz sentir algo próximo de lamentação por não ajudar.

Em nenhum desses casos a pessoa me ofereceu qualquer tipo de compensação, e eu duvido que pudesse extrair algum conhecimento válido disso. Eu não tenho, realisticamente, motivos para ajudá-los, a não ser que vocês contem aquele sentimento gostoso de ficarmos felizes por ter ajudado alguém que precisava que as pessoas costumam considerar compensação válida por consertar o seu computador. Me digam, por que eu deveria fazê-lo?

Agora, eu sei que existem por aí diversos técnicos ruins, que vão simplesmente te dizer para formatar o seu computador (dica: os piores “técnicos” fazem isso mesmo que não seja necessário). Não discuto, e na verdade, sou o primeiro a falar isso. Não é meu ponto. Existem maus médicos, maus advogados (com o perdão da redundância), maus mecânicos… é seu dever pesquisar e identificar esses caras, e evitá-los. Simples assim.

Como eu disse, o problema é seu. Não espere que seu conhecido que entende de computadores o resolva por você. Ou que eu o faça.

June 14, 2009

 Ornitorrinco 10 

ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde

Era uma vez uma floresta indistinta, verde, com animais, árvores e arbustos, e lagos. A única característica que diz respeito a esta história é que ela não era do tipao habitado normalmente por ornitorrincos. Não que ornitorrincos nunca habitassem florestas como aquela, não é isso. Isso seria preconceito. Eles simplesmente não costumavam ir até aquela, e era isso.

Quero dizer, exceto pelo fato de que, naquela floresta, havia um ornitorrinco. Não era nativo, pois, como mencionei antes, essa espécie não é nativa de lá. Era um visitante. Mas também não era um simples visitante. A verdade é que AQUELE ornitorrinco era de lá, nasceu em algum lugar e lá cresceu. Não que se encaixasse, e não que fosse feliz, simplesmente lá estava. Também não era infeliz. Simplesmente era, sem se preocupar demais com nada. Não sabia e nem tinha como saber que, em outros lugares, florestas melhores possuíam outros da sua espécie. Mas não contemos isso para ele, pois não é nosso papel e me forçaria a mudar o título da história.

É, mudar o título, ou tirar a parte que diz “ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde”, pois, em uma incrível mostra de coincidência, em todos os lugares do mundo não havia uma Fada Verde caindo do céu.
Quero dizer, em quase todos os lugares. Bem em frente ao nosso amigo ornitorrinco, isso aconteceu. Caiu do céu uma Fada Verde, com letras maiúsculas no começo e tudo. Como eu sou preguiçoso, vamos dar-lhes nomes curtos. O ornitorrinco será chamado de Dann. É apelido para seu nome verdadeiro, Dan, com um ene. E a Fada Verde, bom, não vamos chamá-la de Fada ou de Verde, porque são genéricos demais. Também não podemos saber seu nome, a não ser que ela resolva contá-lo para nós — uma peculiaridade de seres mágicos. Eu normalmente inverteria o nome, porque é divertido, mas Edrev Adaf parece o nome de ditador maníaco de um país islâmico, então vamos misturar isso. O nome dela será Adre.

Agora, deve ficar mais fácil.

Como eu dizia, havia um ornitorrinco insatisfeito chamado Dann que presenciou a queda de uma Fada Verde chamada Adre. Imediatamente ele percebeu algo de errado, pois o normal seria algo assim ser precedido por uma vista sua a fada, para posterior retribuição. Mas não é assim que aconteceu dessa vez. E chega de enrolação.

Dann correu até Adre, sem saber que seu nome era Adre, ainda (lembrem desse detalhe, ele vai ser importante para entender o diálogo abaixo). Abaixou-se para ver como ela estava, e nisso ela levantou de um salto. “Oi”, disse, “só retribuindo a visita”. “Visita?”, Dann perguntou, confuso, “mas eu nunca te visitei, lembra? Não nesse conto, pelo menos. Tente preservar a quarta barreira”, complementou, com olhar solene para a brecha na estrutura literária. “Hmm, prometo tentar”, disse Adre.

“E qual é o seu nome?”, perguntou Dann (não deixem que essa pergunta os confunda, lembrem-se que Dann ainda não conhecia o nome de Adre. Isso está prestes a ser resolvido). “Meu nome é Adre, muito prazer, e o seu?”, é o que ela teria respondido, caso não fosse da natureza de seres mágicos não revelarem seus nomes facilmente assim. Para agilizar a história, vamos considerar que essa foi a sua resposta.
“Meu nome é Dan, mas meus amigos me chamam de Dann.”
“Hmm, e como posso chamá-lo?”, perguntou Adre, que não sabia dizer a diferença, apenas ouvindo.
“De Dann”, e essa resposta confundiu Adre, que resolveu simplesmente aceitar o conselho sem entendê-lo mesmo.
Silêncio
Adre ficou confusa, pois Dann apenas a encarava. Não estava entendendo qual era o problema daquele cara. “Dann, sabe me dizer aonde estou?”
“Exatamente aqui é a resposta que me dou quando essa pergunta me ocorre, mas confesso que também não tenho a mínima idéia.”
“Hmm, e como saio daqui?”
“Boa pergunta. Nunca pensei em fazer isso. Mas não quer ir até o lago refrescar a cabeça? A queda pareceu bem feia.”
“Não se preocupe com isso, eu sou bem forte. Não costumo me machucar fácil, sou bem forte.”
“É mesmo? Pra mim parece tão frágil”, e Dann tinha razão aqui. O olhar de Adre era caloroso, seu sorriso era angelical, e sua constituição parecia implorar por alguém que a defendesse contra qualquer coisa. Claro, talvez ela não parecesse tão assim, mas essa certamente foi a impressão que Dann teve. Embora, talvez, fosse apenas ele que percebesse isso como consequência da necessidade que ele de repente sentia de protegê-la. E de tê-la por perto.
Mas recompôs-se. Não fazia sentido imaginar uma Fada Verde querendo algo com um ornitorrinco. Era uma esperança muito distante. Não, ele deixou esses pensamentos tão de lado quanto pôde, e foram-se ao lago. Lá, ela se lavou e sorriu, como sorriem as pessoas depois de se limparem. É um sorriso mais alegre. E ele não pôde deixar de notar como ela, sorrindo, ficava ainda mais bonita.
“Então, o que um ornitorrinco faz, tão longe de casa?”
“Casa? Nunca tive, sou um nômade. Vou a um lugar, e depois vou à outro. Não tenho realmente nada que me prenda.”
“Quer dizer que você deve saber bem aonde estou, ou pelo menos como sair daqui.”
“Saber eu sei, mas por que você iria querer isso?”
“Bom, é o meu lugar, afinal de contas.”
“Nada tem lugar, salvo o que escolhem. Sente falta de alguém, lá?”
“Não, na verdade não, mas tenho coisas que tenho que terminar antes de poder sair para o mundo.”
“Entendo. Bom, então vamos que eu te levo até lá.”

No caminho, em uma longa conversa que tenho certeza que qualquer um poderia ter com uma árvore, caso resolvessem dar ouvidos à árvore, Dann explicou sua vida na floresta, e ela para ele. Conversaram sobre confiança, companhia, crenças, idéias, músicas (se você nunca ouviu música em uma floresta, só pode ser azarado, surdo ou nunca ter ido em uma), e antes que percebessem estavam no limiar da floresta. Dali, era para outro lugar, e era onde Adre podia se achar sozinha. Se abraçaram, e ela foi embora.

Ok, não foi assim. Dann resolveu não fingir, e disse o que sentia por Adre, que, desconhecido para ele, tb retribuia, de certa forma. Beijaram-se, e ele pediu que ela ficasse com ele. Ficou, e no futuro tiveram uma filha chamada Sofia.

Tá, esse final também não tá exato. O que aconteceu mesmo é que se abraçaram, e Dann percebeu que ela não o soltava, e o puxava para si. Beijou-a e ela disse “fica comigo mais um pouco”. Ele respondeu “se você quiser, fico contigo a vida inteira”. “Eu quero”.

E, dez anos depois, realmente nasceu uma filhote chamada Sofia.

 home  Admin  e-mail  flickr  orkut  twitter/ornitorrinco

Os comentários aqui são moderados. Isso significa que eles têm que ser aprovados antes de aparecer.

Em caso de dúvidas, e-mêia eu, tio.


Links:
Categorias:

Arquivos:
November 2009
M T W T F S S
« Oct    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  


Feeds:
Dessa vez, template feito totalmente pelo Ornitorrinco



spam poison   

Eliminate DRM!
Proteja sua liberdade!


BlogBlogs.Com.Br

Pingar o BlogBlogs

Adicionar aos Favoritos BlogBlogs

Creative Commons License