June 14, 2009

 Ornitorrinco 10 

ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde

Era uma vez uma floresta indistinta, verde, com animais, árvores e arbustos, e lagos. A única característica que diz respeito a esta história é que ela não era do tipao habitado normalmente por ornitorrincos. Não que ornitorrincos nunca habitassem florestas como aquela, não é isso. Isso seria preconceito. Eles simplesmente não costumavam ir até aquela, e era isso.

Quero dizer, exceto pelo fato de que, naquela floresta, havia um ornitorrinco. Não era nativo, pois, como mencionei antes, essa espécie não é nativa de lá. Era um visitante. Mas também não era um simples visitante. A verdade é que AQUELE ornitorrinco era de lá, nasceu em algum lugar e lá cresceu. Não que se encaixasse, e não que fosse feliz, simplesmente lá estava. Também não era infeliz. Simplesmente era, sem se preocupar demais com nada. Não sabia e nem tinha como saber que, em outros lugares, florestas melhores possuíam outros da sua espécie. Mas não contemos isso para ele, pois não é nosso papel e me forçaria a mudar o título da história.

É, mudar o título, ou tirar a parte que diz “ou O Conto do Ornitorrinco e a Fada Verde”, pois, em uma incrível mostra de coincidência, em todos os lugares do mundo não havia uma Fada Verde caindo do céu.
Quero dizer, em quase todos os lugares. Bem em frente ao nosso amigo ornitorrinco, isso aconteceu. Caiu do céu uma Fada Verde, com letras maiúsculas no começo e tudo. Como eu sou preguiçoso, vamos dar-lhes nomes curtos. O ornitorrinco será chamado de Dann. É apelido para seu nome verdadeiro, Dan, com um ene. E a Fada Verde, bom, não vamos chamá-la de Fada ou de Verde, porque são genéricos demais. Também não podemos saber seu nome, a não ser que ela resolva contá-lo para nós — uma peculiaridade de seres mágicos. Eu normalmente inverteria o nome, porque é divertido, mas Edrev Adaf parece o nome de ditador maníaco de um país islâmico, então vamos misturar isso. O nome dela será Adre.

Agora, deve ficar mais fácil.

Como eu dizia, havia um ornitorrinco insatisfeito chamado Dann que presenciou a queda de uma Fada Verde chamada Adre. Imediatamente ele percebeu algo de errado, pois o normal seria algo assim ser precedido por uma vista sua a fada, para posterior retribuição. Mas não é assim que aconteceu dessa vez. E chega de enrolação.

Dann correu até Adre, sem saber que seu nome era Adre, ainda (lembrem desse detalhe, ele vai ser importante para entender o diálogo abaixo). Abaixou-se para ver como ela estava, e nisso ela levantou de um salto. “Oi”, disse, “só retribuindo a visita”. “Visita?”, Dann perguntou, confuso, “mas eu nunca te visitei, lembra? Não nesse conto, pelo menos. Tente preservar a quarta barreira”, complementou, com olhar solene para a brecha na estrutura literária. “Hmm, prometo tentar”, disse Adre.

“E qual é o seu nome?”, perguntou Dann (não deixem que essa pergunta os confunda, lembrem-se que Dann ainda não conhecia o nome de Adre. Isso está prestes a ser resolvido). “Meu nome é Adre, muito prazer, e o seu?”, é o que ela teria respondido, caso não fosse da natureza de seres mágicos não revelarem seus nomes facilmente assim. Para agilizar a história, vamos considerar que essa foi a sua resposta.
“Meu nome é Dan, mas meus amigos me chamam de Dann.”
“Hmm, e como posso chamá-lo?”, perguntou Adre, que não sabia dizer a diferença, apenas ouvindo.
“De Dann”, e essa resposta confundiu Adre, que resolveu simplesmente aceitar o conselho sem entendê-lo mesmo.
Silêncio
Adre ficou confusa, pois Dann apenas a encarava. Não estava entendendo qual era o problema daquele cara. “Dann, sabe me dizer aonde estou?”
“Exatamente aqui é a resposta que me dou quando essa pergunta me ocorre, mas confesso que também não tenho a mínima idéia.”
“Hmm, e como saio daqui?”
“Boa pergunta. Nunca pensei em fazer isso. Mas não quer ir até o lago refrescar a cabeça? A queda pareceu bem feia.”
“Não se preocupe com isso, eu sou bem forte. Não costumo me machucar fácil, sou bem forte.”
“É mesmo? Pra mim parece tão frágil”, e Dann tinha razão aqui. O olhar de Adre era caloroso, seu sorriso era angelical, e sua constituição parecia implorar por alguém que a defendesse contra qualquer coisa. Claro, talvez ela não parecesse tão assim, mas essa certamente foi a impressão que Dann teve. Embora, talvez, fosse apenas ele que percebesse isso como consequência da necessidade que ele de repente sentia de protegê-la. E de tê-la por perto.
Mas recompôs-se. Não fazia sentido imaginar uma Fada Verde querendo algo com um ornitorrinco. Era uma esperança muito distante. Não, ele deixou esses pensamentos tão de lado quanto pôde, e foram-se ao lago. Lá, ela se lavou e sorriu, como sorriem as pessoas depois de se limparem. É um sorriso mais alegre. E ele não pôde deixar de notar como ela, sorrindo, ficava ainda mais bonita.
“Então, o que um ornitorrinco faz, tão longe de casa?”
“Casa? Nunca tive, sou um nômade. Vou a um lugar, e depois vou à outro. Não tenho realmente nada que me prenda.”
“Quer dizer que você deve saber bem aonde estou, ou pelo menos como sair daqui.”
“Saber eu sei, mas por que você iria querer isso?”
“Bom, é o meu lugar, afinal de contas.”
“Nada tem lugar, salvo o que escolhem. Sente falta de alguém, lá?”
“Não, na verdade não, mas tenho coisas que tenho que terminar antes de poder sair para o mundo.”
“Entendo. Bom, então vamos que eu te levo até lá.”

No caminho, em uma longa conversa que tenho certeza que qualquer um poderia ter com uma árvore, caso resolvessem dar ouvidos à árvore, Dann explicou sua vida na floresta, e ela para ele. Conversaram sobre confiança, companhia, crenças, idéias, músicas (se você nunca ouviu música em uma floresta, só pode ser azarado, surdo ou nunca ter ido em uma), e antes que percebessem estavam no limiar da floresta. Dali, era para outro lugar, e era onde Adre podia se achar sozinha. Se abraçaram, e ela foi embora.

Ok, não foi assim. Dann resolveu não fingir, e disse o que sentia por Adre, que, desconhecido para ele, tb retribuia, de certa forma. Beijaram-se, e ele pediu que ela ficasse com ele. Ficou, e no futuro tiveram uma filha chamada Sofia.

Tá, esse final também não tá exato. O que aconteceu mesmo é que se abraçaram, e Dann percebeu que ela não o soltava, e o puxava para si. Beijou-a e ela disse “fica comigo mais um pouco”. Ele respondeu “se você quiser, fico contigo a vida inteira”. “Eu quero”.

E, dez anos depois, realmente nasceu uma filhote chamada Sofia.

May 31, 2009

 Auto-Correção 

Há alguns meses, eu postei uma poesia sem título e cujo autor seria uma pessoa chamada “Sanrou Kuroda”. Considerando que o autor da série se chama “Kuroda Iou”, eu diria que é alguém próximo ou o autor mesmo, mas não achei informações referentes à isso.

Enfim, a correção é na poesia, eu me confundi com um trecho que dizia “Halfway through”. Não sei por que não notei, mas essa expressão significa “inacabado”. Fiquei tão envergonhado que resolvi postar isso como correção.

Você olha para um amanhã incerto
O dia depois de amanhã
Dez anos no futuro
Na forma das camisas que você descartou
Na forma das sobras de pão
Sua humilde casa que você ainda não construiu
Deixe que seu pequeno sonho permaneça um sonho
Dentro de você, como está agora
Suspenso lá, e difícil de ver
Enquanto desaparece… inacabado… conforme você desmorona

Você é livre!
(não entendeu? Tá esperando o que pra assistir?)

May 29, 2009

 Comofas? 

História verdadeira, apesar de parecer que não. Acabei de ouvir uma conversa que eu nunca achei que ia ouvir. Ou que, talvez, segundo o @fazzatti, eu sempre quisesse ter ouvido — embora com certeza reze toda noite para não participar de uma dessas.

Foi uma conversa por celular, então eu não ouvi um lado da conversa, e estava muito ocupado rindo pra caralho (essa é a única expressão que se aproxima da intensidade do quanto eu estava rindo) pra ouvir a outra metade, então eu tenho apenas detalhes esparsos.

Porém, que detalhe a mais você precisa quando a conversa começa com um “Alô? [Pausa] Ah, clica no menu iniciar e clica em desligar. Isso.”? Nessa hora eu me ajoelhei gargalhando. Tenho a impressão de que, não estivesse na empresa, eu teria rido alto o bastante pra ser ouvido por boa parte da Unisinos, de tão cômica que foi a cena.

E a conversa não parou aí. Essa instrução foi repetida. Mais de uma vez. No meu íntimo, eu sabia duas coisas: 1) era uma mãe ao telefone. Só isso podia estar impedindo meu colega de perguntar “com licença, você é do passado?” e 2) tava muito difícil evitar rir alto pra caralho. Mas muito difícil mesmo.

Na cozinha, além de eu e esse colega, também estava o @fazzatti, o @taijutsu, e talvez mais alguém. Estávamos todos rindo, mas o que mais ria era eu, disparado. Eu estava me contorcendo de rir, literalmente. Quase um ROFLOL. O tempo todo eu fiquei pensando, “como pode alguém levar tanto tempo para desligar um computador? É uma tarefa simples, estamos no século XXI, porrameuqualé?“.
Porém, tudo que é bom acaba. E a conversa, que durou uns cinco minutos (de pura diversão)(ao menos, eu me diverti pra caralho), também terminou, quando meu colega falou “Tá, então sabe o botão de força? Aperta e fica segurando, e ele vai desligar. Isso. Tchau.”

Quando ele desligou, eu olhei pra ele e falei: “era tua mãe, né? Porque só assim pra você não dizer ‘are you from the past?’”

May 5, 2009

 Asus EeePC 1000H 

Feliz, feliz, feliz, feliz \o/ finalmente tenho o netbook que eu queria, o Eee PC 1000H.

A Máquina

Aos que não sabem, o 1000H é uma máquina pequena, 10″ mais ou menos, com 160GB de disco rígido, um teclado 92% do tamanho de um normal, e um Atom 1.6GHz. Antes de comprar, eu escolhi muito, li muitos reviews de várias marcas e aparelhos, e através de um processo de longa eliminação, cheguei à esse modelo. Tela, teclado, velocidade e tempo de vida da bateria. Tudo parecia perfeito.

E era. É. Estou com ele ligado há mais de duas horas e o note mal aqueceu. O teclado é confortável e quem disse que o Atom é lento tem sérios problemas ou esqueceu a que nicho pertence o Eee. Pra um computador desse tamanho, com essa duração de bateria (a minha — 4 células — veio carregada cerca de 15%, e com brilho mínimo, webcam e wifi ligados, acusava 53 minutos de duração) (pra efeitos de comparação, pros que precisam, um note normal com bateria boa dura duas horas e meia, em média), o processador é ótimo. Esse aparelho roda até screensavers 3D (claro, um Flying Toasters da vida, com várias torradeiras voando, reduzem muito o desempenho do coitado). Pra vocês terem idéia, meu desktop é um Athlon X2 6000+, potente pra caramba, com 4 GB de RAM, uma placa de vídeo onboard bem bacana, e com os drivers genéricos ele mal abria os screensavers. Tá certo que com os específicos da nVidia ele mata a pau, mas nem se compara a combinação processador/placa de vídeo dele e do Eee. Esse computador é poderoso, podem crer.

O Problema

Tudo tá muito legal, mas o meu veio com um pequeno defeito de fábrica… o sistema operacional é Windows.

Não me entendam errado. O Windows XP roda MUITO rápido, ainda mais pra um sistema do seu porte, com o tanto de coisas pré-instaladas que vêm.
Não que eu não tenha a cura. Pro meu novo sistema, tenho peguei três opções: Easy Peasy, Eeebuntu e Ubuntu Netbook Remix.

Easy Peasy noysy waysy

Por algum motivo, a instalação do Easy Peasy não quis nem começar, sei lá eu o motivo. E nem quero saber. Parti pro próximo. Já que o Eeebuntu funcionou, não dou muito mais bola pra esse aqui. Não vi muitas diferenças entre os dois, tirando que a página na wikipedia desse é mais completa, o que não é grande coisa…

Eeebuntu Netbook Remix Blues Version

O EeeBuntu Netbook Remix iniciou legal, tem uma tela de boot gráfico bonitinha, etcétera e tal. Foi o único que funcionou com o Unetbootin, sei lá por quê. O instalador é bem simples, até demais pro meu gosto. Permitiu que eu reparticionasse o disco, configurações regionais, e instalar. Só. Bem estilo Ubuntu mesmo. Não gosto muito, mas não é nada terrível. Webcam e wifi funcionaram direto, não tive que configurar nada! Só o Bluetooth que não funcionou de cara, mas isso é provavelmente porque ele não vem com bluetooth integrado xD
O Eeebuntu usa o Synaptic como gerenciador de pacotes, que não é nenhum yumex, mas que eu já usei antes e não acho terrivelmente complicado. Gostei bastante dessa distro, mas, claro, vou testar também o outro. Se não der certo, Eeebuntu é o escolhido.

Ubuntu Netbook Remix Dance Version

Ubuntu Netbook Remix. Na real, só peguei esse porque Ubuntu é o sistema mais mainstream e, embora os outros dois sejam baseados nele, eu não tenho certeza de como funciona o esquema dos repositórios, então peguei ele pra, caso funcione tão bem quanto o melhor dos outros dois, tenho consciência tranquila sobre isso.
Bom, chega de enrolar, ‘bora falar do sistema.
A instalação começa como a do Easy Peasy, o que, confesso, me deixa com uma má impressão. Talvez o Unetbootin não tenha funcionado tão bem, mas o instalador só cai no BusyBox Shell. Tento usando o comando dd do Linux. E deu certo, abriu o instalador! E é um típico Ubuntu, não te dá muitas opções. Felizmente, sempre posso resolver isso após a instalação.
Terminada a instalação, só posso dizer que não gostei. Sei lá porque, mas o Eeebuntu foi muito mais confortável. Funcionou tudo certinho, sem problemas, mas talvez seja todo aquele marrom, ou minha veeelha rixa com o Ubuntu (nunca consegui instalar um funcionando direto antes), mas o Eeebuntu é mais confortável. Então, é o escolhido :D

Conclusão

E terminado. Três da madrugada, sem cafeína. Afinal, eu estou brincando com um netbook, quem conseguiria dormir? Eu não.

Pra fins de registro, e recomendação, para quem tiver dúvida, eu instalei o sistema com 12GB ocupados pelo sistema, 1GB de swap e o resto como disco mesmo, sob o /home. Pra mim, é a melhor forma de distribuir o espaço. Até prq, o meu desk, com tudo que eu instalei nele (OOffice, KDE, GNOME, programas, jogos e afins) ocupa só 9GB. Até me arrependo de ter deixado 25GB livre. Mas o Kerouac (é o nome deeele, porque vai ser usado on the road)(sacaram? Sacaram?) tá rodando redondinho, e eu não podia estar mais feliz. Máquina altamente recomendada.

UPDATE: Depois de atualizar o eeebuntu, ele baixou a Jaunty Jackalope e virou um Ubuntu lento. Então, instalei o UNR e estou usando ele por enquanto.

April 28, 2009

 História 

Quero ver a história que teus olhos contam,
com o brilho próprio dos projetores de cinema,
que me mostram tua vida,
tuas agruras e alegrias,
teus caminhos perdidos e achados e o sorriso
que só os olhos sabem dar e que se projetam
nos meus vindos dos teus

Quero ler a história que teu corpo me conta
de por onde tu andou e o que pensa e sente agora,
do quanto gosta e desgosta
e gosta do gostar

Quero ouvir as histórias que tua voz me conta,
na língua tradicional dos humanos,
e ouvir teu passado,
teu presente,
teus pensamentos e sentimentos.

Quero sentir
vindo de ti
o cheiro do seu dia,
o quanto ele te cansou e descansou,
enquanto tu descansa no meu peito
imprimindo essa história no meu nariz
juntando ela com a minha em nós dois

Quero que tua língua conte para a minha
do que eu sei que tu sente e que eu sinto,
e que é simples e belo

Não quero as histórias do futuro
As do passado só quero para te conhecer
A do presente, vamos escrever,
E quero todas as nossas histórias juntas
naquele momento onde contamos
um ao outro,
por onde andamos,
com todos os sentidos.

O sentido é nosso para criar.

Da série “Poesia em cinco minutos”.
Espero não achar ruim amanhã de manhã. Culpem Nando Reis. “O sono é a poesia com um texto tátil”. Santa Maria. Ouçam.

April 18, 2009

 Luz 

A luz do dia vai se acabando lentamente, e eu estou sentado aqui nesse barracão, esperando um pouco de luz da lua. O sol brilhou forte hoje, foi um dia bom para suar, embora suar seja ruim pra caramba. Foi um dia morto, que está levando para uma noite morta nesse barracão na praia no meio do absoluto nada. Estou cansando disso já. Confesso que achei bom no começo, gostei do isolamento, mas já está dando nos nervos. Preciso de ar. O sol já baixou, resolvo caminhar pelas dunas. A areia afundando nos meus pés e me forçando a reavaliar o meu equilíbrio, fazendo com que eu perca a concentração entre um passo e outro, é estranhamente relaxante. Com meu fiel chinelo, que tem a idade do próprio tempo, vou sentindo a areia entre meus dedos. Ela escorre lentamente. É fina, e meu pé afunda fácil. Caminho sem rumo. Para a direita, como o Leão da Montanha. Ou seria a esquerda? Sei lá.

A noite está um pouco fria. Venta bastante, afinal estou no litoral. Um pouco de areia açoita minhas pernas, algumas gotas de mar chegam até mim. O céu está aberto, e eu estou caminhando há quanto tempo? Minutos, horas, ora sei lá. Esse é o bom de caminhar sozinho, você está livre para caminhar como quiser por quanto tempo quiser e o seu único juiz ainda é você mesmo. Claro, existe o sacrifício, mas… ei, que luz é aquela?

Por um instante penso que posso ter visto uma fogueira à distância. De repente tenho um rumo, resolvo ir caçar os vaga-lumes na noite. Corro desajeitado como posso pela areia soçobrante, até que chego e vejo que não há vagalumes. Ou melhor, acho que não. Há uma guria com um monte de coisas indistintas e brilhantes no chão. Não consigo ver de longe, mas vou chegando perto. Ela arremessa alguns para o ar, e de alguma forma equilibra… todos… não sei dizer, mas ela arremessa vários e pega todos antes que caiam no chão e joga para o alto de novo, mas eles não caem, ao menos não como as pedras cairiam. Eles meio que flutuam, o que não faz sentido, porque eu me aproximo e vejo que eles são cobertos de alguma forma de vidro. Parecem tão frágeis, como lâmpadas esféricas perfeitas com seus filamentos de tungstênio circulando por dentro do xeônio, carregados por energia elétrica vinda do nada, ou talvez do espaço, ou sei lá.

Chego perto o bastante, vejo que ela quebar o clima de praia em sua roupa preta. Jeans, camisa e sapatos. E ela fala, sem olhar para mim, “Você veio de longe.” Confirmo, e ela diz que não era uma pergunta. Eu pergunto o que ela faz aqui, e ela responde “Eu não sei. Só que não posso voltar para casa essa noite.” Uma boa olhada é o bastante para ver que ela não vai dizer o motivo. Ao invés disso, pego algumas esferas luminosas e tento fazer igual a ela. O problema é que sou desajeitado, elas escorregam por entre meus dedos e caem. Uma quebra, a luz apenas desaparece, sem deixar traços. Ela olha para mim e sorri. “Não tem problema”, ela fala, com sorriso tranquilizador, lendo minha mente, “elas só quebram quando é hora.” Pergunto de que hora ela fala, “oras, isso são sonhos. As luzes, quero dizer. Quando esse invólucro quebra, eles se soltam e voltam para de onde vieram.”

“Tá, mas e de onde eles vieram?”, pergunto, confuso. “Ora, não é óbvio? Para onde sonhos voltariam, além do Sonhar?” Preciso parar um pouco para absorver essa idéia. Sento na areia. De repente tudo se esclarece na minha mente como uma epifania. Eu conheço ela. Eu sei quem é essa garota, e eu a amo. E ela me ama. E não é nada disso que vocês estão pensando. As luzes continuam caindo. Algumas pairam ao redor dela, como lâmpadas ao ar. “Na hora certa, hein?”, pergunto, “e como você sabe quando é isso?”. Ela me olha como se para uma criança. “Ora, quando elas caírem, é a hora. Não é preciso magia antiga pra saber isso.” É quando eu reparo que ela não é ágil, mas sim que os globos ao redor dela não caem. Eles param no ar. “E qual é seu truque? Por que esses não caem?” “Ué, porque não é hora. Não prestou atenção antes? Eles só caem na hora certa, é simples assim.”

Resolvo tentar de novo. Pego dois globos e jogo pro ar. Eles flutuam. Como não notei que faziam isso antes? Pego mais globos mais rápido do que posso jogá-los. Sinto-me como se tivesse supervelocidade, eles são tão devagares, tão macios no ar, alguns são quase imóveis. Eu me preocuparia, mas o sorriso dela não deixa. Seus cabelos negros voam para o mesmo lado do meu, o vento fica mais forte, e eu deixo de reparar no tempo. Se a gente não sente o tempo significa que ele não existe? Não sei se o dia nasceu ou se na minha afobação não acabei iluminando aquele pedaço de praia. Demoro para perceber que ela está sentada e, cara, ela nunca pára de sorrir? Eu me deito na areia, fico olhando o espetáculo. Os globos se movem lentamente, ocasionalmente se tocam, sempre quicando um no outro. Em alguns momentos penso que estou dormindo.

Dou por mim com ela de pé, olhando para mim. “Acho que é hora de voltarmos para casa, né?” Pisco longamente. Suspiro. “Não, vou ficar aqui mais um pouco. E você não vai pra casa, né?” Esse sorriso não vai embora. Ainda bem. Teria que ser louco para querer ver outra expressão facial dela. Essa resume tudo, ou tudo que importa. “Não, aquilo era verso de uma música. De duas, na verdade. Mas tenho que ir.” Peço para ela esperar. Pego um dos globos, enterro levemente na areia, que começa a brilhar. Muito rapido, cresce uma flor. “Para você”, digo. “Não vai me dar a flor?” Não a arranquei do chão. “Não, ela é sua, e está ali, florescendo sempre. Se eu arrancasse, seria uma flor morta, e que tipo de presente é uma flor morta?” Me aproximo, beijo sua bochecha, digo “Tchau, gótica lindona”, e volto pelas dunas. E a luz do sol vai pintando o mar de um azul mais claro.

April 9, 2009

 Coragem 

Era tarde da noite. Eu estava caminhando pela rua, não era minha cidade, eu era só um visitante. A lua brilhava num céu sem nuvens, as ruas estavam escuras, e até os cães estavam com preguiça demais para latir para esse noctívago. Eu ando por uma rua residencial, a rua com o asfalto gasto. Uma coruja voou pela minha cabeça. Eu ando e um poste se apaga. Por algum motivo, isso me chama a atenção e paro para meditar sobre isso por um segundo. É nesse momento que noto, do outro lado, um apartamento com uma luz acesa. Bem fraca, duvido que notasse se o poste não estivesse apagado. Caminho até lá e, pela janela, vejo uma garota sentada lendo.

É um quarto quase vazio. O armário é grande, ocupa uma parede inteira. Uma escrivaninha bagunçada. Uma cama bagunçada. Caramba, a bagunça é tanta que quase sinto que é o meu quarto. A poltrona vazia tinha apenas uma calça largada em cima, certamente no mesmo esforço que eu faço pra que ela se amasse menos. No chão, pilhas de papéis. Aposto como ela sabe onde está cada um deles. Eu também sei dos meus.

Me identifiquei tanto que resolvi fazer o inesperado. Dei alguns toques na janela dela. Sentei em posição de lótus no jardim. Ei, não me olhe assim, era madrugada. Se eu dissesse “oi” ou coisa assim nunca teria chance de nada.

“Oi”, ela falou. “O que você quer?”
“Ah, nada. Fiquei curioso sobre o que você está lendo, pra estar acordada à essa hora.”
“Na verdade, nada demais. Um livro sobre interações sociais. Quero ver se aprendo mais sobre protocolos sociais, tem certas situações nas quais nunca sei como agir.”
O universo tem uma forma engraçada de juntar seus filhos mais estranhos.
Depois disso, começamos a conversar. Dormimos abraçados. Não aconteceu nada demais, apenas descobrimos o quanto um era parecido com o outro, duas pessoas com as mesmas vontades e carências. É tão raro encontrar alguém assim (e naquela noite nós realmente calculamos as probabilidades), não podíamos deixá-la passar. E não deixamos. E nunca mais nos vimos. Eu não sei como chegar na casa dela de novo. Talvez nunca mais nos encontremos, mas quem sabe?

Outra ocasião, estava no trem, lendo, quando paramos em uma estação qualquer. Entre as pessoas que entraram era uma garota alta, parecia interessante, a armação destoava o rosto mas não de uma forma feia. Era uma daquelas situações onde eu olho e penso “cara… isso é tão contra-intuitivo que não tenho como não achar atraente”. Ela sentou na mesma fileira que eu. Puxou fones de sua bolsa. E um mp3 player. Grande, telinha perfeitamente legível do meu lugar. Eu captava esses detalhes entre olhadas para meu livro, claro, porque… bom, porque eu sou assim, e não sei se posso dizer que fiz um grande esforço pra mudar isso.

De qualquer maneira, ela encosta a cabeça na janela, e logo está dormindo. Reparo nas músicas que ela escuta. Engenheiros do Hawaii. Legião Urbana. Picassos Falsos. Nando Reis. Quando olho, a música é Espatódea. Resolvo quebrar meu padrão. Depois de alguns minutos criando coragem (ei, é uma quebra do meu padrão, normalmente eu levo horas!) me aproximo, cutuco e pergunto: “Tem lugar pra mim?”.

Bom… tentei, né?
Talvez algum dia eu seja assim mesmo :-)

April 3, 2009

 Oi 

Eu tenho um flog.

E confesso, tenho postado tanto lá quanto aqui. Contos e bobagens, ultimamente, bem como aqui.

Para ver lá, clique aqui.

Qualquer hora escrevo de novo. Estou entre o ocupado e o preguiçoso.

March 24, 2009

 A Gaveta 

Isso realmente aconteceu.

Era terça-feira. Ou melhor, é terça-feira, isso acabou de acontecer. Enfim, acordei sentindo um calafrio sinistro, que se intensificou quando vi a mesa do meu quarto arrumada. Pensando bem, nesse momento eu entrei em pânico. No momento seguinte, porém, eu lembrei que eu mesmo a tinha arrumado na noite anterior, pois hoje a minha mãe vem pra cá, ela quer trocar os armários do meu quarto na casa deles e na minha. E sempre dá ataques porque meu apartamento não é impecável. Mas isso não tem nada a ver com nada. Exceto por ser um sinal das coisas sinistras que estavam por acontecer.

Levantei-me, tomei meu banho tranquilamente, ou quase. Tomei um copo de leite, e vim para o trabalho. A manhã prosseguiu tediosa, registrei bugs que não conseguia corrigir, li um ou dois artigos. Paz. Pelo menos até aquela hora. Até a hora do almoço.

Fomos almoçar no Alemão, um restaurante daqui. Chegando lá, vários pediram xis ou pratos diversos. Eu pedi uma panqueca. Não fui o único. Porém, enquanto estava pedindo, senti uma presença, e ao olhar pra trás, vi… o Marv. Marv é um colega do trabalho, que tem esse apelido por ser parecido com o personagem de Esqueceram de Mim (o cara obcecado com abrir torneiras). Nada demais. O almoço transcorreu sem maiores incidentes. Depois do almoço, xadrez com o Mendel. Ganhei. Nada demais.

O terror me esperava no meu escritório, entre a minha cadeira e a porta da sala de reuniões, e não era o telefone. Certamente não era a caneta bic, embora ela fosse minha principal suspeita para eventos sobrenaturais e malignos. Não. O mal estava na minha gaveta.

Veja bem, eu estava vendo que não haviam chegado e-mails durante o almoço, quando o Fabricius chegou e perguntou se já tínhamos escovado os dentes. Eu respondi que não, e fui destrancar meu armarinho para pegar minha escova de dentes e a pasta. Mas, ao girar a chave… ELA NÃO SE MEXEU! A chave com que tranquei minha gaveta antes de sair pro almoço agora deixou de funcionar! Pensei em colocar a chave de cabeça pra baixo. Uma vez mais, nenhum resultado. Minha mente fervia, pensando nas possibilidades. Teria alguém trocado meu móvel com o de outra pessoa? Não era impossível, alguns colegas de trabalho têm senso de humor estranho.

O Fabricius reparou na minha dificuldade. Ele me viu tentando abrir, sem sucesso, a fechadura. Era loucura! Leis da física poderiam ser quebradas tão mundanamente? Loucura, loucura! Como pode?

Foi quando uma inspiração sinistra, como uma voz vinda das profundezas da Terra, falou comigo. Pedi a chave do Fabricius emprestada. Não tinha sentido, era ilógico esperar que uma chave que comprovadamente não abria aquela gaveta fosse subitamente funcionar, mas eu tentei. Quando estava girando, ela… abriu. O que era insano de repente se tornava doentio. Eu, que sempre baseei meu mundo em análises lógicas, vi suas bases desmoronando. A gaveta abria. Todas elas. COMO ASSIM?

Eu, que não bebia, hoje sou um ébrio, perambulando pelas ruas da cidade, falando sobre aliens abduzindo gavetas para seus experimentos. É verdade! Eles as consideram a forma de vida dominante, pela sua predominância. É…

Tá, não aconteceu nada disso. A vida seguiu normal, mas agora eu tenho uma chave nova. Não entendo como isso aconteceu, e não sei se algum dia irei. Mas fiquem sabendo, ó povo de pouca fé. Cuidado com suas gavetas! Elas estão vivas! VIVAS, EU LHES DIGO! Não as subestimem, pelo bem de suas almas, e muito cuidado. Uma vez trancadas, elas podem alterar a configuração interna de suas fechaduras tornando-se quase impenetráveis. Ou talvez, adaptando-se a uma outra chave próxima de você, que você nunca descobrirá qual é, para brincar com sua mente…

March 14, 2009

 Lago 

Certo dia, um garoto estava sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo. Atrás dele estava uma paisagem verde. Era um dia leve de outono, bem no começo. Quando a temperatura começa a ficar fria, mas não exatamente, ainda. O céu estava nublado. Não nublado como em um dia de chuva, apenas… cinza. Sabe, como aqueles dias tranquilos que aparecem de vez em quando e tapam o vão do infinito, quando você olha pra cima e ao invés do infinito enxerga uma grande massa cinzenta, e espera olhar para o lado e ver uma escada levando para o segundo andar. Para a maioria das pessoas esse seria um dia triste, desagradável. Você vê, pessoas gostam de sol, essa parece ser uma condição indissociável para que elas se sintam bem quando estão sozinhas. Mas essa é a característica das pessoas que tentam estar felizes sempre, e não era o caso dele. Não é o meu, também, e com sorte, não é o seu, mas nem eu nem você temos nada a ver com essa história.

Essa é a história de um garoto sentado à beira de um lago. Ele encarava a água, reflexivo, e enquanto pensava mil e uma coisas, passado, presente, dos futuros que não virão e das coisas que não tem um tempo próprio para si, ele enxergava um mundo diferente. Os peixes são bastante ignorantes. As pessoas não sabem, e aposto que elas se surpreenderiam se soubessem, mas os peixes possuem uma mente relativamente bem desenvolvida. Infelizmente para eles, ou felizmente talvez, o parâmetro mais adequado para essa comparação é aquele tipo de pessoa que toma substâncias da felicidade. Eles vivem sempre em um corpo d’água, limitado. Alguns em um lago, alguns em aquários, e alguns no mar. E todos possuem um território limitado que consideram como se fosse seu mundo. Peixes de lago são os mais certos nisso. Eles, afinal, só podem ir até onde acaba seu lago. Peixes do mar são os piores. Eles não se aventuram por medo. O mar é grande e eles sabem, mas não nadam longe por medo de não terem para onde voltar, medo (bem justificado, aliás) de morrer, medo de descobrirem que lá são os únicos de sua espécie. Poucos peixes realmente nadam para muito longe, no mar. E tem os de aquário, que não raro são insanos. Clinicamente insanos, pois eles são cercados por paredes de vidro. Seu espaço é pequeno e o tortura com um mundo onde ele nunca estará, e que mal pode compreender. Acredite, você não duraria muito tempo assim também. E nem ele.

E é por isso, entre outras coisas, que ele está sentado à beira do lago. Ele encara a água, reflexivo. Ele sabe que vive em um mundo cruel e indiferente, em que o futuro é incerto e o passado é algo que seria muito bom ter esquecido. Ele repete para si mesmo, como um mantra, “mas doutor, EU sou o Grande Pagliacci”, esperando que isso traga algum sentido pra tudo. Não funciona, mas ele continua repetindo. Não há nada mais que possa fazer.

E, de um arbusto próximo, de forma que seria contrária à todas as regras do que aceitamos como realidade, um ornitorrinco sai, caminhando devagar. Tá, não devagar, apenas calmamente, afinal ornitorrincos não têm pressa. Eles podem se dar a esse luxo. Humanos vivem apressados, temos consciência e medo da morte, e a segunda parte que é problemática. Sabe, quando tememos a morte, ela chega mais rápido. Os ornitorrincos sabem disso, e por isso, ela os ajuda. Fornece impulso, e eles superam o atrito e conquistam o mundo, por assim dizer. A superação do medo lhes permite um grau de sabedoria que poucos humanos atingem.

Por sinal, atingir é o que ele fez. Acertou sua pata direita na cabeça do garoto, quebrando sua melancólica concentração.
- Existe algo de belo na melancolia. É atraente a idéia de sentar-se à beira de um lago e remoer o mundo por um período indeterminado de tempo.
- E por isso eu apanho? - pergunta o garoto, passando a mão na cabeça, uma careta de dor no rosto.
- Não. É por cair na tentação. Você realmente vive em um mundo cruel e indiferente, e de fato seu futuro é incerto, mas só se você se mexer. Aqueles que ficam parados possuem futuro certo, e é no mesmo lugar. Não se prenda em um momento. Ai, o que foi isso?
Dessa vez, quem bateu foi o garoto.
- Engraçado estar do outro lado da pancada. Te acertei, sua toupeira (”grunf grunf, sou um ornitorrinco”, murmurou ele), porque dessa vez é você o cego. Está agindo como aqueles idiotas que acham que momentos tristes nunca deveriam acontecer, seu grande baka.
- Espera aí, o que diabos é um “baka”?
- Ah, sim, desculpa. “Baka” significa “besta”, “burro” ou “idiota”, em japonês. A intensidade depende bastante do contexto. É a convivência.
- Ok, prossiga então, “jovem mestre”.
- Certo, ignóbil discípulo. Você diz que eu não devo “sucumbir à tentação” da melancolia, e por dizer isso você mostra que não sabe tanto. Não sucumbi à tentação nenhuma, eu estou melancólico. E, de acordo com meu status Deus Ex Machina de autor da história, você pode ver que eu não sou eu e o clima me obedece. É o cenário que eu queria de volta, mesmo sem ser exatamente este. Saudade daquele morro com vista pra Provo…
- Hã, o assunto te ligou, quer saber você ainda quer ele por perto ou se vai ficar divagando - disse o ornitorrinco, sarcasticamente - e corta o papo de narrador onisciente. Eles já sacaram quem é o protagonista. O resto da história poderia ser apenas diálogos.
- E será, meu diminuto amigo. E será. Ou não. Enfim, eu não estou aproveitando a melancolia. Estou sentindo. É parte bastante grande de minha natureza, se você bem se lembra, não algo que eu controle. Eu apenas sigo as marés. A do mundo e a minha. Eu sei que parece estúpido e sem sentido pessoas ficarem tristes, ainda mais na época da felicidade em pílulas, mas quem nesse mundo está feliz o tempo todo?
- Muita gente que perde tempo em seções de auto-ajuda.
- Exato! Gente que perde tempo procurando as soluções complicadas quando as soluções são simples. Por que alguém iria querer ser assim?

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