4/09/2010
Discurso
Postado nas categorias Sem Noção, Véio, Nerd

Cara, hoje me caiu uma ficha foda: estou me preparando para o TCC. Quase me formando. O que me fez pensar, “e se eu fosse orador na formatura?”.

Esse é um rascunho inicial do meu discurso:

Senhoras, senhores e similares não-classificados

Esta noite, eu e meus colegas deixamos de ser meros programadores para obter um título além: cientistas da computação. Essa ocasião exige que eu diga o seguinte:

MWHWAHAHAHAHHAHAHA
AAAHHH HAHAHAHAHAHA HAHAHA HAHAAAHAHAHHA

caham. desculpem.

Como programadores, nós criamos problemas. Programas de computador acima de um certo nível de complexidade são inerentemente falhos. Isso é matemática e é irrefutável. Como cientistas da computação, temos a capacidade e o dever de reconhecer esses erros, análisá-los, substituí-los por erros ainda maiores, e descobrir novas formas de se cometer novos erros. Não é bonito, mas é a verdade.

A computação é uma área jovem. Na verdade, talvez uma das áreas mais jovens da ciência, tirando o criacionismo, que até onde eu entendo é uma forma eficiente de detectar sutis desvios na percepção da realidade. E, como uma ciência jovem, ela ainda está se desenvolvendo. Nós estamos no início desse novo mundo, na posição rara de podermos criar as teorias das quais as gerações futuras irão rir descontroladamente. Avante, meus amigos!

Acho que não rola, né?





19/08/2010
Mentiras sociais
Postado nas categorias Subversão

“Eu passo a vida pisando em ovos com as pessoas, como se elas fossem feitas de porcelana. Já você é viciado em realidade. Se eu te oferecesse uma mentira reconfortante, você me acertaria na cabeça com ela. Vamos manter as coisas assim.” (James Wilson, em House, algum episódio da quinta temporada)

Digam “Eu” se essa situação já aconteceu com vocês: uma pessoa, vamos chamá-la de X, fala uma bobagem. Uma besteira colossal e gigantesca. Você discorda. X então
a) faz algum comentário sarcástico genérico sobre você
b) faz algum insulto direto à sua pessoa ou à alguém de sua família, ou à sua tampa da panela, caso aplicável
c) ambas as anteriores
d) ignora completamente o ponto contraditório que você fez, e concentra-se em atacar a sua pessoa.
Essa prática é extremamente comum. Bastante irritante também, mas felizmente, existe uma forma de contra-irritar a pessoa perfeitamente válida e justificável do ponto de vista do assunto: chamar a atenção pro fato de que ela não tocou no assunto que eu mencionei originalmente.

Quando chega nesse ponto, eu geralmente me pergunto: qual é o problema dela? E a resposta, como para tantos outros problemas do mundo, é a mesma: o problema dela são as outras pessoas. Vocês.
Sabe aquelas “amenidades sociais” que geralmente são consideradas obrigatórias? Às vezes eu penso no efeito a longo prazo delas: parece que todo mundo espera que todos ao redor concorde com o que dizem. Você já se sentiu na situação de “ter” que concordar com algo que uma pessoa falou, simplesmente porque todas as pessoas ao redor concordam também? Muitas vezes você sabe quem concorda realmente e quem concorda pra “ser gentil”.

Eu não concordo. Não apóio e discuto mentiras sociais. “Gostou do meu penteado novo?” “Olha, preferia o outro”. “Tou errado?” “Tá”. “O que você acha que eu faço, o que eu quero ou o que eu deveria?” “Faz o que você deveria, óbvio”. O resultado? Sou considerado mal-educado, mau humorado, arrogante e por aí vai.
Meu rótulo favorito é “arrogante”. O fato de eu não largar minhas opiniões para concordar com os outros me torna arrogante. Eu considero a ironia extremamente engraçada.

E algumas pessoas respeitam o fato de que eu falo o que tá na minha cabeça, não o que elas querem ouvir. São pessoas eu valorizo bem mais que as outras.

Lembro de uma vez que falei que achava livros de auto-ajuda besteira, uma prima me perguntou “tá, e tu acha que tem todas as respostas, por acaso?”. Menti socialmente na ocasião. Devia ter dito a verdade: “Tenho, e a maioria delas não é agradável, então tento pensar em outras.”





3/08/2010
Partes
Postado nas categorias Diarinho, Contos

Vídeo

Oi, eu sou a paixão por filmes do John, e fui eu que peguei todas essas partes e juntei pra esse pequeno tour. Todos os elementos apresentados nesse texto são ficcionais e qualquer semelhança com elementos reais, existentes dentro de você ou de qualquer outro ser vivo são fruto da sua imaginação ou evidência das grandes características que compõe todos os seres vivos minimamente racionais. Todos os direitos liberados.

Eu sou a raiva de John, e sou uma das partes mais destacadas dele. Queimo firme e forte todos os dias. Eu existo não só para expressar o desejo de destruir, zombar e escrotizar do que John sente que merece ser destruído, zombado e escrotizado, mas também existo para manter a sanidade de John, e como última opção. Quando John sente que não há mais nada no que se apoiar, ele sabe que pode contar comigo. Sempre.

Eu sou o tremor familiar de John, e possivelmente uma das últimas coisas que se nota nele. A raiva me alimenta.

Eu sou a sanidade de John, e estou empoeirado. Pouco resta de mim além de alguns farrapos perdidos, colados totalmente pela teimosia de John. E o que resta definitivamente não serve para nortear o pensamento de outra pessoa, e é surpreendente que John continue confiando em mim para qualquer coisa.

Eu sou a pele de John, que afasta o frio mesmo quando ele está forte, e que só se rende com vento forte ou água. Ou lâminas.

Eu sou a teimosia de John. Sem mim, ele já não estaria vivo. Tenho uma reputação que me precede e que é amplamente imerecida. Sou uma mera analista de dados, e me curvo facilmente ante evidências sólidas e válidas.

Eu sou o estômago de John. Eu lembro ele de quando tem que comer, envio os restos para que o intestino o lembre quando ele tem que cagar, e congelo quando ele passa por certas situações sobre as quais ele não tem nenhum controle e cuja inevitabilidade empalideceriam a sua alma, caso o ceticismo ainda não tivesse acabado com ela.

Eu sou o cinismo de John, e em poucos anos passei de característica menor à pilar moral. Eu zombo do mundo e dos idiotas que o contém, zombo das relações entre as pessoas, e da criação das pessoas, sempre que eles não fazem sentido. Muitas vezes, apenas falo com o próprio John.
(em “O Tratado sobre o Lobo da Estepe”, eu seria o lobo)

Eu sou o coração de John. Não o sentimental, mas o físico. Eu bato em um ritmo constante boa parte do dia, mas ocasionalmente eu preciso ser acelerado, seja através do amor, da raiva ou do ódio. Não que algo de ruim vá acontecer caso eu não consiga, mas de vez em quando faz bem.

Eu sou a melancolia de John. Eu o mantenho acordado na madrugada, e mantenho a mente dele concentrada em assuntos cujo controle ele abdicou há muito tempo. Da minha forma, eu alimento a esperança de John.

Eu sou a merda de John. Carrego em mim todos os detritos que restaram e que devo tirar do corpo dele. E ele tem o hábito regular de me liberar, embora a regularidade seja mais metaforicamente do que fisicamente.

Eu sou o intelecto de John. Sou seu filtro principal para o mundo, e exijo a possibilidade de formular explicações e, se possível, lógicas ou heurísticas descritivas para cada aspecto da vida de John.

Eu sou o ateísmo de John, e já fui muitas coisas. Hoje, sou só um cachorro dentuço que quer ser deixado em paz, mas que sempre pode contar com as mandíbulas do intelecto pra se defender de invasores.
(se isso fosse a Marvel Comics, eu seria o Hulk. Forte e desejoso de ficar só)

Eu sou a percepção de John, e não sou muito otimista. Um dia já fui, mas o mundo me ensinou meu lugar, e hoje em dia sou majoritariamente cínica, melancólica e descrente. E ainda sei me divertir.

Eu sou a necessidade de controle de John, e embora soberana, estou aprendendo a me retirar.

Nós somos os olhos de John. Somos verdes, meio escuros, perpetuamente de pálpebras um pouco caídas. Já fomos descritos muitas vezes como tristes ou entediados, o que tem alguma verdade, mas mostramos muito menos do que o que realmente acontece por aqui.

Eu sou a esperança de John, e eu nunca vou morrer.





31/07/2010
Lacuna
Postado nas categorias Contos

“Clementine: Então é isso, Joel. Vai acabar logo.
Joel: Eu sei.
Clementine: O que nós fazemos?
Joel: Aproveitamos.” (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)

Vídeo

- Eu tou com uma idéia maluca, cara.
- Mais uma? Ah não, fala logo pra eu te dissuadir, antes que você entre em encrenca.
- Tá, não é desse tipo. É um pensamento que tá quicando nas minhas idéias, que eu não consigo afastar da minha cabeça.
- O que é?
- Como é que a gente conhece pessoas?
- Hã?
- Não tou nem falando no sentido mais profundo. Esse eu sei, conhecer pessoas não passa de passar tempo o suficiente e ser alguém com quem elas consigam se abrir. O que eu quero saber é, como acontece o primeiro contato?
- Como assim? Uma pessoa fala com a outra, e a outra responde, não tem muito mais que isso.

Não são as mesmas duas pessoas, mas uma delas é a mesma do diálogo anterior. Um casal deitado na cama, olhando pro teto, em silêncio, um ouvindo os batimentos do coração do outro. O momento máximo de intimidade possível de duas pessoas desfrutarem é o silêncio sem constrangimentos.

- Como a gente se conheceu?
- Você não se lembra? A gente tava no trem, mesmo vagão, eu estava duas fileiras na tua frente, você me olhou e…
- Eu sei, eu sei… eu tava lá, eu lembro disso, me expressei errado. O que eu quero saber é como duas pessoas podem sair de desconhecidas pra conhecidas.
- Convivendo, eu acho.
- Pois é, mas pensa assim, a gente encontra centenas de pessoas quando sai na rua. Nossos cérebros nem processam tanta gente. E com algumas centenas nós conversamos. E, de vez em quando, com algumas a gente continua mantendo contato.
- E teu ponto é…?
- Meu ponto é que parece que tem algo faltando. Tipo quando a gente se conheceu. Será que eu sabia, ou tu sabia, que mesmo pegando o trem todos os dias, as chances de estarmos no mesmo vagão, no mesmo trem, eram muito pequenas, e de no meio da lotação toda ainda um notar o outro?
- Eu sempre te notaria no meio da multidão.
- Mesmo?
- Claro. A maioria das pessoas se dá ao trabalho de ajeitar o cabelo antes de sair de casa.
- Boba.
Ela levanta e olha pra ele.
- Então por que tu não foi falar comigo?
- Eu queria ter falado, em especial agora eu queria ter falado. Mas eu pensei que… sei lá, vai que ela me acha um maluco.
- Eu iria, qualquer um iria, mas isso não quer dizer que seria um desastre.
- Não, mas… e tu, por que não falou comigo?
- Eu não sei. De alguma forma eu ainda sigo regras de mulher. Aquelas idiotices que se ensinam há anos.
- Mas eu queria ter falado.
- Queria que tu tivesse falado.
- E agora?
- Logo tu vai acordar, vai ter uma sensação de lembrança vaga disso, e vai tocar a tua vida. E logo vai esquecer desse sonho inteiro.
- Mas…
- Me encontre na Mercado.

Acordei.





28/07/2010
Apenas Uma Vez
Postado nas categorias 6 x 9 = 42, Marvin, Momento Scully

Já assistiram “Apenas Uma Vez”, em inglês “Once”? É um musical irlandês, um romance entre um músico de rua que também conserta aspiradores e de uma vendedora de rua. Ele vive com o pai desde que o pai ficou doente, e ela vive com a mãe e a filha. E é a história dos dois se apaixonando.

Mas não exatamente se apaixonando. Vejam bem, ele saiu de um relacionamento bem pesado, que inspira boa parte das músicas da trilha sonora, todas bem pesadas. E é um relacionamento que ele mesmo não admite, mas que ainda não tá superado (alguém se identifica com isso?).
Já ela foi casada com um cara na República Tcheca, e abandonou o cara quando a filha nasceu. Ou o cara abandonou ela, não lembro ao certo. Mas os dois são pessoas de coração partido tocando a vida como podem.
(Caso vocês estejam se perguntando, eles não têm nome. Tenho certeza que tem algum lance de facilitar identificação por parte do público)

E o filme todo brinca com a idéia de eles se atraindo, mas se repelindo. Passado pesa, e é uma coisa que a gente tenta mentir que não, mas que não dá pra evitar. Todo mundo têm relacionamentos do passado que pesam. Às vezes a gente começa algo ainda gostando de outra pessoa. Às vezes, por causa de um idiota, ou de vários, fica difícil confiar em alguém pra começar algo. Sem contar aquelas pequenas coisas que pra uma pessoa não têm significado mas que pra outra são ofensivas e fazem mal (alguém lembra de “Taxi Driver” quando o DeNiro tenta levar a loira pro cinema pornô porque pra ele era normal?).

Relacionamentos são uma das coisas mais difíceis do mundo. Nós geralmente não temos muita idéia de como agir com uma pessoa nova. Sempre tem aquele clima estranho, aquela coisa do desconhecido (que é até gostosa), aquela falta de assunto mesmo com tantos assuntos que ainda não foram abordados. É difícil, não é à toa que existem muitos filmes, músicas, poesias, contos e afins, muita ficção escrita em cima desse tema.
Como a gente se aproxima de alguém interessante? Como dizer oi, como dizer tchau? Como você vai de ser a pessoa que elas nunca viram pra ser a pessoa mais importante na vida de alguém? E como se vai de pessoa mais importante da vida de alguém pra quem ela nunca mais vai querer ver? É corriqueiro, acontece todo dia, mas não significa que não sejam questões pesadas.
E, aproveitando, qual é aquela palavra que representa o momento exato em que você esquece a sensação de fazer amor com uma pessoa que você amava muito? Alguém já descobriu?

E a gente não sabe o valor do que teve até perder, via de regra. Também tem muito disso mais pro final do filme (lembram? Esse post era sobre um filme), mas não vou largar o spoiler. Assistam pra ver como acaba.

A trilha sonora é algo à parte. Vou fazer uma sessãozinha com alguns dos trechos mais pesados, já traduzidos pra sua conveniência.

“Pegue esse barco soçobrante e aponte-o para casa, nós ainda temos tempo. Eleve sua voz esperançosa, você tem uma escolha, você o faz agora.”
Esse trecho, e essa música, me afetaram tanto que viraram um conto.

“Se você me quer, me satisfaça.”
De cara, esse trecho me bateu como algo meio egoísta. Mas apesar do que toda ficção tenta nos ensinar, o amor é um sentimento egoísta. A gente sai por aí atrás de nada menos que satisfação. É uma música sincera.

“Quando a sua mente está decidida, não adianta tentar mudá-la.”
Esse trecho é outro que, de cara, não me desceu legal. Mas depois de pensar um pouco, faz todo o sentido do mundo: quem nunca insistiu em algo que sabia que não ia dar certo?

Eu poderia prosseguir, mas recomendo que vocês assistam. BaixemComprem o cd (cof) da trilha sonora. Vale o downloado preço. Vocês vão se pegar ouvindo à cada de vez em quando.

E eu vou dizer isso sobre o final: não é a coisa mais linda do mundo, mas é o que aconteceria. Porque é o que as pessoas esperam que adultos responsáveis façam. Eu tive que assistir uma segunda vez pra captar isso, o que deve significar que eu não sou um adulto responsável, mas é assim. Não é bonito, mas a vida não é bonita.

E é um musical onde as músicas fazem sentido dentro da história. Só isso faz o filme inteiro valer a pena.





14/07/2010
Só saiu isso
Postado nas categorias Frações, Contos

“Chuva caindo pesada. Sempre chove nesses momentos. Eu deveria estar congelando, eu deveria é estar com o guarda-chuva sobre a minha cabeça, mas não estou. E não tenho frio. A forma como tu me olha afasta o gelo dos meus dedos.

Teus olhos dizem que tu esperava algo assim há tanto tempo quanto eu. Nossa chance de falar de uma vez.
Meus olhos devem estar iguais.

Nos últimos meses, eu aprendi ainda mais a falar. E até o fim do ano, vou saber ainda mais. Mas por agora o que eu sei basta pra dizer o que eu vou. E se tu tiver algo pra dizer, fala.”

Isso deve ser parte de uma história maior que eu ainda não sei como contar. Por enquanto, fica como arquivo. E eu preciso PARAR de ouvir a trilha sonora de Once. Que vocês NÃO encontrarão procurando por “Once OST” no 4shared.





7/07/2010
Barquinho
Postado nas categorias Momento Scully, Contos

“Pegue esse barco naufragante e aponte-o para casa. Nós ainda temos tempo.” (Glen Hansard and Marketa Iglova - Falling Slowly)

Um dia eu estava andando na praia. O mar estava calmo, tranquilo, em especial, sabe, para o mar. Não sei se tem a ver, mas era outono. Normalmente eu não gosto de praias, mas era um dia relativamente morno, não muito quente.

Sabe, uma vez eu fiz um barco. Não um de verdade, mas um pequeno. Juntei algumas peças de plástico pelo caminho, usei o isqueiro pra juntar as partes da melhor maneira possível e tadaaaa: barquinho. Ele era meio tosco, mas foi feito por mim, e isso é mais importante que polimento. E, quando testei em casa, ele flutuava, e isso é o que mais importa em um barquinho.

Era começo do fim de tarde, aquela hora quando o sol começa a indicar que vai se pôr de novo. Eu me aproximo da água e me ajoelho. Pego meu barquinho da mochila, pego um lenço fino e amarro como vela. Olho, por um instante, orgulhoso da minha obra, e o coloco na água. Como gesto de respeito, coluna ereta e posição de sentido. Observo o barquinho se afastando, em direção à uma pequena ilha perto da costa.

Então, algo dentro dele parece estranho. Eu percebo que ele tá refletindo a luz meio esquisito, e vejo que é água. O gênio da engenharia deixou um buraco aberto em algum ponto do navio. Mas agora já estava muito longe pra eu alcançar.

Fiquei sentado ali, olhando ele ir. A água entrava lentamente, e eu sabia que logo ele ia se afundar. Ou não. Aos poucos, ele ia chegando mais perto da ilha. Só tinha realmente uma maneira de saber, e era esperar pra ver se ele aguentava até lá.





27/06/2010
Romance 2
Postado nas categorias Momento Scully, Contos

O céu estava estrelado, a noite estava morna, não haviam estrelas. A lua cheia iluminava a clareira. Ele estava sentado, sua camisa ao lado. Ela estava deitada em seu colo, com o rosto aninhado nos pêlos de seu peito, agarrada nele como se… como se…

“Quando eu olho nos teus olhos, eu sei que te amo…”
“Shh”, ela o interrompe. “Só temos esse momento, não fala, eu não preciso que você fale. Só me aperta, nunca me larga.”
Ele sussurrou, quase inaudível. “Nunca”. Seus olhos estavam mareados. “Nunca”, repetia para si mesmo.

Ele ouvia a respiração pesada dela, e a própria. Estavam exaustos, mas ela parecia tão leve em seus braços, como se pudesse quebrá-la ao menor esforço.
“Me conta uma história”, ela disse, “daquelas onde somos os protagonistas.”

Ele parou. Pensou. Olhou nos olhos dela, aquele olhar que procura. E começou, “eu tenho 38 anos, você tem 35. As crianças estão irriquietas, é manhã de Natal e nós nunca conseguimos fazer com que elas ficassem na cama além de seis da manhã no Natal. Faz um ano desde que decidimos abolir a espera até a meia-noite, pra preservar as nossas sanidades — mas ainda há psicólogos que duvidam que me reste alguma. Nós acordamos com uma garota de 5 anos pulando na minha barriga, os braços dela acertando a sua. ‘Pai, cadê meu presente? ACOOORDA’. Como sempre, não consigo resistir àquele sorriso, cópia fiel do teu.” Um beijo o interrompe. “O que foi?”
“Não chora.” Ele nem percebia que estava chorando. Ela continua, “Diz que vai ser pra sempre.”
“Amor, vai ser pra sempre. Qualquer hiato vai ser só um hiato. É pra sempre.” Ele viu que o tempo estava acabando, e ela parecia mais fraca à cada minuto. “Pra sempre, tá me ouvindo? PRA SEMPRE!”.

Sem resposta.

A cabeça dela cai no colo dele. Ele sabe que acabou. A grama brilha vermelha com o sangue dela. É inevitável, sempre há morte. É algo que ele não pode controlar. Um lobisomem é um ser que parece destinado à viver sozinho.

Mas algum dia… ah, algum dia…





11/06/2010
Ressucitando Posts 3
Postado nas categorias Contos

DjêiCí and the 12 Little Monkeys

Jesus Hewnson Cristopherson, ou “DjêiCí”, como gostava de ser chamado, era um jovem americano, filho de pais judeus, morador do Harlem por um erro do destino. Crescendo em um ambiente relativamente estável, encontrou na música um ambiente saudável para seu desenvolvimento. Junto com 20 amigos, formou a sua primeira banda, U20.

Em um show, um certo produtor de uma gravadora muito famosa ouviu a banda, e enlouqueceu. Ligou pra secretária de seu celular megatijolo (tecnologia de ponta, na época), e exigiu que ela levasse os documentos para que ele contratasse logo a banda. Já passava da meia-noite, e a pobre mulher nem recebeu hora extra.

Maaaas, como nem tudo é algodão doce com cobertura de calda de gergilim, a gravadora exigiu que a banda fosse reduzida (para economizar no cachê, mas esse detalhe não foi mencionado). Então 6 membros saíram voluntariamente, para dedicarem-se a projetos individuais, como a proteção dos pandas brasileiros, e dois foram expulsos. Outro problema era o nome, parecido demais com o de uma outra banda que emergia para o sucesso na época, e que foi mudado para “DjêiCí and the 12 Little Monkeys”(JotaCê e os Doze Macaquinhos), um nome idiota, mas que, graças ao milagre da propaganda massiva, teve sua estupidez ignorada.

DjêiCí, além de um grande músico, era grande ativista. Seus shows eram permeados por aplausos aos vocalista-ativista. Diferente de um rockeiro similar, ele ignorava os governantes e falava ao povo. Vários shows foram feitos em países que outras bandas ignoram (a baixos preços), para que DjêiCí pudesse ir fazer seus discursos.

“Foram décadas divertidas”, disse ele, em uma entrevista a Jô Soares, em uma passagem feita no Brasil. E o sucesso com certeza também era divertido, porque DjêiCí era mais famoso que o papa. Qualquer papa.

Talvez famoso demais. Seus discursos faziam efeito demais, e eventualmente incomodaram a pessoa errada. Sondando um ponto fraco, eles descobriram que o baixista Judas “Scar” Iotes (conhecido como Scar por causa de uma cicatriz feita em um de seus olhos, como parte de sua imagem pública. A notícia oficial é que era um ferimento dos tempos de berçário, quando ele defendeu sua mamadeira de 6 bebês valentões) estava tendo sérios problemas com a veia messiânica de DjêiCí, e cogitava sair da banda. DjêiCí, por sua vez, queria evitar a partida do único baixista.

Mas a vida prosseguia, e os Little Monkeys estavam indo a todo vapor. Shows marcados na China (o governo teve de ceder às exigências dos fãs), na Argentina, Colômbia, Índia, Irlanda… ia ser um tremendo ano, mas DjêiCí, após uma noitada, foi (história oficial) levado para um beco escuro por uma gangue, espancado até a morte, e teve sua língua pregada na porta de uma igreja.

Luto oficial. O mundo chorava a morte de um dos maiores ídolos da história do mundo.

A história oficial é a que se conta até hoje, mas um grupo de nerds internautas paranóicos teorizam, sem saber que estão corretos, que um certo baixista descontente vendeu o lead vocal da melhor banda de todos os tempos…





4/06/2010
Sinto falta
Postado nas categorias 6 x 9 = 42, Diarinho

… de tudo que foi bom em relacionamentos antigos. Sinto falta porque foram bons momentos, e eu tive alguns ótimos relacionamentos. Meu melhor aniversário no Rio de Janeiro, noites deliciosas no frio bem agarrado em uma cama estreita com alguém que encostava firme a testa na minha. Sinto falta de mais, porque eu sou um saudosista idiota do caralho.

E, no entanto, meu pescoço não tem uma marca de corda, e eu ainda estou bem vivo. Às vezes surge uma frase de alguém que me leva a repetir uma coisa que eu sempre falo, hoje em dia: “Eu sou imortal”. Porque é verdade, e é algo triste. Mas antes de explicar isso, tem outro sentimento que eu preciso explicar.

Ano passado, uma prima minha morreu. Overdose, um jeito idiota. Fiquei sabendo por telefone, meu pai me ligou numa tarde em que eu estava em um estágio que já estava complicado. Já aconteceu de vocês ouvirem uma notícia ruim passada de um jeito sutil, e captarem, mas no mesmo instante a mente nega aquela possibilidade e vocês precisam ouvir de novo pra ter certeza que aconteceu? Comigo nunca tinha acontecido. Nesse dia eu senti algo que eu chamo de “parece injusto o mundo continuar girando enquanto isso acontece.” Não é tristeza, porque é mais forte, e não é depressão, porque não é um desequilíbrio químico. É algo esperado e natural, dada a situação.
Tem sentimentos que não podem ser descritos com apenas uma palavra. Pelo menos, na minha opinião.

Mas eu sou imortal. Não me entendam errado, um dia eu vou morrer, mas essa é a melhor forma que encontrei de explicar o fato de que eu não sinto mais o sentimento de “não quero mais continuar”, e já faz alguns anos. Passo mal, passo triste, mas ainda vou fazer minhas piadas, se for o caso, vou fazer o que preciso, ou parte. E um dia vai passar. Vão ficar os bons momentos, em algumas madrugadas deprimidas, com um copo de suco de uva do lado (ser abstêmio tem seus momentos corta-clima), vou lembrar das fotos no planetário e no jardim botânico. É natural, lembranças são lembranças, como me disse uma amiga.

Por outro lado, é fácil esquecer as noites de brigas, ou o que eu dizia quando discutia com a paranóica maluca, ou os detalhes da minha elaborada vingança contra a que não prestava. Foram momentos ruins, e esses foram embora rápido. Até nunca mais, e obrigado pelos peixes.

Mas o que a gente faz com os momentos subindo ladeira, ou rolando em cima da coberta (nunca entendi como as pessoas rolam embaixo da coberta)? A gente tira do caminho, e guarda em um canto não muito grande do coração, pra não ficar no caminho do que vem.

Porque é esse o segredo da minha imortalidade: eu sei que o tempo passa. E acho isso muito injusto, em certas ocasiões. Devia ter uma forma de sair do tempo, por algum — ironicamente — tempo, pra dar tempo de o impacto do evento passar e a gente poder se adaptar sem o mundo entrar no caminho. Mas não pára, e mesmo assim a gente se adapta.
Se adapta, e um dia aparece algo diferente, e o mundo fica bom de novo. Sabe, quando aquele aniversário no RJ passou, apareceu uma cama estreita e testas pressionadas uma contra a outra. E o aniversário foi sequência de algo que veio antes. E depois vai aparecer algo, também. Talvez seja algo que já veio e volte, ou talvez seja alguém totalmente diferente, digamos, loira, de lindos olhos verdes, sorriso extra-fofo, uma voz que me acorda cedo sem eu me incomodar, e muito mais que eu tenho que descobrir.

E irei, no tempo certo, porque estarei vivo no dia. E, como sou imortal, ainda vou descobrir tudo.

Eu sinto falta, não só do passado, mas também do futuro.